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A pirotecnia portuguesa poderá vir a ser reconhecida oficialmente como Património Cultural Imaterial. A ANEPE – Associação Nacional de Empresas de Produtos Explosivos está a preparar uma candidatura ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, num processo que conta com o apoio científico da Universidade do Porto e que pretende valorizar e salvaguardar um saber-fazer com forte presença nas tradições festivas do país.
Em conversa com o 24notícias, a presidente da ANEPE, Lina Guedes, explica que a candidatura procura enquadrar a pirotecnia portuguesa enquanto prática cultural enraizada nas comunidades e transmitida ao longo de gerações. Segundo a dirigente, um dos critérios centrais é precisamente a continuidade do conhecimento técnico entre mestres e aprendizes. "Estamos perante um saber-fazer que foi sendo passado ao longo de gerações, muitas vezes dentro das próprias famílias", afirma.
A responsável sublinha ainda que a pirotecnia ocupa um lugar de destaque nas celebrações, funcionando muitas vezes como elemento central das festividades. "A pirotecnia está profundamente ligada às festas populares, às celebrações religiosas e aos momentos coletivos que estruturam o calendário ritual das comunidades. Não é um elemento acessório, é muitas vezes o ponto alto das celebrações”, refere Lina Guedes, acrescentando que a prática é amplamente reconhecida pelas comunidades que a mantêm viva.
A candidatura pretende também documentar de forma aprofundada os processos técnicos e as tradições associadas à atividade pirotécnica. Para esse efeito, está previsto um trabalho de recolha audiovisual e documental que inclua tanto os espetáculos públicos como os bastidores da preparação. "Não se trata apenas de registar os espetáculos, mas de captar todo o universo que lhes dá origem", explica a presidente da ANEPE, destacando que serão registados processos de fabrico, métodos de montagem e princípios de segurança.
Estamos perante um saber-fazer que foi sendo passado ao longo de gerações, muitas vezes dentro das próprias famíliasLina Guedes, Presidente da ANEPE
Outro eixo central do projeto passa pela recolha de testemunhos de profissionais do setor, muitos deles detentores de décadas de experiência. “Esse será o arquivo oral, através da recolha de testemunhos de mestres pirotécnicos e artesãos", afirma Lina Guedes, acrescentando que a informação recolhida deverá integrar bases de dados digitais acessíveis a investigadores e ao público.
O processo de candidatura incluirá também um trabalho de proximidade com as comunidades onde a pirotecnia tem maior expressão. A associação prevê realizar consultas públicas e recolher contributos de artesãos, empresas, autarquias e comissões de festas locais. "Não é possível construir uma candidatura desta natureza sem o envolvimento direto das comunidades", sublinha a dirigente, acrescentando que os próprios mestres pirotécnicos serão envolvidos como "coautores do processo".
Do ponto de vista científico, o projeto será desenvolvido com recurso a diversas fontes e metodologias de investigação. Arquivos históricos, registos audiovisuais e entrevistas de história oral farão parte do trabalho conduzido por investigadores do Departamento de Ciências e Técnicas do Património da Universidade do Porto. Está igualmente prevista a elaboração de uma cartografia cultural das práticas pirotécnicas em Portugal.
A pirotecnia está profundamente ligada às festas populares, às celebrações religiosas e aos momentos coletivos que estruturam o calendário ritual das comunidades. Não é um elemento acessório, é muitas vezes o ponto alto das celebrações
Para a ANEPE, o reconhecimento da pirotecnia como património cultural imaterial poderá trazer benefícios em várias dimensões. "O reconhecimento formal da pirotecnia como expressão identitária reforçará a sua legitimidade enquanto património vivo", afirma Lina Guedes, acrescentando que a medida poderá também contribuir para valorizar o setor e incentivar a continuidade geracional da profissão.
A presidente da associação considera ainda que a candidatura poderá reforçar a visibilidade nacional e internacional da pirotecnia portuguesa e abrir novas oportunidades de investigação e formação. "No plano educativo e científico, permitirá integrar esta área em projetos pedagógicos e de investigação", conclui.
A pirotecnia em Portugal: da pólvora às grandes noites de espetáculo
A história da pirotecnia em Portugal está profundamente enraizada na tradição festiva, no engenho artesanal e na evolução técnica que liga a arte de criar fogo de artifício às celebrações populares e aos grandes espectáculos públicos. O panorama nacional contemporâneo reflete uma herança secular adaptada às exigências modernas, nomeadamente à técnica, segurança e espetáculo.
Antes de se falar especificamente de Portugal, a pirotecnia, tal como a conhecemos hoje, a arte de produzir efeitos luminosos e sonoros, tem raízes antigas que remontam ao desenvolvimento da pólvora. A invenção da pólvora, atribuída historicamente à China entre os séculos IX e X, foi essencial para que se começasse a explorar misturas inflamáveis que libertavam luz e ruído quando queimadas, de tal forma que, ao longo dos séculos, estas técnicas evoluíram até aos espetáculos modernos de fogos de artifício sincronizados com música e tecnologia eletrónica.
A pirotecnia em Portugal é muito mais do que artefatos que iluminam o céu. Ela está intrinsecamente ligada a festas populares, santos-popular, celebrações de fim de ano e eventos musicais ou culturais em que o fogo de artifício assume um papel emotivo e simbólico, evocando alegria, tradição e coletividade. Por exemplo, nas festas de São João no Porto, que misturam tradição religiosa com elementos festivos, os fogos de artifício continuam a fazer parte da celebração noturna junto às ruas e bairros, revivendo costumes antigos de luz e ruído para marcar transições sazonais.
Ao longo do século XX e início do século XXI, a pirotecnia portuguesa evoluiu de uma atividade artesanal para uma indústria criativa que combina habilidade manual, maestria química e inovação tecnológica. A transição incluiu a adoção de técnicas modernas de disparo eletrónico e a integração de efeitos sincronizados com música e multimédia, aproximando-se de uma coreografia visual no céu, agora comum em espectáculos públicos de grande escala.
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