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E, claro, de um lado os que defendem que a proibição é censura e intervenção política na cultura; e do outro, os que defendem a política de intolerância institucional face a discursos considerados discriminatórios ou perigosos.

No início de abril, o Reino Unido recusou a entrada do artista no país, alegando que a sua presença não seria “conducente ao bem público”. Essa decisão teve consequências imediatas: o festival Wireless, em Londres, onde Kanye West seria cabeça de cartaz durante três dias, acabou por ser cancelado. O episódio desencadeou uma reação em cadeia, incluindo a retirada de patrocinadores, críticas de vários partidos políticos, tanto do governo como da oposição, e o apoio explícito de organizações representativas da comunidade judaica à decisão de barrar o artista. O governo britânico foi particularmente claro ao afirmar que o combate ao antissemitismo justificava a intervenção direta.

Segundo o Home Office, estes poderes são usados sobretudo por razões de segurança nacional, extremismo, relações internacionais ou crime organizado. Em 2024, 15 pessoas foram impedidas de entrar ao abrigo destas regras.

A decisão baseia-se numa avaliação de probabilidade e pode considerar comportamentos como a promoção de ódio. No caso de Kanye, é provável que tenha sido tido em conta o facto de divulgar conteúdos que incentivam o ódio, potencialmente contribuindo para tensões entre comunidades, nomeadamente a

música intitulada Heil Hitler, numa altura de aumento recente de incidentes antissemitas no Reino Unido.

Este tipo de exclusão não exige que tenha havido incitação direta à violência, basta que haja promoção de ódio. A lei também permite ao governo ir além das orientações existentes, dada a natureza ampla dos seus poderes.

Ye não é o primeiro artista impedido de entrar em Ingaterra. Em 2015, Tyler, the Creator foi barrado por motivos semelhantes, relacionados com conteúdos das suas músicas considerados perturbadores. Outras proibições incluem figuras com condenações criminais, mas nesses casos a base legal costuma ser diferente.

A exclusão com base no “interesse público” tende a aplicar-se a declarações ou comportamentos considerados inaceitáveis, muitas vezes de natureza política ou religiosa. No entanto, estes poderes são controversos, por dependerem de decisões políticas sobre o que constitui uma ameaça ao interesse público e poderem ser potencialmente abusados e mal intencionados.

Contestar esta decisão em tribunal seria difícil: seria necessário provar que o governo interpretou mal os seus poderes ou tomou uma decisão irracional, um critério legal muito exigente, que normalmente favorece a posição do ministro do Interior.

As autoridades francesas também estão a tentar impedir a realização de um concerto de Kanye West, previsto para junho no Estádio Vélodrome, em Marselha. O processo está a ser liderado pelo ministro da Administração Interna francês, Laurent Nuñez, que, segundo fontes oficiais, está “muito determinado” em travar o espetáculo e já instruiu os serviços do ministério a explorarem “todas as possibilidades” legais para impedir que o evento avance. Esta posição foi reforçada durante uma visita recente a Marselha, onde o ministro discutiu o assunto com responsáveis locais e regionais, incluindo o autarca da região Provença-Alpes-Côte d’Azur e o presidente da câmara da cidade, Benoît Payan.

Benoît Payan já tinha deixado claro, publicamente, que não pretende que Marselha acolha o artista, afirmando que se recusa a transformar a cidade numa “montra para quem promove o ódio e o nazismo”. Numa mensagem publicada em março, declarou mesmo que Kanye West “não é bem-vindo” no Vélodrome.

Neste momento, o concerto em Marselha permanece oficialmente agendado, mas adiado, o governo francês continua a avaliar instrumentos legais - que poderão passar por argumentos de ordem pública, segurança ou prevenção de incitamento ao ódio - para justificar uma eventual proibição. Foi o próprio Ye que adiou o espetáculo “até nova ordem”.

Nos Países Baixos, por exemplo, as autoridades concluíram que não existem fundamentos legais para impedir a entrada de Kanye West, permitindo assim a realização dos concertos agendados para junho. Também Itália já garantiu que o concerto vai acontecer.

Até ao momento, não é conhecida qualquer intenção do Governo português de bloquear o concerto agendado em Portugal, no Estádio do Algarve, a 7 de agosto, nem qualquer indicação de cancelamento por parte das autoridades ou da administração do Estádio do Algarve. A promotora do evento também garante que a data se mantém e que não há impacto das decisões do Reino Unido na digressão europeia.

A lei portuguesa permite teoricamente recusar a entrada a estrangeiros que representem uma ameaça à ordem pública ou segurança nacional. No entanto, na prática, isso seria muito difícil de aplicar neste caso, por poder colidir com a liberdade de expressão e porque este tipo de proibição costuma estar reservada para situações como terrorismo, crimes graves ou problemas documentais.

Nos últimos anos, Kanye West acumulou controvérsias relacionadas com declarações antissemitas, elogios ao nazismo e aproximações a figuras da extrema-direita. Entre os episódios mais criticados estão comentários em que afirmou “gostar de nazis”, declarações elogiosas sobre Adolf Hitler, e a divulgação de mensagens que reproduzem teorias conspirativas antissemitas. Em 2025, lançou a música “Heil Hitler” e comercializou produtos com simbologia nazi, como T-shirts com suásticas. Já anteriormente tinha gerado polémica com o slogan “White Lives Matter”, visto como uma provocação ao movimento antirracista Black Lives Matter.

Apesar de ter pedido desculpa em várias ocasiões, incluindo uma declaração pública em 2023 dirigida à comunidade judaica e um novo pedido em 2026, no qual afirmou ter “perdido o contacto com a realidade”, por sofrer de bipolaridade, e prometeu mudança, muitos responsáveis políticos, organizações judaicas e setores da sociedade civil consideram que os pedidos de desculpa não foram acompanhados por uma mudança consistente de comportamento.

*Texto originalmente publicado na newsletter Isto é útil de 15/4/2026

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