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Atualmente, quase toda a gente está familiarizada com os nomes Ozempic e Wegovy. Talvez um médico já tenha mencionado estes nomes ou talvez um amigo ou familiar esteja a tomar um destes medicamentos. As imagens do “antes e depois” estão por todo o lado, mas também as notícias que alertam para possíveis efeitos secundários e para as dúvidas relacionadas com a utilização a longo prazo.
O Ozempic, ou semaglutida, é apenas uma das opções numa lista crescente de medicamentos conhecida como “agonistas do GLP-1”. Em conjunto, estes medicamentos têm transformado a forma como a medicina aborda a obesidade, a diabetes e outras doenças metabólicas.
Para muitas pessoas, contudo, esta lista continua a ser “confusa”, como refere um estudo da Universidade de Stanford. Existem vários nomes, diferentes mecanismos de ação, debates sobre quem deve tomar estes medicamentos e ainda dúvidas sobre o que acontece quando se interrompe o tratamento.
Uma classe de médicos, incluindo endocrinologistas, cirurgiões bariátricos e médicos de medicina geral e familiar, que prescrevem agonistas do GLP-1, dizem querer explicar aos doentes como estes medicamentos funcionam, quem pode beneficiar deles e o que diz a ciência sobre a sua utilização a longo prazo.
O que são os agonistas do GLP-1?
O GLP-1, ou peptídeo semelhante ao glucagon-1, é uma hormona que o organismo produz naturalmente todos os dias. Quando se come, esta hormona comunica com vários órgãos, desde o cérebro ao sistema digestivo, indicando que o corpo já está saciado.
Segundo o estudo da Universidade de Stanford, em pessoas com obesidade ou diabetes tipo 2, este sistema pode estar desregulado, tornando mais difícil ao organismo controlar o açúcar no sangue (glicemia) e o apetite. Os agonistas do GLP-1 são medicamentos desenvolvidos para imitar a hormona GLP-1 que o corpo produz naturalmente, reforçando a sensação de saciedade. Estes medicamentos ligam-se ao mesmo recetor do GLP-1, produzindo efeitos semelhantes.
Como funciona o GLP-1?
Quando se toma esta medicação, o corpo responde de várias formas. O medicamento atrasa o esvaziamento gástrico, o que significa que os alimentos passam mais lentamente do estômago para o intestino. Os cientistas acreditam que isto dá ao organismo mais tempo para processar e absorver nutrientes, mas também ajuda a prolongar a sensação de saciedade.
O pâncreas liberta insulina, a hormona que indica ao corpo para absorver a glicose (açúcar) presente no sangue. Em pessoas com diabetes, a insulina pode não ser libertada no momento adequado, fazendo com que os níveis de glicemia aumentem. Os agonistas do GLP-1 ajudam a regular a libertação de insulina e a diminuir a glicemia.
O GLP-1 atua também em centros cerebrais relacionados com o apetite, comunicando que o corpo está cheio. Isto não reduz apenas a fome, mas também aquilo que é frequentemente descrito como “ruído alimentar”: a preocupação mental persistente com comida.
O resultado destas alterações, para muitos doentes, é que acabam por comer menos.
Todos os medicamentos GLP-1 são iguais?
Sim e não. Todos têm a mesma base de funcionamento: ligam-se ao recetor do GLP-1 presente no organismo. No entanto, diferem na dose, na forma como são administrados e nas hormonas adicionais que podem estar presentes na fórmula.
Atualmente, existem três principais injeções GLP-1 disponíveis nos Estados Unidos:
Semaglutida: administrada semanalmente e comercializada como Ozempic para diabetes tipo 2 e Wegovy para obesidade. É a mesma molécula, mas em doses diferentes.
Liraglutida: administrada diariamente e vendida como Saxenda para obesidade e Victoza para diabetes.
Tirzepatida: comercializada como Mounjaro para diabetes e Zepbound para obesidade. Ao contrário dos dois primeiros, a tirzepatida é um “agonista duplo”, pois também contém um composto que imita uma segunda hormona intestinal, o GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente da glicose).
“As diferenças e semelhanças entre estes medicamentos e todos os nomes podem ser confusas”, explica o endocrinologista Sun Kim. Até alguns profissionais de saúde perguntam se um doente que toma Mounjaro e não está a perder peso deve mudar para Zepbound, sem perceberem que se trata exatamente do mesmo medicamento.
As empresas farmacêuticas continuam também a desenvolver novos tratamentos, incluindo agonistas triplos que atuam nos recetores do GLP-1, GIP e glucagom, assim como versões orais destes medicamentos.
Até agora, dois medicamentos foram aprovados para utilização nos Estados Unidos:
Orforglipron oral, um comprimido de toma diária desenvolvido para o tratamento da obesidade.
Semaglutida oral, comercializada em comprimidos para o tratamento da diabetes e da obesidade.
Os medicamentos funcionam para toda a gente?
