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De acordo com a Euronews, apenas 20% das famílias europeias têm sistemas de climatização em casa. Em países como os Estados Unidos da América (EUA), o Japão ou a Coreia do Sul, o número ascende aos 90%.
A Comissão Europeia admitiu, recentemente, que a maior parte dos edifícios da Europa não têm ar condicionado e recusou tomar uma posição sobre a instalação dos equipamentos.
Em França, onde já se prepara a campanha presidencial de 2027, o tema tornou-se central no debate político. A Euronews indica que a líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, voltou a apelar à intensificação do uso de ar condicionado no país, depois de ter prometido lançar um “grande plano de instalação de ar condicionado” no ano passado.
Já o líder da extrema-esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon, considera que a instalação generalizada do ar condicionado é uma falsa solução que agrava o problema. Segundo a Monocle, Mélenchon tem destacado as desvantagens dos equipamentos e a forma como poderá agravar a crise ambiental, apontando o desperdício de energia e a libertação de mais ar quente para cidades sufocadas pelo calor.
Também em Portugal o ar condicionado já chegou ao debate político. No programa eleitoral das Legislativas de 2025, a Iniciativa Liberal (IL) indicou que 25% dos portugueses têm dificuldade em manter a casa quente no inverno e fresca no verão e que mais de um milhão de pessoas vivem em pobreza energética.
Os liberais defendem uma “abordagem mais eficaz, com apoios diretos às famílias afetadas e investimento estratégico na eficiência energética dos edifícios” e ainda a “renovação do parque habitacional, especialmente nos edifícios mais antigos”. Nesse sentido, no ano passado, foi aprovada uma proposta da IL para baixar a taxa de IVA de sistemas de aproveitamento de fontes renováveis, passando a ser aplicados 6% de IVA a equipamentos como painéis solares, bombas de calor, ar condicionado e turbinas eólicas.
As temperaturas extremas das últimas semanas levaram muitas pessoas a querer comprar aparelhos de ar condicionado ou ventiladores. Em França, a oferta foi escassa para tanta procura, o que originou momentos de desordem em superfícies comerciais. Vídeos que circulam na internet mostram pessoas a empurrar-se para entrarem na loja, corridas no interior para chegar até aos produtos e até agressões entre os consumidores.
Para a Quercus, uma procura semelhante por estes equipamentos em Portugal é “uma possibilidade preocupante” devido aos impactos ambientais e sociais. “O ideal seria promover um debate político e público focado em soluções sustentáveis que não estejam centradas no conforto de alguns, mas que também protejam o ambiente e promovam um futuro mais sustentável para todos”, afirmou Marcos Sá, vice-presidente da Direção Nacional da Quercus.
Em entrevista ao 24notícias, o dirigente considera que a onda de calor não deve ser resolvida com “pensos rápidos” e garante ser necessário atacar a raiz do problema, que é o facto de, em Portugal, as escolas, casas e escritórios não estarem preparados para as alterações climáticas e ondas de calor severas.
Segundo a Quercus, o aumento do uso de ar condicionado tem vários impactos para o ambiente: subida das emissões de CO2, aumento de gases fluorados, mudanças no uso de água, influência nas redes elétricas e o crescimento de resíduos elétricos.
“Embora o aumento do uso de ar condicionado possa parecer inevitável em tempos de calor extremo, é fundamental procurar alternativas. Podemos investir em edifícios mais eficientes energeticamente, melhorar o uso de ventilação natural e aumentar áreas verdes nas cidades, que ajudam a combater o calor. A solução não deve ser apenas adaptar-nos ao problema, com mais recursos, mas sim criar um ambiente urbano e investir num parque edificado que minimize a necessidade do uso de ar condicionado”, defendeu Marcos Sá.
Apesar disto, o dirigente da associação ambientalista admite que há formas de minimizar os impactos da utilização do ar condicionado: fechar ou isolar a área climatizada, usar o termóstato e temporizados dos equipamentos para evitar um uso exagerado e não selecionar temperaturas demasiado baixas.
Outras alternativas passam por usar equipamentos com elevada eficiência energética (A+++), evitar aparelhos portáteis que consomem mais e optar por sistemas fixos split. Já no inverno, uma opção mais eficiente passa por recorrer a bombas de calor que retiram calor do ar exterior para aquecer um circuito interno, sem recurso à eletricidade ou a combustíveis.
Marcos Sá garante que Portugal não está totalmente preparado para lidar com episódios extremos de calor. “É urgente combater o efeito de ilha de calor e adaptar os espaços urbanos para proteger os grupos mais sensíveis da população, criando mais espaços verdes, refúgios climáticos, planos de contingência para proteger trabalhadores (especialmente ao ar livre, quando as temperaturas ultrapassam determinado patamar), mais bebedouros públicos”.
O dirigente acrescentou que o país precisa também de financiamento e de novas diretrizes para melhorar os edifícios através de obras de isolamento e de alternativas que criem sombras nos telhados e nas paredes exteriores dos edifícios.
Questionado sobre se as ondas de calor são um sinal de uma nova realidade climática, Marcos Sá não tem dúvidas: “São definitivamente um reflexo das mudanças climáticas que estamos a viver. Não são um acontecimento isolado, mas fazem parte de um padrão global de aumento de temperaturas, causado por atividades humanas que levam ao aquecimento do planeta, como a queima de combustíveis fósseis, cortes de árvores e desmatações”.
Dados revelados pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) indicam que Portugal já enfrentou seis ondas de calor este ano. A primeira aconteceu em fevereiro, duas em março, seguindo-se três em abril, maio e junho. Nos primeiros seis meses de 2026, os portugueses viveram 59 dias de calor extremo, um número próximo dos 74 dias de onda de calor que Portugal enfrentou durante todo o ano de 2025.
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