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O setor da construção é um dos maiores produtores de resíduos na Europa. Em Portugal, toneladas de entulho acabam todos os anos em aterros ou em antigas pedreiras desativadas. Foi precisamente esse desperdício que motivou Patrícia Gomes e Luís Lima a criar a Matterpieces, uma startup portuguesa que transforma resíduos de demolição em materiais de design sustentável para arquitetura e interiores.
Tudo começou com um restaurante vegano em Viena e um sentimento de frustração. Patrícia Gomes e Luís Lima, arquitetos portugueses a trabalhar na Áustria, tiveram pela primeira vez um projeto totalmente seu. E pela primeira vez sentiram o peso da responsabilidade sobre os resíduos gerados.
“Nós já tínhamos a preocupação ambiental, claro, mas sendo um projeto nosso e estando em todas as fases do projeto, tínhamos no centro, por exemplo, os resíduos que eram gerados. E é uma grande responsabilidade sobre o material que nunca estava nos nossos ombros, esse peso”, recorda Patrícia Gomes.
Tentaram encontrar uma solução para o entulho gerado, falaram com o empreiteiro, mas não existia qualquer estratégia estruturada. Os prazos impuseram-se e o material acabou em aterro, como acontece habitualmente. Ficou a frustração e a convicção de que era preciso fazer diferente.
Da garagem à indústria
De volta a Portugal em 2020, em plena pandemia, ganharam tempo para explorar a ideia que vinha da Áustria. Começaram nas garagens e nos terraços de casa. Martelavam resíduos, trituravam vidro e cerâmica, transformavam materiais em pó e criavam amostras experimentais. Em paralelo, criaram uma rede informal com engenheiros de materiais e especialistas em valorização de resíduos para perceber o que seria tecnicamente viável.
O projeto começou como uma extensão do Studio 8, o ateliê de arquitetura que tinham fundado, sob o nome “Material Species”. As primeiras aplicações foram bancadas de cozinha e azulejos produzidos a partir de resíduos de obra, com apoio da Universidade do Minho para o processo de trituração. Era um trabalho manual, exigente e experimental, mas revelava potencial.
Os seis anos vividos em Viena tinham deixado marca. Patrícia trabalhou sobretudo em habitação social e projetos de cohousing, contextos onde otimização de recursos e sustentabilidade já eram parte integrante do processo.
“O centro da Europa estava mais avançado na qualidade da construção e na exigência ambiental”, explica. A diferença de maturidade no debate sobre sustentabilidade tornou-se evidente.
Uma estratégia de economia circular na construção
A Matterpieces não promove demolições. Defende a reabilitação sempre que possível. Mas quando a demolição é inevitável, a proposta é reaproveitar o resíduo e reintegrá-lo no ciclo produtivo. Durante o percurso, perceberam que antigas pedreiras estão a ser preenchidas com resíduos de construção, uma prática que consideram insustentável.
O que começou como uma experiência revelou-se uma estratégia de economia circular aplicável à indústria. O desafio passou a ser escala. Dois arquitetos, a trabalhar manualmente, dificilmente conseguiriam ter impacto estrutural. Ainda assim, começaram a receber pedidos de colegas interessados em aplicar os materiais nos seus projetos. O esforço resultou na reciclagem de algumas dezenas de quilos mas era preciso crescer.
O ponto de viragem surgiu com o apoio da Casa do Impacto, através do programa Triggers. Foi aí que começaram a estruturar o modelo industrial.
“Percebemos que, de forma manual, não conseguiríamos ter o impacto que queríamos. O material tinha potencial e havia interesse. A questão passou a ser como levá-lo à escala que a indústria exige”, explica Luís Lima.
Standard e Premium: dois modelos de reutilização
Fundada formalmente em 2022, a Matterpieces tem hoje 13 texturas em catálogo, disponíveis em painéis e ladrilhos com diferentes acabamentos. A empresa trabalha com duas soluções distintas.
- A versão Standard utiliza resíduos inertes genéricos fornecidos por empresas de gestão de resíduos, funcionando como um material de construção disponível em stock.
- A solução Premium reaproveita resíduos específicos de um projeto do próprio cliente, mantendo-os num ciclo fechado e criando um material único, ligado à história daquele edifício.
“Oferecemos um material que depende dos recursos daquele edifício e pode ser customizado para se adequar à estética final. Há aqui uma memória geológica que acrescenta valor ao projeto”, explica Patrícia Gomes. Este modelo tem despertado interesse junto de investidores imobiliários atentos à certificação energética e à economia circular.
Quem está a comprar materiais feitos de entulho?
Os principais clientes continuam a ser arquitetos, que influenciam a escolha de materiais nos projetos. Mas há também particulares e promotores imobiliários interessados em soluções sustentáveis que possam contribuir para certificações ambientais, cada vez mais exigentes na Europa.
O posicionamento é de gama média-alta, comparável a pedra natural ou mármore compacto.
“Não queremos ser um material de luxo. Acreditamos na democratização do acesso a materiais sustentáveis”, sublinha Patrícia.
Para escalar, a Matterpieces construiu uma cadeia colaborativa. Estabeleceu parcerias com empresas de demolição e gestão de resíduos, assegurou processos de certificação de subproduto (ainda raros em Portugal) e trabalha com produção industrial em Aveiro. A credibilidade conquistada com programas de inovação ajudou a abrir portas num setor tradicionalmente conservador.
50 toneladas desviadas e 360 no horizonte
Desde a fundação, a empresa já desviou 50 toneladas de resíduos de aterro e estima ultrapassar as 360 toneladas processadas nos próximos dois anos. Conseguiu captar cerca de 120 mil euros em apoios públicos e prémios de inovação, venceu recentemente o prémio LX Circular e prepara-se agora para levantar investimento privado.
Os próximos passos estão também na internacionalização. Já existem vendas para os Países Baixos e Inglaterra. O objetivo a longo prazo é replicar o modelo noutros mercados, através de parcerias locais que evitem transporte excessivo e reduzam a pegada de carbono.
A partir de entulho, a Matterpieces quer reconfigurar a lógica da construção, ou seja, transformar resíduos no ponto de partida de um novo ciclo produtivo.
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