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Estas primárias são particularmente importantes por oferecerem uma visão clara das estratégias e dilemas dos partidos nos Estados Unidos em 2026. Os democratas, escolheram no Texas James Talarico em vez de Jasmine Crockett o que indica uma aposta na pragmática na elegibilidade e na mobilização de independentes, enquanto os republicanos enfrentam divisões internas com Cornyn e Paxton, cuja disputa poderá prolongar-se e enfraquecer temporariamente o partido.

Os olhos estão postos no Texas, em particular, por emergir como um terreno potencialmente competitivo, apesar de historicamente conservador, e pode ser um teste crítico para os democratas na tentativa de quebrar décadas de hegemonia republicana.Também na Carolina do Norte e no Arkansas já se começaram a definir candidatos para corridas estratégicas ao Senado e à Câmara, mostrando como ambos os partidos ajustam tácticas para por um lado mobilizar a base e por outro conquistar eleitores centristas.

A aposta democrata em James Talarico

No lado democrata, o deputado estadual James Talarico, de 36 anos, derrotou a congressista Jasmine Crockett, de 44 anos, numa primária muito disputada e que se tornou pessoal. Com 92% dos votos apurados, James Talarico recolheu 52,8% dos votos (1.188.253), enquanto Jasmine Crockett ficou com 45,9% (1.034.096) e o candidato menor Ahmad Hassan com 1,3% (30.009 votos).

James Talarico, ex-professor e seminarista presbiteriano de Round Rock, era praticamente desconhecido no Estado antes de entrar na corrida em setembro de 2025, mas ganhou notoriedade ao tornar a sua fé num elemento central da campanha. Ganhou reconhecimento nacional quando o apresentador do Late Show, Stephen Colbert, afirmou que não o poderia o entrevistar devido a possíveis ingerências da FCC (Comissão Federal de Comunicações) na CBS. Apesar de a entrevista não ter ido para o ar na televisão, acabou por ser amplamente distribuída online e teve milhões de visualizações, dando a James Talarico um impulso significativo em visibilidade e notoriedade fora do Texas.

Financiaramente, James Talarico manteve vantagem significativa, arrecadando mais de 20 milhões de dólares, contra 3,7 milhões de Jasmine Crockett desde o lançamento tardio da sua campanha em dezembro, acrescendo 4,8 milhões transferidos da sua conta da Câmara.

A disputa entre Talarico e Crockett evidenciou abordagens distintas dentro do Partido Democrata. Jasmine Crockett apostou na sua experiência em Washington e em mobilizar a base tradicional, sobretudo eleitores jovens e negros, enquanto James Talarico defendeu que os democratas deveriam ir além do seu eleitorado habitual e atrair independentes descontentes com Donald Trump.

Durante a primária democrata para o Senado do Texas, a disputa entre James Talarico e Jasmine Crockett não se resumiu apenas a políticas e propostas, também reacendeu o debate sobre a chamada “elegibilidade”, ou seja, sobre quem teria mais hipóteses de vencer nas eleições gerais em novembro.

Alguns aliados de James Talarico sugeriram publicamente que Crockett, apesar de popular e combativa, poderia não ser a candidata mais viável contra um republicano, levantando dúvidas sobre a sua capacidade de conquistar eleitores independentes ou moderados fora da base progressista. O facto de Jasmine Crockett ser negra fez com que esses comentários fossem interpretados como aquilo a que os americanos chamam de dog whistles, isto é mensagens codificadas que, sem o dizer diretamente, passam uma conotação racial discriminatória. A candidata denunciou estas críticas como tentativas de “derrubar uma mulher negra”, defendendo que tais dúvidas sobre a sua elegibilidade eram uma forma de minar a sua candidatura e desvalorizar a sua capacidade de liderar.

