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Segundo a radiodifusora pública RÚV, o "não" venceu com 52,8% dos votos, contra 47,2% do "sim", uma diferença de apenas cerca de 12.600 votos, num total de 225.031 votos contados. A afluência às urnas foi de 82,5%, a mais alta em qualquer eleição na Islândia desde 2009, o que traduz o interesse da população, num país de apenas cerca de 400 mil habitantes.
A pergunta feita aos eleitores foi "a Islândia deve retomar as negociações de adesão com a União Europeia?", e este pormenor pode ter sido decisivo, segundo uma análise do Guardian. É que um voto "sim" não significaria uma adesão imediata, mas apenas o reatar de negociações, cujo eventual acordo final teria ainda de ser aprovado num segundo referendo mais tarde. Isto tornou a campanha do sim mais ambígua, um dos seus lemas era "Já til að sjá" ("sim para ver"), enquanto o não representava uma escolha bem mais clara e decisiva, o que pode ter beneficiado essa campanha.
Os resultados revelaram uma divisão geográfica muito marcada: Reiquiavique foi a única região com maioria de votos a favor do sim, ainda que mais estreita do que os apoiantes esperavam, enquanto nas zonas rurais o não venceu com folga, no noroeste do país, ligado à pesca e à agricultura, quase 63% votaram contra. Também entre os jovens se notou uma mudança: em junho, quase dois terços dos eleitores entre os 18 e os 29 anos diziam que iriam votar sim, mas em finais de agosto essa percentagem tinha caído para apenas 40%.
O argumento central da campanha do não foi a pesca. As pescas e a indústria marítima representam quase 40% das exportações islandesas, e muitos eleitores temiam perder o controlo sobre as suas águas e quotas de pesca ao abrigo da Política Comum das Pescas da UE, partilhada com 27 outros países. A isto juntou-se um forte apelo à soberania nacional, com a ideia de que direitos conquistados ao longo de gerações não deveriam ser cedidos a Bruxelas, uma campanha bem financiada que chegou a ser comparada, por alguns opositores, às táticas usadas pelos apoiantes do Brexit no Reino Unido em 2016. Nem os sinais da UE de que estaria disposta a fazer concessões sobre a pesca conseguiram demover os eleitores.
Segundo o Politico, do lado do sim, os principais argumentos foram a possível adopção do euro, vista como forma de combater a inflação e as taxas de juro elevadas, e a ideia de que aderir à UE traria mais segurança e estabilidade num mundo instável, marcado pela guerra na Ucrânia, pelas tarifas comerciais dos Estados Unidos e pela retórica do presidente Donald Trump sobre uma eventual anexação da Gronelândia, vizinha da Islândia. Defendia-se ainda que, como membro do Espaço Económico Europeu, a Islândia já é obrigada a adoptar muitas regras da UE sem ter qualquer poder de decisão sobre elas, pelo que a adesão lhe daria mais voz nesse processo. Ainda assim, estes argumentos, tal como as próprias preocupações de segurança, acabaram por ficar secundários face ao domínio do tema das pescas no debate.
A primeira-ministra Kristrún Frostadóttir, do campo social-democrata, tinha apostado fortemente na campanha do sim, apresentando o referendo como um momento de "agora ou nunca". Depois da derrota, disse esperar que o resultado não deixe o país dividido, e prometeu ter em conta as preocupações manifestadas sobretudo nas zonas rurais sobre o impacto nas pescas, na agricultura e nos recursos naturais. Do lado vencedor, o deputado conservador Guðlaugur Þór Þórðarson considerou os resultados "muito claros", afirmando que "os islandeses não querem que a Islândia entre na UE", enquanto Guðrún Hafsteinsdóttir, líder do Partido da Independência, defendeu que o país está melhor a traçar o seu próprio rumo, mantendo-se apenas no Espaço Económico Europeu. O resultado foi ainda saudado por líderes europeus de extrema-direita: Marine Le Pen escreveu que o voto mostra que "outra Europa é possível", feita de nações soberanas que cooperam voluntariamente, e Nigel Farage felicitou a Islândia por "votar para manter a sua independência".
Importa lembrar que, este não é o primeiro capítulo desta história, a Islândia começou o processo de adesão em 2009, na sequência da crise financeira de 2008 e do colapso do seu sistema bancário, mas as negociações foram suspensas em 2013 por um governo eurocético e formalmente encerradas em 2015, precisamente devido a desacordos sobre as quotas de pesca, o mesmo obstáculo que persiste hoje. O actual governo, no poder desde finais de 2024, tinha prometido este referendo, e acabou por antecipá-lo devido ao agravar das tensões internacionais.
Um "não" não fecha a porta em definitivo, e a Islândia poderá, em teoria, voltar a pedir a retoma das negociações no futuro. Ainda assim, segundo Hallgrímur Oddsson, fundador do think tank europeu Evrópustraumar, é provável que a questão da UE fique arrumada por uma geração inteira, a menos que surja algum choque externo — por exemplo, uma alteração ao acordo do Espaço Económico Europeu. Para Bruxelas, o resultado representa uma desilusão: a adesão da Islândia teria sido interpretada como um sinal de força e de unidade europeia, num momento de tensão entre os Estados Unidos e a Europa e de crescente influência de potências autoritárias como a Rússia e a China.
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