Em média, a semaglutida produz cerca de 15% de perda de peso em pessoas sem diabetes e a tirzepatida cerca de 20%. Ainda assim, uma percentagem de doentes, entre 10% e 15% em alguns estudos, pode não registar qualquer perda de peso.
Segundo os especialistas, doses mais elevadas tendem a produzir melhores resultados. Por isso, os médicos começam normalmente com doses baixas e aumentam gradualmente, avaliando os efeitos secundários.
“Se uma dose não está associada a perda de peso, esperar três meses na mesma dose não vai dar respostas”, explica a médica de Stanford. “É necessário aumentar a dose e voltar a avaliar.”
Estabilização da perda de peso
Todos os doentes tratados com GLP-1 acabam por chegar a uma fase em que a perda de peso abranda. Isto não significa que o medicamento deixou de funcionar, mas sim que é uma resposta natural da biologia humana.
O organismo adapta-se a uma menor ingestão calórica até atingir um novo equilíbrio entre aquilo que se consome e aquilo que se gasta.
A maioria dos doentes nota a primeira desaceleração da perda de peso entre os quatro e os seis meses, à medida que o corpo começa a adaptar-se.
Uma estabilização mais completa, em que a balança deixa praticamente de registar alterações, surge normalmente entre os 12 e os 18 meses na maioria das pessoas, embora uma pequena percentagem continue a perder peso durante até dois anos.
Quando os doentes atingem esta fase com a dose máxima, as opções passam por mudar para um medicamento mais potente ou considerar cirurgia bariátrica. A estabilização não significa que o medicamento deixou de funcionar: significa que está a ajudar a manter o peso alcançado.
O que acontece se se parar de tomar GLP-1?
Para muitas pessoas, o peso perdido regressa.
Uma análise realizada em mais de nove mil doentes mostrou que pessoas que deixaram de tomar semaglutida ou tirzepatida recuperaram, em média, quase um quilo por mês.
E não é apenas o peso que muda. As melhorias metabólicas e cardiovasculares alcançadas durante o tratamento, incluindo glicemia, pressão arterial e colesterol, podem também regressar aos valores anteriores.
É para tomar GLP-1 para sempre?
A maioria dos médicos não fica surpreendida com a possibilidade de os agonistas do GLP-1 terem de ser utilizados a longo prazo. À semelhança do que acontece com muitos tratamentos para doenças crónicas, estes especialistas consideram que a obesidade deve ser encarada como uma doença que pode exigir acompanhamento contínuo.
Ao 24notícias, a endocrinologista Joana Menezes Nunes explica que estes medicamentos estão inseridos “no campo do tratamento da obesidade” e que “a obesidade é uma doença crónica”. “É uma doença que, tal como a asma ou a psoríase, acompanha a pessoa ao longo da vida”, afirma.
Segundo a médica, estes medicamentos “estão pensados para serem usados a longo prazo”, mas o tratamento não é necessariamente igual em todas as fases. “Os esquemas de perda de peso não são iguais aos esquemas de manutenção de peso”, explica.
Joana Menezes Nunes compara o tratamento da obesidade com outras doenças crónicas: “Conhece alguém que tenha asma? Normalmente pode fazer uma bomba, ou até não fazer nenhuma medicação diariamente, mas quando está em crise precisa de intensificar o tratamento, com nebulizações ou corticoides, por exemplo. É um pouco semelhante.”
A especialista sublinha que não se deve criar a expectativa de que o tratamento será apenas temporário. “Não podemos dizer ao doente que é um tratamento de três meses e acabou. Isso está errado”, afirma.
A estratégia passa, segundo explica, por encontrar um equilíbrio entre controlo da doença e manutenção dos resultados. “Vamos tentando chegar a um esquema de manutenção, mas sempre que exista um agravamento, como um aumento de peso ou uma recaída, poderá ser necessário voltar a intensificar o tratamento”, refere.
Para a endocrinologista, a questão é ainda mais importante porque a obesidade deve ser tratada como uma doença e não apenas como uma preocupação estética. “Se estamos a falar de obesidade como doença, estamos a falar de uma condição crónica, que pode acompanhar o doente toda a vida”, conclui.
Como se deve comer e fazer exercício durante um tratamento com GLP-1?
Jonathan Bonnet, que foi coautor de um importante parecer clínico sobre nutrição e terapêutica com GLP-1, explica que “a chave para o sucesso com GLP-1 é juntar a medicação a uma mudança no estilo de vida, com uma alimentação mais saudável e mais atividade física”.
“Muitas pessoas que tomam estes medicamentos não têm um estilo de vida alinhado com uma alimentação equilibrada. Isso é um problema, tanto na investigação como na prática”, afirma.
Os medicamentos funcionam melhor não como substitutos de hábitos saudáveis, mas como uma ferramenta que torna esses hábitos mais fáceis de alcançar.
O conselho dos especialistas passa também por manter uma boa hidratação, consumir proteína e fibra suficientes e praticar exercício físico, medidas que podem ajudar a reduzir alguns efeitos secundários.
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