Paulo Finuras: "Quando desejo, capacidade e oportunidade se alinham, qualquer mente humana pode tornar-se criminosa"

O bio-sociólogo Paulo Finuras, professor da Business & Economics School of Lisbon (ISG) tem uma especialidade pouco comum: a influência da evolução no comportamento dos humanos. Em geral, as suas conclusões vão contra a perceção que temos da evolução, ou, melhor, de que a não-evolução continua a determinar o comportamento.
Paulo Finuras:

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Publicou cinco livros e em Agosto de 2024 conversámos com Paulo Finuras sobre “As Outras Razões - como a evolução dá sentido àquilo que fazemos”.  Agora as Edições Símbolo lançaram “A Mente Criminosa -As origens da violência, do engano e do crime” com teses que, novamente, contrariam a perceção vulgar das forças criminosas do indivíduo e da sociedade, e que serve de base a esta entrevista.

Pode dizer-se que tem uma tendência para desmanchar os mitos que estamos habituados a achar normais. Porque é que escolheu o tema do crime em particular, ou da prevaricação, como tema deste livro? É, mais uma vez, para nos deixar perplexos connosco?

Escolhi este tema porque há um erro recorrente: tratamos o crime como algo que pertence apenas a “outros”.

A minha tese é diferente. O crime não é uma anomalia rara. É uma possibilidade da mente humana.

Resulta de mecanismos normais, moldados pela evolução, que em certos contextos produzem comportamentos desviantes. O que me interessa não é o criminoso em si, é a mente que todos partilhamos e as condições que a ativam.

Pode resumir a sua tese em poucas palavras?

O livro propõe uma ideia central, o crime não é apenas falha moral ou patologia. É muitas vezes comportamento adaptativo num contexto específico. Uso uma lente evolucionista para mostrar que todos temos os mecanismos necessários, desejo, capacidade e oportunidade. Quando estes três elementos se alinham, o crime torna-se uma possibilidade real. Por isso, mais do que perguntar: “quem é o criminoso?”. Devemos perguntar: “em que condições uma pessoa se pode tornar um?”

Quer dizer que o crime é propiciado por condições específicas, seja quem for o agente?

A ideia central é simples: o crime não é exceção. É contexto.

Quando desejo, capacidade e oportunidade se alinham, qualquer mente humana pode tornar-se criminosa

É da nossa natureza.

Somos todos criminosos em potência? 

Não, eu não digo que somos todos criminosos. O que digo é que todos temos os mecanismos psicológicos que podem levar ao crime. Mas isso não significa que todos os ativem. A maioria das pessoas nunca o faz porque existem normas, instituições e custos que travam esse comportamento.

O ponto é simples: o crime não vem de fora da natureza humana. Vem de dentro, dependendo do contexto.

Em síntese: não somos todos criminosos, mas todos temos a capacidade. A diferença está no contexto e nos limites.

Parece uma forma de desculpabilizar o crime.

Eu não desculpabilizo o crime. Explicar não é desculpar.

Pelo contrário, compreender os mecanismos que levam ao crime permite preveni-lo melhor.

Se acharmos que o crime é apenas “desvio moral”, vamos falhar nas soluções. Se percebermos como e quando emerge, conseguimos desenhar contextos que o tornam menos provável.

A responsabilidade individual continua a ser central. Mas não existe no vazio. O comportamento humano é sempre uma interação entre mecanismos internos e contexto externo. Ignorar um dos lados dá-nos uma visão incompleta.

O que proponho é integrar responsabilidade individual e compreensão das condições que a influenciam.

O crime vem da biologia ou da cultura?

Não é uma escolha entre biologia e cultura. A cultura é construída sobre uma base biológica. Ignorar isso leva a explicações incompletas. O comportamento humano resulta sempre da interação entre as duas.

Contudo, é do senso comum achar que a maioria das pessoas não tem desejo de praticar crimes.

Porque o desejo também é calibrado. Na maioria das pessoas, os sinais do ambiente são inibidores: normas sociais fortes, risco de punição, reputação a perder, estabilidade de vida. Esses fatores “desligam” ou mantêm baixo o impulso para o crime.

