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A 13 de maio de 1917, na Cova da Iria, em Fátima, três jovens pastores, Lúcia dos Santos e os seus primos Francisco e Jacinta Marto, afirmaram ter visto uma figura luminosa sobre uma azinheira. Segundo o relato, tratava-se da Virgem Maria, que ter-lhes-á pedido para regressarem ao local nos meses seguintes.

Ao longo dessas aparições, as crianças afirmaram ter recebido três mensagens, conhecidas como os “três segredos de Fátima”. Dois foram divulgados mais tarde, nos anos 60, mas o terceiro permaneceu guardado durante décadas no Vaticano, alimentando especulação, interpretações políticas e teorias conspirativas.

Os três segredos e a leitura política da fé

De acordo com as informações disponíveis no site do Santuário de Fátima, o único pedido feito pela Virgem Maria foi: "Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo". De acordo com a história, apenas Lúcia podia ver, ouvir e interagir, já Jacinta ouvia e via e Francisco apenas ouvia.

O primeiro segredo é frequentemente descrito como uma visão do inferno, interpretada pela Igreja como uma advertência espiritual e, posteriormente, associada às guerras mundiais. O segundo segredo adquiriu, porém, uma dimensão claramente geopolítica, sugeria que a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria poderia evitar a propagação do comunismo.

Este elemento foi decisivo para a transformação de Fátima num símbolo ideológico durante o século XX. Com a Revolução Russa e a expansão soviética, a mensagem passou a ser lida como uma oposição espiritual ao comunismo, sendo progressivamente integrada no discurso anti-comunista da Guerra Fria.

O fenómeno ganhou ainda mais força no contexto do Estado Novo em Portugal, onde o regime de António de Oliveira Salazar promoveu o santuário como referência religiosa e identitária, reforçando a sua dimensão conservadora e anticomunista.

O terceiro segredo, escrito por Lúcia e mantido em segredo pelo Vaticano até ao ano 2000, tornou-se o principal motor de especulação em torno de Fátima. Guardado em envelope selado e conhecido apenas por papas e um círculo restrito de colaboradores, alimentou teorias apocalípticas durante décadas.

Quando finalmente foi revelado, o Vaticano interpretou-o como uma visão relacionada com o atentado contra o Papa João Paulo II em 1981. No entanto, a divulgação não travou as interpretações alternativas, que continuaram a associar Fátima a cenários de conflito global e ao destino político da Europa de Leste.

Durante a Guerra Fria, o Santuário de Fátima passou a ser entendido por muitos fiéis e setores conservadores como um bastião espiritual contra o comunismo. A ligação tornou-se ainda mais forte após o atentado contra Papa João Paulo II, em 1981, ocorrido a 13 de maio, data associada à primeira aparição.

Este ano faz 45 anos do atentado, que aconteceu na Praça de São Pedro, em Roma, para assinalar a data foi utilizado o cálice oferecido pelo pontífice. 

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O Papa atribuiu a sua sobrevivência à proteção de Nossa Senhora de Fátima e visitou o santuário por duas vezes. Uma das balas retirados do seu corpo foi mesmo incorporada na coroa da imagem da Virgem.

Na narrativa política da época, a ligação entre Fátima e a queda do comunismo tornou-se ainda mais evidente. A consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, realizada pelo Papa em 1984, é frequentemente associada por crentes e analistas à posterior queda da União Soviética em 1989.

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