Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

O homem que hoje vemos como um dos principais aliados de Putin e um bloqueador da Europa, era então visto como um jovem reformista e defensor da democracia liberal. Em 1990, entrou no parlamento como membro do Fidesz, na altura era um movimento liberal e anti-comunista.

Pouco depois, Orbán começou a transformar o partido e a sua estratégia. Assumiu rapidamente o controlo do Fidesz, afastando dissidentes e consolidando a sua liderança. Em 1994, promoveu uma mudança decisiva: o partido abandonou o liberalismo e passou a posicionar-se como nacional-conservador. Essa viragem levou à saída de vários membros, tornando o partido mais homogéneo e leal à sua liderança. Segundo antigos aliados, esta mudança foi sobretudo estratégica, aproveitando o espaço político disponível à direita.

Após um primeiro período como primeiro-ministro no final dos anos 90 e vários anos na oposição, Orbán regressou ao poder em 2010 com uma maioria que lhe permitiu reformar profundamente o sistema político. Desde então, reescreveu a Constituição, enfraqueceu os mecanismos de controlo democrático, limitou a independência dos media e da justiça e alterou regras eleitorais em seu benefício.Tudo para garantir a permanência no poder.

A aproximação à Rússia foi gradual mas significativa. Em 2014, Orbán assinou um acordo com Moscovo para expandir a central nuclear de Paks, marcando um ponto de viragem. Pouco depois, anunciou o objetivo de construir um “Estado iliberal”, inspirado em modelos alternativos à democracia liberal, incluindo a Rússia de Vladimir Putin. Esta posição contrasta com declarações anteriores em que criticava a Rússia como potência imperial. Paralelamente, lançou uma política de “abertura a leste”, reforçando relações com Rússia, China e Turquia.

Ao mesmo tempo, a relação com a União Europeia deteriorou-se. Surgiram conflitos sobre o Estado de direito, críticas à limitação de liberdades e divergências em temas como a migração, especialmente após a crise de 2015. Mais recentemente, Orbán bloqueou decisões importantes, como apoio financeiro à Ucrânia. A sua retórica passou a apresentar Bruxelas como uma nova força externa que ameaça a soberania da Hungria.

Orbán construiu uma narrativa política centrada na defesa da soberania nacional, nos valores cristãos tradicionais e na oposição ao liberalismo ocidental. Frequentemente apresenta a Hungria como um país sob ameaça, seja por instituições europeias, migração ou elites internacionais. Esta mensagem tem forte impacto fora dos grandes centros urbanos, onde o receio de instabilidade e guerra é mais sentido.

Ao Politico amigos de Orbán dizem que a ambição pessoal foi central na sua evolução. A trajetória sugere uma adaptação pragmática às oportunidades políticas disponíveis. Inspirou-se em figuras como Silvio Berlusconi, nomeadamente na personalização do poder e no uso de uma linguagem política mais direta. Segundo esta leitura, se o liberalismo lhe tivesse oferecido melhores perspetivas de poder, teria permanecido nesse campo.

CoHoje, Orbán é visto como o aliado mais próximo de Vladimir Putin dentro da União Europeia. Tornou-se um ator central nas divisões internas do bloco, especialmente ao travar iniciativas de apoio à Ucrânia. A sua política externa procura equilibrar relações entre o Ocidente e potências autoritárias.

Com eleições marcadas para este fim-de-semana, o futuro político de Orbán é incerto. A União Europeia discute formas de lidar com a Hungria caso o líder se mantenha no poder, incluindo alterações nos mecanismos de decisão ou pressão financeira. É impossível dissociar o futuro de Órban do futuro da União Europeia.

*Texto originalmente publicado na newsletter Isto é Útil de 30 de março.

__

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.