Bem, isso contraria, a meu ver muito bem, o mito do “bom selvagem” do Rousseau. O estado natural, digamos assim, é o “mau selvagem”, que a sociedade obriga a tornar-se “bom” para poder conviver com os outros.

O ponto essencial é este: não é que as pessoas sejam fundamentalmente diferentes. Estão é inseridas em contextos que tornam o crime pouco vantajoso.

A maioria não sente o desejo porque o contexto não compensa? O custo é maior do que o benefício?

O que proponho é olhar para o crime como comportamento condicionado.

Temos mecanismos evoluídos que podem gerar esse comportamento, mas não estão sempre ativos.

Dependem dos sinais do ambiente. Quando esses sinais tornam o crime vantajoso, e quando há capacidade e oportunidade, ele emerge. Quando não tornam, não emerge.

Então isso explica duas coisas, porque é que a maioria das pessoas nunca comete crimes, e porque é que, em certos contextos, algumas pessoas o fazem de forma muito consistente.

O comportamento não muda porque as pessoas mudam. Muda porque o contexto muda.

Há uma coisa que me parece uma discussão interminável, que é se a natureza da pessoa é mais forte ou mais fraca do que o meio social em relação ao comportamento criminal da pessoa. Aliás, o adjectivo “criminal” é forte, talvez “prevaricador” seja mais abrangente.

Não, não, está correto.

Acho criminal muito forte, mas não sou o especialista. 

Costuma dizer-se que os maus ambientes provocam indivíduos com maus instintos, mas instinto não é coisa que tenha a ver com o ambiente, pois não?

É ativado, pode ser ativado pelo ambiente, mas essa questão é uma questão crucial, de qualquer forma.

Não é fácil a resposta, mas vou dizer a minha perspetiva. A primeira questão que temos de perceber é que aquilo que é crime já existia antes de haver lei. Ou seja, certos comportamentos a partir de uma dada altura, que quando começou a haver leis, passaram a ser criminalizados. O crime é um problema social.


Mas o crime, antes de haver leis, portanto, nos tempos tribais, pré-históricos, etc., não era forçosamente punido, nem mal visto.

Não, nem era, porque precisamente o ambiente era outro. Ou seja, ainda hoje se mantém: se o ambiente permitir, isso potencialmente podia acontecer, o crime não acontece.

Agora, primeiro temos que perceber essa questão: faz parte do repertório do comportamento aquilo que se chama hoje crime estratégico, que é o roubo, a apropriação de recursos, e os crimes também de ordem emocional, impulsiva, que não têm a ver com os estratégicos de apropriação de recursos. 

A partir de uma determinada altura, certos comportamentos, porque cortam a convivência social, passaram a ser criminalizados. Ou seja, e passaram a ser punidos. Embora a partir de uma certa altura, mesmo antes da lei, já houvesse punição do grupo sobre certos indivíduos. A polícia, eu digo isso no livro, é a continuação antropológica do grupo de vigilância e punição que já existia. Sobre certos comportamentos.

A polícia é muito recente em termos de civilização. Que eu me lembre, o primeiro “Intendente de Polícia” foi instituído pelo Napoleão. Em Portugal foi o Pina Manique, por ordem do Marquês de Pombal.

Sim, claro, mas antropologicamente já havia a vigilância e a punição. Muitos “bullies” eram mortos, assassinados pelo grupo, quando os indivíduos abusavam dos recursos do grupo ou se apropriavam. O que isto quer dizer é que o que leva a cometer aquilo que é hoje considerado um comportamento criminoso é um misto, é uma “conversa” entre a biologia e o ambiente. No livro, falo no triângulo do crime, que é o desejo, a oportunidade e a capacidade.

Então não é só a ocasião que faz o ladrão...

O crime surge quando há o alinhamento dos três, a convergência dos três. Se se atuar sobre um dos elementos, em princípio reduz o comportamento criminal. Porque se pode ter o desejo e a capacidade, mas se não se tiver a oportunidade, não se comete o crime. E mesmo caso haja, mesmo que se tenha a oportunidade e a capacidade, se não se tiver o desejo também não se comete.

A maior parte das pessoas não têm desejo de cometer um crime. Porque o ambiente também não estimula isso. Não se cria a oportunidades desde logo, não é? Se a perceção que se tem da punição é alta, de que não há impunidade, de que há vigilância, de que se vai ser apanhado e se é punido, na relação custo-benefício não compensa. E por isso a maior parte das pessoas não comete crimes.

