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Às sete da noite de sexta-feira, as ruas do centro histórico de Campo Maior começam a ganhar vida.

Uma vivência que se repete em quem lá vive e uma vida nova de quem se presta para espreitar o que está prestes a dar à luz noite dentro até o sol começar, de novo, a aquecer as casas e empedrado das artérias da vila alentejana.

Uma fila de stands de madeira, alinhados, uma roda gigante, parada, e cargas e descargas de várias camionetas anunciavam que alguma festividade estaria pronta a rebentar.

De repente, à medida que se avança pelas artérias que se expandem a partir do Jardim Municipal, milhares de flores de papel, de todos os feitios e cores, começam a sair de garagens, sótãos, lojas e armazéns onde permaneceram o inverno e a primavera, escondidas, à espera desta noite.

Pela manhã de sábado, mais de cem ruas estavam cobertas de cor. Um verdadeiro caleidoscópio de papel tricotado e recortado.

Quem não é local de Campo Maior não sabe bem como se dá este fenómeno. Quem já visitou, viu ou ouvi, ou quem é autóctone, não duvidava do que ia acontecer.

Foi a abertura das Festas do Povo — a primeira desde 2015, e a primeira desde que a UNESCO classificou a tradição como Património Cultural Imaterial da Humanidade, em 2021.

Até 16 de agosto, esta vila alentejana de pouco mais de oito mil habitantes espera receber cerca de 400 mil visitantes para testemunharem esta tradição popular.

O povo quis

“Em agosto de 2025, um grupo de amigos das Festas do Povo decidiu reunir e convocar a população de Campo Maior”, contou ao 24notícias João Manuel Nabeiro, presidente da Associação das Festas do Povo.

À pergunta “muito simples”, nas suas palavras, se o povo queria Festa, “as pessoas que ali estavam, representativas do povo de Campo Maior disseram numa só voz: sim, queremos festas”.

Foi o terminar de um longo interregno da festa em honra São João Baptista, padroeiro da vila, cuja celebração, sem calendário fixo, sem data oficiosa, mas não oficial, assinala 137 anos e nasceu do fervor católico antes de se tornar popular.

João Manuel Nabeiro, presidente Associação das Festas do Povo de Campo Maior, recua ao embrião do regresso das festividades onde a flor ganha protagonismo por ruas ornamentadas.

Como manda a tradição, toda a população da vila alentejana foi convocada.

Sem hierarquias que não uma vontade comum, “estas festas são aquelas em que há verdadeiramente uma ação popular, todos trabalham, dos mais novos aos mais velhos”, sublinhou Nabeiro, vestido a rigor com trajes alentejanos.

Conversou minutos antes da inauguração oficial presidida pelo presidente da República, António José Seguro. O inquilino do Palácio de Belém foi convidado a passear pelas ruas, percurso que incluiu paragem obrigatória na casa do Comendador Rui Nabeiro (1931-2023), primeiro presidente de câmara local eleito em democracia e um dos grandes impulsionadores da Festas do Povo.

2026 despertou 11 anos de um longo silêncio e esta é a primeira festa após a elevação a Património Cultural Imaterial da UNESCO.

Ao todo, 101 ruas e um número sem fim de flores penduradas decoram o apelidado maior jardim suspenso do mundo, um pulmão de papel que pode ser percorrido através da app.

Festas do Povo, Campo Maior (2026)
Festas do Povo, Campo Maior (2026) Créditos: Paulo Sousa

Uma noite para montar o trabalho de meio ano

Recuemos ao fim do dia de sexta-feira.

Ainda o sol tórrido descia sobre a vila alentejana de Campo Maior, na passada sexta-feira, e as ruas à volta do Jardim Municipal começaram a ganhar uma dinâmica em tudo semelhante ao trabalho executado pelas formigas operárias.

