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Perícias de elevada complexidade, novos ensaios e falta de documentação técnica explicam o atraso. Ministério Público (MP) prevê concluir investigação até março de 2027

Quase um ano depois do acidente que provocou 16 mortos e 24 feridos, continuam sem resposta definitiva várias das principais questões sobre o descarrilamento do Elevador da Glória, em Lisboa. O MP estima agora concluir o inquérito criminal até ao final do primeiro trimestre de 2027, depois de terminar uma série de perícias e ensaios técnicos.

A investigação tem sido prolongada sobretudo pela complexidade dos exames necessários para perceber o que aconteceu ao equipamento. Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), à medida que os resultados foram sendo obtidos surgiram “novas dúvidas e necessidade de esclarecimentos técnicos adicionais”, obrigando à realização de novos ensaios. As perícias deverão estar concluídas em novembro.

O processo envolve também o Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) que conduz uma investigação técnica independente. Apesar de terem objetivos diferentes, o MP e o GPIAAF estão a realizar em conjunto várias das perícias, uma opção justificada pelo facto de alguns dos testes serem destrutivos e irrepetíveis.

Um equipamento único dificulta a investigação

Um dos problemas identificados pelos investigadores é a própria natureza dos ascensores da Glória e do Lavra. São equipamentos históricos e únicos no mundo, não existindo outros veículos exatamente iguais que possam servir de referência. A documentação técnica disponível também é considerada escassa, o que obrigou os peritos a recorrer a engenharia reversa para perceber em detalhe o funcionamento dos sistemas.

Entre os trabalhos realizados estão testes ao cabo e às respetivas fixações, análises físicas, químicas e metalográficas dos materiais e ensaios aos sistemas de travagem. Os investigadores procuram ainda determinar o comportamento dos travões em diferentes condições e perceber a influência de fatores como afinações, aderência e características da via.

O estudo acabou por ser alargado durante a investigação. Além das análises inicialmente previstas, foi acrescentada uma perícia especializada para avaliar aspetos relevantes do circuito elétrico dos ascensores. Os diferentes exames têm ainda uma relação de dependência entre si, o que significa que alguns só podem avançar depois de outros estarem concluídos.

O que já se sabe

O relatório preliminar do GPIAAF, divulgado em outubro de 2025, já tinha identificado falhas e omissões relacionadas com a manutenção do ascensor, bem como problemas na formação dos trabalhadores e na supervisão dos trabalhos realizados pela empresa prestadora do serviço. Essas conclusões, contudo, não equivalem ao apuramento final de responsabilidades pelo acidente.

O inquérito do MP tem uma finalidade diferente da investigação técnica do GPIAAF. Enquanto esta última procura determinar as causas e fatores que contribuíram para o acidente e formular recomendações de segurança, o processo criminal pretende apurar se existem indícios de crime e eventuais responsabilidades criminais.

Por isso, a previsão de conclusão para o primeiro trimestre de 2027 não significa necessariamente que todas as questões sobre o acidente ficarão resolvidas nessa data. O Ministério Público terá ainda de analisar os resultados das perícias, avaliar os indícios recolhidos e decidir se há lugar à constituição de arguidos ou a outras consequências processuais.

Enquanto isso, o Elevador da Glória permanece fora de serviço. A Carris prepara uma nova solução para o histórico ascensor, com previsão de entrada em funcionamento em 2029, mantendo a ligação à identidade do equipamento original, mas com um sistema renovado.

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