É instintivo da pessoa?

O que se chama de instintivo tem a ver com o resultado. O que eu quero dizer é, não é que a pessoa pensa: "olha, tenho aqui uma oportunidade". Muitas pensam, só que não o fazem, autorregulam-se.


Claro, oportunidades, capacidades e desejos. Há pessoas que têm oportunidades e até o desejo, mas há falta na capacidade. Volto a insistir: não podemos substituir “crime” por uma outra palavra menos pesada, por exemplo, prevaricação?

Crime... Sim, até a prevaricação, isso é um eufemismo. Quer dizer, prevaricação pode ser criminal ou contra a ordem nacional, não é necessariamente um crime. Depois já tem a ver com a questão do dolo, não é? Da intenção de lesar, da negligência...

Mas não se refere à prevaricação em geral?

Não, não, não. Aqui é crime, quer do ponto de vista dos recursos estratégicos, quer do ponto de vista dos crimes impulsivos, etc. Mas isto não é um catálogo de crimes.  Portanto, o interesse para mim são as origens; por isso é que se chama "As Origens da Violência, do Engano e do Crime". As origens são adaptativas, portanto, nós tínhamos estes comportamentos, só que antes podia-se fugir mais facilmente, agora não se pode.

A mente criminosa, Paulo Finuras
A mente criminosa, Paulo Finuras


Voltando ao Rousseau e à teoria do bom selvagem, afirmava que era que o homem era naturalmente bom e a sociedade é que fazia mal. Penso exatamente o contrário, o homem é naturalmente mau, até por uma questão de autodefesa. Mau não num sentido ativo, mas no sentido de se defender. E que a sociedade é que o obrigou a amainar os seus instintos malignos...

Obrigou-o a domesticar-se para poder viver na sociedade.

Em parte concordo consigo. Não coloca em termos binários mau ou bom. O que interessa aqui é a mente humana. A mente que é o produto deste cérebro ancestral, que tem centenas de milhares de anos, aliás, tem mais. Mas a mente não é boa nem é má. A mente é adaptativa. Adapta-se.

Portanto, o indivíduo, no fundo, tem que se ajustar a um ambiente. Isso é o resultado de uma conversa entre a biologia e o ambiente. Estou a desenvolver um modelo, estou a aplicar aqui e já nos módulos da nossa metodologia fiz o mesmo, a que eu chamo de MACX. Não é a metodologia da Alfredo da Costa, com dois X's, é MACX, que é o modelo de ativação e calibragem condicional.

Quer dizer, todos nós temos basicamente os mesmos mecanismos. O crime acontece no software, não acontece no hardware. Há casos excecionais, mas isso são outras questões, e patológicos, mas não é esse o filme.

Há mentes criminosas?

Não há uma mente criminosa em absoluto. Um cérebro com problemas pode levar a determinados comportamentos antissociais, mas isso é outra questão, e já aconteceu com tumores e coisas do género. Mas na generalidade do comportamento criminal não é isso que acontece. O que há é que os mecanismos estão cá. Estão latentes em todos nós, depois são ativados e calibrados ao ambiente. Ou seja, são condicionalmente ativados.

Estão latentes em todos nós?

Ou seja, a possibilidade de acontecer está em nós, está na nossa mente. Agora, a ativação e a calibragem do comportamento dependem dos sinais do ambiente. Isso é o que eu falo nas janelas partidas.

Se o ambiente dá sinais, aliás, isto sabe-se mesmo dentro de termos de estratégias de vida rápida e lenta, como dizem os psicólogos. Eu gosto muito deste conceito. tudo depende dos sinais que o ambiente dá, porque se ajusta, ou seja, o ambiente é imprevisível, é incerto, é agressivo, é perigoso, as estratégias de vida são rápidas, tem que rapidamente tentar-se fazer tudo. Obter recursos, procriar, morrer. Porque não compensa investir no longo prazo.

Se tem o ambiente que é certo, as instituições são fortes, os sinais são de que o ambiente não é ameaçador, compensa mais ter um comportamento mais regrado, investir mais no futuro e a estratégia de vida lenta. Isto depois tem consequências várias, também no comportamento criminal.