Um número incalculável de voluntários transfere para 101 artérias milhares e milhares de flores de papel hibernadas desde janeiro em ateliers improvisados enfiadas e espalhadas por garagens, sótãos, lojas, casas, armazéns e os mais diversos espaços capazes de servir de casulo.

É trabalho exclusivamente manual e analógico: papel e cartolina cortados e cosidos à mão, arte popular transmitida de geração em geração, de mão em mão, expressão de uma vontade coletiva que só agora, na noite da enramação, sai dos segredos em que foi feita.

Com cola, arames e fita, cravos, rosas e girassóis mostram-se ao mundo depois de meses de trabalho noturno escondido.

Festas do Povo, Campo Maior (2026)
Festas do Povo, Campo Maior (2026) Créditos: Paulo Sousa

“A Festa do Povo é quando o povo quer. 11 anos depois, o povo quis”

“A Festa do Povo é quando o povo quer. 11 anos depois, o povo quis”, decretou o presidente da câmara municipal de Campo Maior, Luís Rosinha.

Quis, levou a tarefa em diante a chegou a hora de mostrar esta emanação de uma vontade coletiva, que irá convergir como expressão da identidade de um povo nas ruas que servem de testemunhas durante nove dias.

O edil não faltou à chamada da noite mais longa da vila encostada à fronteira de Espanha. “É sempre uma noite em que todos os campomaiorenses saem para ajudar”, afirmou o cidadão “nascido, criado e batizado” em Campo Maior.

Os números que avança são difíceis de verificar, mas dão a medida do que aqui se pede à comunidade: “Isto é um caso único de voluntariado. Não poderemos dizer que os 8500 a 9000 habitantes de Campo Maior sejam todos voluntários, mas diria entre as 4500 e 5000 pessoas contribuíram nos últimos largos meses para que tudo fosse montado durante a noite de sexta-feira”, disse.

Cada rua escolhe o Cabeça de Rua, pessoa que representa aquela soma dos números de porta. “É a verdadeira democracia participativa a funcionar”, explica o eleito pelo povo.

Memórias de uma despedida de solteira

Anabela Aleixo não é de Campo Maior — é de Elvas, cidade vizinha, e tem o turno do Hospital a pesar-lhe no relógio.

“Entro à meia-noite", avisa, com pena de ter de largar as flores amarelas que ainda segura.

Foi a primeira vez que participa como voluntária, de forma mais ativa, mas já tinha estado cá antes e logo numa ocasião especial.

“Vim há 27 anos. Foi a minha despedida de solteira", diz, a rir. Não trouxe recordações dessa visita. "Não levei flores para o casamento.

Uma mesa onde não falta nada

Poucos metros à frente, Andreia Mexia partilha uma outra memória: as festas de 1998, “as que mais me marcaram”, confessa. “Era adolescente, jovem, as festas eram vividas de outra forma”, relembrou.

Este ano, incorporando um ADN 100 por cento campomaiorense deposita mais compromisso. Ajuda o Cabeça de Rua, o amigo Luís Machado, pendurado num escadote a fixar um candeeiro de papel contra o céu.

A conversa decorre no meio da Rua Capitão António Aleixo junto a uma mesa recheada de produtos alentejanos, queijos, enchidos, pão e vinho.

Um índice calórico transformado em combustível para alimentar quem trabalha a noite toda. “Todos trouxemos algo para oferecer e para conviver até às 10 horas da manhã, hora da inauguração”, antecipou.

Começaram a trabalhar em janeiro. Aceleraram no fim de março, abril. “Juntou-se muita gente. Não sei dizer, ao certo, quantas pessoas foram por noite. Podíamos ter sete, oito, nove, dez, outras alturas vinte”, contabilizou. Foi gente de todas as idades, embora a maioria tivesse “entre os 40 a 50 anos”, indicou.

O trabalho manual e artesanal, acrescentado por uma dose de tecnologia, ficou guardado em “várias garagens da rua”, avançou.

