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Num ensaio publicado em junho no Persuasion, substack do cientista político Francis Fukuyama, Mitra Vand - escritora iraniano-americana que assina sob pseudónimo por razões de segurança - oferece um retrato íntimo do impacto humano da escalada militar que envolve o Irão, os Estados Unidos e Israel.

No texto, a autora descreve o conflito não apenas como um confronto geopolítico, mas como uma experiência emocional contraditória vivida por milhões de iranianos.

A escritora começa por afirmar que os ataques eram, para muitos, previsíveis, tendo em conta décadas de hostilidade política e militar. Ainda assim, sublinha que a reação dentro do país está longe de ser uniforme.

“O luto e o sofrimento são como uma massa no peito”, escreve. “Mas não são monolíticos. Têm muitas camadas e afetam cada pessoa de forma diferente.”

Após os primeiros bombardeamentos em Teerão, que mataram membros ligados ao governo, a autora telefonou à tia e surpreendeu-se com a serenidade da resposta.

“Não queremos guerra”, disse-lhe a familiar. “Mas saber que o homem que nos mantém aprisionados há 46 anos está finalmente a ter o que merece, traz-me paz.”

Para a autora, ouvir palavras assim foi perturbador, mas revelador do desgaste causado por décadas de repressão. “É isto que mais de 40 anos de opressão fazem a um povo”, observa.

No ensaio, Mitra Vand descreve uma polarização crescente na leitura internacional do conflito. De um lado, estão os que condenam a guerra e veem Israel exclusivamente como agressor, do outro, os que acreditam que a ofensiva poderá derrubar o regime iraniano.

A autora critica ambas as posições por simplificarem uma realidade complexa. Recorda que a República Islâmica não só reprimiu a sua própria população, como apoiou movimentos armados como o Hezbollah, o Hamas e os Houthis, contribuindo para a instabilidade regional.

“A população iraniana está presa numa guerra imposta pela retórica e pelas ações violentas do seu próprio governo”, escreve.

Ao mesmo tempo, rejeita ser vista como “pró-Israel”, defendendo antes que os israelitas devem poder viver sem a ameaça de aniquilação, algo que, recorda, fazia parte do quotidiano ideológico nas escolas iranianas.

“Durante 12 anos fui obrigada a gritar "Morte à América, morte a Israel" todas as manhãs no recreio.”

A autora alerta ainda para o risco de se assumir que uma intervenção militar conduzirá automaticamente à democracia, lembrando exemplos históricos como as intervenções no Iraque e no Afeganistão.

Esses precedentes mostram, segundo a autora, que a queda de um regime não garante estabilidade e pode abrir caminho ao caos, à guerra civil ou ao surgimento de novos extremismos, como aconteceu com o ISIS (Estado Islâmico do Iraque e do Levante).

“O sofrimento acabará? E a que custo?”, questiona.

Um dos cenários que mais teme é o do regime sobreviver ao conflito e intensificar a repressão interna. A autora refere relatos de alegadas detenções e execuções de pessoas acusadas de espionagem, "espião israelita", numa tentativa de consolidar o controlo.

O testemunho de Mitra Vand ressoa novamente no presente. No sábado, um ataque coordenado dos Estados Unidos e de Israel voltou a atingir o Irão, repetindo um padrão em que as dúvidas persistem e as vítimas continuam a ser as mesmas.

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