Sociedade, aqui tanto pode ser tribo como país?

Comunidade. É comunidade, no fundo.

Comunidade humana. Mas há comunidades mais violentas que outras

Há, claro que há. As estatísticas mostram isso. Mais violentas, mais conservadoras.

Porque é que algumas comunidades são mais violentas que outras?

Isso é o resultado cumulativo da interação entre os ambientes e as pessoas.

Mas tudo parte da pessoa?

Não parte da pessoa. Há um resultado da pessoa com o ambiente. Porque o comportamento não acontece no vazio. Portanto, não se pode falar do comportamento de per si. Porque a pessoa é sempre um resultado condicional da calibragem com o ambiente. Portanto, há aqui um mix inevitável. Não é aquela questão velha se é da biologia ou da cultura. Não é biologia ou cultura, é biologia através da cultura. É diferente.

A biologia sozinha hoje não existe?

Não, tal como a cultura é um produto dessa própria biologia. Portanto, têm sempre em conta estas duas interações. Uma forma de perceber melhor o crime e porque é que há mais comportamentos criminosos, até na fase da vida, a chamada curva do crime, acontece entre os 20 e os 25 anos, começa antes e depois, a partir dos 30 anos, tende a acalmar. As políticas que se desenvolvem de prevenção do crime, de que falo nas janelas partidas, que é o que está mais confirmado, indicam que se o ambiente dá sinais de que não há vigilância, não há correção, não há punição, o ambiente está a dar uma mensagem: pode fazer. É tão simples quanto isto, pode-se fazer.

As janelas partidas refere-se àquela história em Nova Iorque?

Às várias experiências que foram feitas em que quando se põe dois carros abandonados, velhos, num sítio, independentemente do ambiente ser de alto rendimento ou baixo rendimento, o que acontece ao carro, independentemente de aparecer ou não uma janela partida.

A partir do momento em que aparece uma janela partida e não é reparada, a degradação continua a aumentar, porque chama mais degradação. Quando se faz um grafites, pinta-se um grafite e ninguém o limpa, está a dar-se o sinal de que se pode continuar a pintar. E passado uma semana estão lá cinco ou seis. Ou seja, tem que haver sinais do ambiente de que não compensa esse comportamento. Se não houver os sinais do ambiente, o ambiente está a da esses sinais na mesma, quer dizer que compensa.

As sociedades têm que se organizar de uma maneira a punir os comportamentos criminosos?

Todo tipo, não é só criminosos, contra-ordens racionais. Carro na passadeira, em cima do passeio, o lixo no chão, não apanhar o cocó do cão, todas essas pequenas coisas. Se não se intervém, está-se a intervir, só que a dizer: "Pode fazer".

Porquê é que há sociedades mais violentas que outras - como sociedades, não os indivíduos.

Aí depende de como é que se mede a violência, que indica de onde é que vem, não é?


São sempre conflitos tribais, porque no fundo trata-se de conflitos tribais. Mantêm-se, noutra dimensão e outro nome, mas a questão é a mesma.

Os homens são mais violentos que as mulheres?

Claramente.

Por a mulher ser a reprodutora?

Entre outras coisas. Mais por ser protetora.

Em termos custo-benefício, a ponderação, os custos de se envolver em confrontos físicos ou em violência, os riscos dados custos-proteção são muito mais altos para as mulheres, por isso é que as mulheres têm menos propensão para o risco. Porque são muito mais importantes os filhos, ainda hoje, do que os pais.

Pode dizer-se que os homens em si são mais violentos porque não têm os problemas relacionados com a procriação da espécie?

Mais ou menos. Os homens são mais violentos porque foi uma estratégia adaptativa de sempre e por outras questões também ambientais, sempre desenvolveram estratégias sendo a violência uma delas.



Há sociedades onde as mulheres são igualmente violentas. Estava-me a lembrar das unidades YPJ curdas.

Os mulheres podem ser violentas em qualquer sociedade.

Os curdos têm batalhões de mulheres.

Sim, mas isto são situações concretas, não são situações de generalidade na espécie, não é? Na generalidade, a espécie é violenta, mais típica dos homens, até por causa da testosterona, que é 30 vezes superior à que as mulheres têm.

A testosterona é que é a origem?

