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O caso mais detalhado é o de um casal britânico que recorreu a uma clínica local em 2011 e 2013 para conceber dois filhos com o mesmo dador de esperma, escolhido num banco dinamarquês. No entanto, testes de ADN realizados anos depois indicam que nenhuma das crianças é biologicamente relacionada com o dador selecionado e que nem sequer são irmãs biológicas.
Segundo a investigação, pelo menos sete crianças de diferentes famílias poderão ter sido afetadas por erros semelhantes, todos associados a clínicas do Chipre do Norte. Especialistas ouvidos pela BBC consideram extremamente raro que um erro desta dimensão ocorra repetidamente, admitindo a possibilidade de negligência grave ou mesmo de práticas enganosas.
A investigação apurou ainda que o recurso ao Chipre do Norte para tratamentos de fertilidade tem aumentado de forma significativa na última década, sobretudo entre cidadãos britânicos, atraídos por custos mais baixos, tempos de espera reduzidos e acesso a práticas que são proibidas noutros países europeus. Em média, um ciclo completo de fertilização in vitro naquele território pode custar menos de metade do valor praticado no Reino Unido, segundo dados citados por especialistas em medicina reprodutiva.
Outro dado relevante é a ausência de um sistema centralizado de rastreabilidade de gâmetas e embriões, mecanismo que, em países como o Reino Unido, permite seguir cada amostra desde o dador até ao nascimento. No Chipre do Norte, essa rastreabilidade depende quase exclusivamente dos procedimentos internos das clínicas, sem auditorias externas regulares ou sanções independentes em caso de falhas.
No plano jurídico, advogados especializados admitem que as famílias enfrentam obstáculos significativos para avançar com ações judiciais, uma vez que o território não é reconhecido internacionalmente, à exceção da Turquia, e não está sujeito aos tribunais europeus. Ainda assim, alguns pais já avançaram com processos em tribunais britânicos, tentando responsabilizar intermediários, agências ou entidades envolvidas na mediação dos tratamentos.
Por fim, os especialistas alertam para possíveis consequências de saúde pública. A utilização repetida de dadores não identificados ou diferentes dos acordados pode aumentar o risco de consanguinidade inadvertida no futuro, sobretudo em comunidades mais pequenas. Este risco, aliado à incerteza sobre os rastreios médicos efetivamente realizados, reforça os apelos para a criação de normas internacionais mais rigorosas e para uma maior vigilância sobre o turismo reprodutivo.
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