Explicou o modus operandi. “Foi feito um projeto inicial e uma maquete. Depois, consolidaram-se as ideias e, a partir daí, foi feito um esboço da rua e a estrutura”, detalhou.

Festas do Povo, Campo Maior (2026)
Festas do Povo, Campo Maior (2026) Créditos: Paulo Sousa

A festa que abraça toda a gente

Pedro Martins, de Lisboa, está casado com Maria João, uma campomaiorense. Vivem e trabalham no Luxemburgo, mas a rota das férias passou, de propósito, pelas festas.

“Desde 2000, quando começámos a namorar, comecei a vir às festas. Converti-me”, sorriu.

As bancas de comida e bebida (nada comparável com as anteriores edições) multiplicaram-se e antecipa que a tradição, que tanto elogia, pode começar a ser outra.

Não é uma queixa, mas a inevitável “maior mercantilização” é visível quando ainda pouco se vê do que será vivido até dia 16.

“Sinais dos tempos”, transmite. “Temos de nos adaptar, experimentar coisas diferentes e provar (no Alentejo) queijo da serra, de Seia”, adiantou. Porque, ao fim ao cabo, “é uma festa que abraça toda a gente”, resume.

Sangue novo numa tradição secular

A noite avança devagar, entre ruas que sobem e descem, se cruzam. A observação atenta impõe o seu próprio ritmo. E a pressa é inimiga da vistoria detalhada.

À medida que o relógio caminha, mais gente aparece — voluntários e curiosos, todos ansiosos por serem os primeiros a ver as flores de papel desabrocharem.

Ana Marques celebrou 23 anos na meia-noite de dia 8, uma festa a pendurar flores na rua da Bocada da Praça.

Posa para uma fotografia junto à armação que sustenta a frase “Noites de Campo Maior”, tema escolhido pela rua de que são responsáveis este grupo de jovens.

Festas do Povo, Campo Maior
Festas do Povo, Campo Maior Créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

“O nosso tema são as noites de antigamente de Campo Maior. Eram muito famosas aqui pelos arredores”, reviveu.

“O nosso espaço era uma antiga discoteca (espaço cedido pela Associação), foi juntar o útil ao agradável. Queríamos reviver à antiga e foi assim”, disparou.

A juventude é a marca de água deste grupo estreante. A injeção de sangue novo na tradição secular não entope confiança em agarrar o desafio.

“Tivemos de ter coragem, independentemente de ser a primeira vez, e olha, mandámos-mos de cabeça”, explicou Ana Marques, neta de uma Cabeça de Rua.

“A minha avó foi sempre, mas agora está mais idosa. Basicamente, passou pela família, de geração em geração, familiares e amigos”.

Em 2026, a liderança é bicéfala. “São duas amigas minhas que são Cabeças de Rua”, terminou de sorriso vivo no olhar.

“Há esta amizade, este convívio todo”

A festa — chamada também Festa das Flores, ou, no nome mais antigo, Festa dos Artistas — transbordou este ano para lá dos muros das 101 ruas. Na Praça da República, os vizinhos da Vila do Redondo promovem as suas próprias ruas floridas, tal como Valdelacalzada em Flor, do lado espanhol da fronteira, em Badajoz. Os Tabuleiros de Tomar juntaram-se ao programa, que inclui ainda música popular, DJs e drones a colorir o céu

Na Rua 1.º de Maio, em cuja placa se lê a anterior toponímia, Rua Tenente General e Rua Dr. Oliveira Salazar, Justo e José Vassalo prendem arames aos suportes das flores.

Justo, de 70 anos, tem décadas de festa nas mãos, mas faltou à última edição. “A minha mãe morreu nesta altura e não estive por cá”, recordou.

Este ano não deixou faltar nada na rua onde mora, ao lado do amigo José. “Há esta amizade, este convívio todo”, expôs José Vassalo.