Sabia que quando o homem é pai, a testosterona cai a pique?

Não.

Porque reduz a agressividade e aumenta as possibilidades de defesa e proteção dos filhos. Cai brutalmente.

Ainda sobre os curdos, é uma tribo que por azar histórico, não vamos falar nos pormenores agora, mas nunca conseguiu ter um país. Existe uma zona chamada Kurdistão, mas não existe um país Kurdistão. Parte deles ficaram na Turquia, parte ficou no Iraque, e partes ficaram no Irão. É naquela faixa ali, entre os três países E nenhuma dessas três entidades lhes deu legitimidade, autonomia. E portanto, os curdos são famosos por serem uns guerreiros muito bons. Estão sempre em guerra porque não têm país, e têm batalhões de mulheres que são particularmente receados pelos opositores, que são todos muçulmanos e acham que se forem mortos por uma mulher vão para o inferno. Portanto, os batalhões femininos curdos são particularmente eficientes e presumo eu que são tão violentos quanto os dos homens.

Os curdos, há séculos a lutar para ter um país
Os curdos, há séculos a lutar para ter um país
Ver artigo

Provavelmente. Como lhe disse, não há nada na biologia evolutiva que diga que as mulheres não podem desenvolver estratégias de violência. Mas não é o padrão. O facto é que as situações que existem têm sempre com a variabilidade humana de comportamento.

Tudo o que é possível acontecer acaba por acontecer. Mas isto não transforma, não altera o padrão do comportamento criminogénico. Tenho um artigo num outro livro que fala sobre essa questão da assimetria do crime entre homens e mulheres. Mais de 90% dos crimes são cometidos por homens, mas é em todo lado, todos os países. E quanto mais violentos são, mais prováveis é que sejam cometidos por homens.

Só para ter uma ideia, as taxas de homicídio entre nós, que são cometidas por homens, e as vítimas desses homicídios, que são homens também, são praticamente as mesmas que junto dos chimpanzés. Praticamente as mesmas. 90%, quase 90% dos crimes são cometidos por homens, quase 80% das vítimas são homens.

Mas essa predominância da violência da parte dos homens em relação às mulheres é histórica?

Está a falar de violência doméstica?

Em geral, doméstica ou nacional.

Quer dizer, se isso acontece ao nível dos indivíduos e acontece ao nível dos países.

Mas isso começou porque os homens é que defendiam a tribo?

Também. Aliás, a ideia da liderança do grande homem vem daí. É evidente. A liderança é um mecanismo adaptativo também. Estamos sempre a falar do mesmo, ou seja, da biologia, a adaptação ao ambiente e à cultura. E a cultura é construída sobre a biologia, é evidente. Não está propriamente a ver os miúdos a darem à luz e passados dois dias irem combater, não é?

O Professor cita Hobbes, com aquela teoria da tábua rasa
Também não é verdade.

Está mais demonstrado que não, que isso é um pressuposto politicamente correto, mas que não corresponde à realidade.

Politicamente correto, sim.

É porque nascemos todos iguais, não é?

Mas não é verdade?

Não é verdade. Nascemos com diferenças. Não é necessariamente um destino. Há predisposições que são herdadas, muitas delas, porque a gente admite que a altura é herdada, em 90% dos casos. Mas não admite, por exemplo, que a inteligência também é herdada do pai e da mãe, quando também sabemos que é verdade, mais de 60% da inteligência é herdada. É, só que se manifesta de formas diferentes.

Isto parece uma afirmação idiota, mas eu não vejo um padrão de herança da inteligência. Há pais estúpidos que têm filhos inteligentes e vice-versa.

Explico porquê: mais de 60%, pelo menos, até há mais, resulta de uma carga poligénica. Não há um gene só, o pai e a mãe transmitem inteligência aos filhos. Só que se manifesta de formas diferentes, ou seja, até os 10, 12 anos de idade, a influência genética dos pais na inteligência é quase nula, não é nula, mas é quase nula. O ambiente é o principal responsável pelo desenvolvimento da inteligência, que é crucial na educação das crianças. A partir dos 12 anos, sensivelmente, à medida que vai crescendo, a influência do ambiente desvanece, porque já fez o que tinha a fazer, ativou o que tinha a ativar, e então vem a carga genética. Ou seja, de forma simples, até adulto é o ambiente, ou quase adulto, e a partir de adulto são os pais.