Além desta tensão interna, o dia da votação trouxe problemas logísticos em vários condados, especialmente Dallas (onde Jasmine Crockett tem a sua base) e Williamson, próximo de Austin. Houve relatos de eleitores que foram impedidos de votar ou enviados para locais errados devido a novas regras das primárias e alterações nos distritos eleitorais. Estas confusões levaram Crockett a anunciar que poderia tomar ações legais para contestar estas irregularidades e garantir que os votos afetados fossem contabilizados de forma adequada.

Republicanos divididos

Na primária republicana para o Senado no Texas, o senador John Cornyn, que ocupa o cargo há vários mandatos, e o procurador-geral do estado Ken Paxton foram os dois candidatos mais votados, mas nenhum conseguiu ultrapassar a fasquia dos 50%, o que os obriga a disputar uma segunda volta a 26 de maio.

Para John Cornyn, esta eleição é particularmente sensível. Está a tentar garantir um quinto mandato e evitar o cenário inédito de se tornar o primeiro senador republicano do Texas, na era moderna, a falhar a renomeação pelo próprio partido. A sua candidatura representa o establishment republicano texano, experiência legislativa, presença em Washington e um perfil tradicionalmente conservador, mas menos alinhado com os setores mais combativos do partido.

Do outro lado está Ken Paxton, figura fortemente associada ao movimento MAGA e com apoio significativo entre eleitores leais a Donald Trump. O seu percurso político é marcado por controvérsias como ter sido julgado para destituição por alegada corrupção, do qual acabou absolvido, e tem sido alvo de polémicas pessoais, incluindo alegações de infidelidade tornadas públicas pela própria mulher. Ainda assim, mantém uma base mobilizada que vê em si um combatente contra o sistema e contra as instituições federais.

O ex-congressista Wesley Hunt ficou em terceiro lugar e acabou por desistir, o que intensifica a polarização entre Cornyn e Paxton. A sua saída do processo elimina uma alternativa intermédia e concentra o confronto em duas visões distintas do Partido Republicano, a da continuidade institucional contra a da insurgência alinhada com o trumpismo mais puro.

A segunda volta promete ser agressiva e dispendiosa, com forte investimento em publicidade e ataques pessoais. O embate não é apenas ideológico, mas também estratégico, Cornyn tem uma relação mais distante e menos performativa com Trump, enquanto Paxton capitaliza a proximidade à base MAGA como ativo central da campanha.

As implicações ultrapassam o próprio partido. A escolha do candidato republicano influenciará diretamente as hipóteses democratas em novembro. Se os republicanos optarem por um perfil mais polarizador, isso poderá abrir espaço a um discurso democrata centrado na “electability” e na captação de independentes. A vitória de James Talarico nas primárias democratas aumenta a pressão sobre os republicanos: a decisão entre Cornyn e Paxton será também uma escolha sobre qual o risco eleitoral que o partido está disposto a correr num estado historicamente conservador, mas cada vez mais observado como potencialmente competitivo.

Carolina do Norte

Na Carolina do Norte, os resultados das primárias confirmaram o esperado: o democrata Roy Cooper, ex-governador, e o republicano Michael Whatley, ex-presidente do Comité Nacional Republicano, avançaram para a eleição de novembro. Esta corrida é vista como crucial para o equilíbrio de poder no Senado. Apesar de Whatley ter o apoio de Trump, surgiram dúvidas sobre a sua capacidade de mobilizar totalmente a base MAGA, com alguns votantes a preferirem candidatos mais alinhados com os setores mais radicais do partido.

Arkansas

À data de publicação deste artigo ainda não há resultados conhecidos para o Arkansas, mas o simples facto de integrar o grupo de Estados que abriram a época eleitoral reforça a leitura regional do Sul como território-chave para medir a vitalidade do movimento conservador alinhado com Trump. Sendo um estado tradicionalmente republicano, o Arkansas funciona como indicador de consolidação que pode permitir perceber até que ponto o alinhamento com o MAGA é dado como adquirido dentro do partido.

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