“A minha esposa trabalhou voluntariamente, todas as noites, das sete da noite até à uma, duas da manhã, para estarmos aqui. Fez trabalho de homem", acrescenta, antes de apontar para outra vizinha.

“Uma senhora que está aqui tem oitenta anos. Oitenta anos. Não tinha coragem”, reconheceu.

Distribui ainda elogios ao amigo ao lado. “Trabalhou muito. Eu, nem tanto. Estou aqui mais para comer e beber", resumiu alegremente.

A minha rua é mais bonita que a tua. A mensagem que não se lê

A noite caminhava para o (nosso) fim. Num percurso sem plano definido, uma frase repetida em várias t-shirts brancas não fica indiferente ao olhar.

“Mavilde, Mavilde. Não é Matilde", apresentou-se a mulher natural de Évora, emigrada em Campo Maior há 40 anos, cozinheira reformada de uma IPSS local.

Veste a tal camisola com uma frase que exige descodificação. “Toma lá que já almoçaste. Matriz”.

A mensagem escondida, explica, é uma provocação amigável entre ruas: a minha rua é mais bonita que a tua, frase não escrita, mas dita verbalmente.

Quanto a “Matriz”, não é o nome oficial da Rua Dr. Regalla, mas é como o povo a conhece, por causa da Igreja Matriz onde a rua mora.

Festas do Povo, Campo Maior (2026)
Festas do Povo, Campo Maior (2026) Créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

Despedimo-nos de Mavilde e de Campo Maior já a noite dobrava para o dia seguinte.

Regressámos nas primeiras horas da manhã e as ruas estavam irreconhecíveis. De um dia para o outro, tudo tinha mudado. Onde antes havia vazio, agora havia cor: ramos de flores de papel a explodir em cada esquina, sombras coloridas a temperar o calor já escaldante do interior alentejano.

E embora ainda persistissem as últimas artes decorativas, o grosso da população era espécie invasora das ruas, ávidos de serem os primeiros a ver como os próprios olhos, muitos quais com a ajudar dos gigabytes dos telemóveis.

Reencontrámos Mavilde. Sorriu. Permaneceu a noite fora e dia dentro quase imóvel no largo da Igreja Matriz. A t-shirt e a mensagem era a mesma da véspera.

“Estou acordada desde as seis da manhã de sexta-feira”, disse no reencontro na manhã de sábado. “As minhas amigas foram-se deitar. Ficarei, se conseguir, aqui até ao final da noite (sábado)”, prometeu antes de fechar um dia para memória futura.

“A juventude vai pensar e vai criar as festas em 2030”

Voltamos ao local de partida da reportagem, bem no coração do Jardim Municipal.

João Manuel Nabeiro deixa-se levar pelas memórias. “Curiosamente, vi uma fotografia minha com cinco ou seis anos. A minha mãe era Cabeça de Rua, na rua de Badajoz. Tinha um carrossel pequenino, rodava com as girafas, camelos e objetos de madeira feitos por um carpinteiro da rua”, reviveu.

Vice-presidente em 2004 e presidente das festas este ano, aos 72 anos sabe que é tempo de entregar a chave da organização e passar o testemunho.

Festas do Povo, Campo Maior (2026)
Festas do Povo, Campo Maior (2026) Créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

“Recebemos esse legado e vamos entregá-lo mais preparado e mais adequado aos tempos que vivemos”, adianta ao 24notícias.

“Acredito que a juventude vai pensar e vai criar as festas em 2030”, perspetiva.

A participação ativa da parte mais nova da população já tinha merecido elogios, na véspera, em dia de transformação das ruas, por parte do presidente da Câmara de Campo Maior, ao assinalar a “grata novidade” do trabalho de jovens, um envolvimento “muito importante para o que possa ser a passagem do testemunho”, antecipou.

“Como eleito do povo, sempre fui defensor que a frase não é uma frase feita, é uma frase real. Efetivamente, só poderão existir festas quando o povo quer”.

Tem a palavra a próxima geração.

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