Eu acho que é ao contrário. 

Não, não é. Intuitivamente.
É 20/80 ou 80/20, digamos assim.

Mas intuitivamente pensava que era o contrário.

Nós temos muitas intuições erradas. Aquela intuição: "os crimes são os maus que cometem, são os outros que cometem." Não é verdade. Crime qualquer um pode cometer. Uns cometem mais, outros cometem menos.

Agora, há aqui uma questão importante, também é produtiva, que tem a ver com um quadro de reprodução alargada da espécie. A espécie tem como finalidade reproduzir-se com qualquer outra. Há um acasalamento necessário para essa reprodução. Esse acasalamento na nossa espécie caracteriza-se pelo facto da estação sexual. Como noutras espécies, quem tem os custos mais altos na reprodução tem o prémio da escolha. 

Digamos que sim.

Neste nosso caso é a mulher, é a mulher que faz a seleção. Como é que faz a seleção? Com base nos machos que apresentam as melhores capacidades, qualidades ou recursos, ou que apresentam capacidades virtuosas. Nesta corrida, em que o mais importante é permanecer na corrida, isto leva à questão: porque é que certos homens correm tantos riscos com o comportamento criminoso?

Incluindo a morte, prisão, etc. Porque a resposta é esta: o maior risco é ficar fora da corrida. E, então, mais vale correr o risco de ser preso, ferido ou até morrer, mas obter recursos, estatuto, o que for, que permita ser selecionado, do que ficar fora da corrida. 

A impressão que eu tenho é que as mulheres têm outros tipos de violência, ou seja, a violência masculina é uma violência geralmente de força bruta. Enquanto que a violência feminina é mais subtil, mais disfarçada.

Ah, mas isso tem a ver com a questão intersexual, não é?

Mas é o que é.

Parece que sim, intuitivamente, pela experiência comum, sim. Há agressividade, por exemplo, entre as mulheres, vamos lá ver, na tal corrida reprodutiva, No nosso caso, temos um processo de seleção mútua. Homens e mulheres, mulheres e homens. Mas, em última instância, para casamento com fins reprodutivos, a mulher tem que dizer sim.

Aliás, a mulher é que escolhe e não é o homem.

É, mas não é só na nossa espécie, isso é com os custos de reprodução.

Porque há aquela ideia entre os homens de que eles é que escolhem a mulher.

Não.

Mas na verdade ela é que quis ser escolhida.

O homem vai candidatar-se a ser engatado.

Quanto mais recursos tiver e ostentar, mais facilmente é selecionado.

É interessante porque a maioria dos homens acham que escolhem e convencem o alvo.

Sim, mas isso é mais uma das muitas ilusões que os homens gostam de criar.

Mas voltando à questão, a competição no casamento, no nosso caso - agora parecemos extraterrestres a analisar a espécie humana -
dentro do homem e da mulher, do sexo masculino e feminino, há competição, porque há uma seleção mútua também. Do lado dos homens é a tentativa de sinalização das suas capacidades, dos seus talentos, dos seus recursos. Do lado das mulheres, os sinais de fertilidade.

Por isso é que as mulheres estão tão obcecadas em ser bonitas. Ser bonita para a mulher é tão importante como para o homem fazer sexo, não importa, não interessa muito. Dentro destes dois géneros, destes dois sexos, há uma competição intraspecífica, homens com homens e mulheres com mulheres. Aliás, o que a investigação mostra é que a competição das mulheres não opta por estratégias físicas, de violência física, de confronto físico direto, 99% das vezes, mas por coisas muito mais subtis, como ataques à reputação, à língua.

No fundo, estão todos a competir...

Não, não, não. Quer dizer, pode haver nessa questão, tem de haver esses códigos para evitar conflitos, mas os homens competem de que maneira? As mulheres competem de uma forma mais histriónica, entre elas, inclusive através da violência física. Agora, essa é a questão da sinalização. Ambos os sexos sinalizam ao outro o que o outro quer. Ou seja, capacidades, recursos, eu sou o bom, escolhe-me a mim, e mulher, eu sou fértil, escolhe-me a mim.

Nós evoluímos tecnologicamente de uma maneira extraordinária, mas na cabeça continuamos iguais ao pliocénico.

É porque tudo isto já acontecia antes da tecnologia, não é? E estes mecanismos é que são os mecanismos adaptativos, portanto tudo se mantém. Eu costumo dizer: o mundo mudou, a natureza humana não mudou tanto.

Pois não, pois não. Basicamente é a mesma. É o nosso grande problema, evoluímos tecnologicamente e ficamos parados emocionalmente.

A evolução biológica leva milhares de anos, não acontece. A evolução tecnológica agora vai com uma rapidez estonteante, cada vez mais rápido. A nossa mente, como até aqui sobreviveu, reproduziu-se com os mecanismos que tem, não há razão nenhuma para os abandonar, por isso é que se têm esses resolvimentos essenciais, aquilo a que tecnicamente se chama mismatch evolutivo. Mantêm-se os mesmos mecanismos porque funcionaram, continua-se a dormir com a cabeça afastada da porta, Continua-se a procurar açúcares e gorduras, mesmo que hoje haja mais segurança e hoje haja açúcares e gorduras em todo lado, mas o cérebro, máquina, hardware, tem a intenção que isto funcione.

Portanto, não temos nenhuma hipótese de melhorar nesse aspeto?

Não faço a mínima ideia. Depende do que é que se chama melhorar.

Melhorar quer dizer ser menos propenso à violência, ao crime?

Não pode questionar isso sem o ambiente, portanto, depende do ambiente sempre.

Uma coisa que diz é que a ditadura é mais natural do que a democracia. O autoritarismo.

A democracia é recentíssima. As primeiras formas mais elementares de democracia, que nem foram só na Grécia, foram em vários sítios, elementares, não estou a falar de frases, nem direitos e garantias. Se se converter a janela temporal da espécie, 300 mil anos em 24 horas, as primeiras formas de democracia surgiram nos últimos 2 minutos. Portanto, a democracia tem que ser aprendida. Tem que ser ensinada. Implica coisas para as quais o nosso cérebro não está preparado.

A democracia não é um estado natural?

É uma forma de domesticar os nossos demónios.

É terrível saber isso.

É, mas é verdade, e é por isso que hoje em dia está a recuar em todo o mundo. Sabe quantas pessoas vivem democracias plenas?

Sei, porque costumo ver o índice do The Economist.

7,6% das pessoas em todo o mundo.

Depois aumenta um bocadinho, com o grau abaixo, que são as democracias imperfeitas. Aliás, neste momento os países mais importantes do mundo, China, Estados Unidos, Rússia, e Índia são todos autoritários.

Não, não são todos autoritários, a Índia é democrática.

Não, não é.

E os Estados Unidos são uma democracia imperfeita.

Caiu imenso, ultimamente. E está a caminho de uma ditadura.

Isso é quantificado. A India tem mesmo democracia imperfeita, se não estou em erro. A Rússia é um Estado autoritário e a China também. Usando a bateria do Economist, que são 8 indicadores, mas se usar o V-Dem Institute e outros, a situação é a mesma. Portanto, se quisermos, grosso modo, 10% das pessoas vivem em democracias plenas e 90% vivem noutros sistemas.

Não temos muitas esperanças.

E estamos a desenvolver isso ainda. Portanto, há coisas que nós estamos a adaptar a um mundo novo. O nosso hardware continua o mesmo. O sistema operativo continua na base do "better safe than sorry", portanto, mais vale manter o que já está, que sabemos que funciona, com falhas, mas no final do dia funciona, manteve-nos até aqui, do que estar a alterar mecanismos porque o ambiente repetidamente mudou muito depressa, porque não sabemos qual é a durabilidade dessa mudança.

Repare no caso do açúcar e gordura. 99% do tempo o ambiente era de escassez, não havia. Portanto, sempre que havia, tinha-se que aproveitar, aumentava as calorias, sobrevivência e reprodução. Subitamente, tem nos últimos 20 segundos, 25 segundos, uma cidade de abundância. Mas o ser viveu 23 horas e 49 minutos e 40 segundos num ambiente de escassez. Quer dizer, não se alteram os mecanismos fundamentais por causa de 20 segundos. E depois isso tem os problemas, é um “mismatch” (“desencontro).

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