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Introdução
O animal no palco
O cheiro é sempre o mesmo. É uma mistura adocicada de suor, perfume barato, plástico aquecido pelos holofotes e eletricidade estática. Quem entra num pavilhão desportivo transformado em catedral política sente-o antes de o ver. O ar é pesado, denso, irrespirável, mas ninguém se importa. Pelo contrário: é essa densidade que procuram.
Lá fora, a cidade segue a sua vida fria e individualista. As pessoas olham para os telemóveis, evitam o contacto visual no metro, fecham-se nos seus apartamentos. Mas, aqui dentro, o mundo foi suspenso. Aqui, o isolamento moderno morre.
Estamos à espera. Há uma hora que a playlist com batidas sintéticas — desenhadas em laboratório para acelerar o ritmo cardíaco sem distrair o cérebro — dá sinal nas colunas empilhadas como muralhas ao lado do palco. As bandeiras de plástico, distribuídas à entrada por miúdos da «jota» com sorrisos nervosos, agitam-se num ritmo descoordenado que, visto da bancada, parece um oceano colorido.
De repente, as luzes da sala morrem. Um grito coletivo, gutural, sobe da plateia. Não é um grito racional; não é a aprovação de uma medida fiscal ou de uma proposta de lei sobre a habitação. É um som pré-verbal. É o som da tribo a reconhecer-se a si própria.
Os focos de luz, brancos e encandeantes, varrem a escuridão e convergem para um único ponto: o fundo da sala. A música muda. Entra o hino. As portas abrem-se.
E entrou.
A pessoa que caminha pelo corredor central, a apertar mãos, suadas, com o nó da gravata milimetricamente desapertado para sugerir «trabalho», deixou de ser um funcionário público. Naquele corredor, sob aquela luz, essa pessoa não é um gestor da coisa pública nem um legislador falível. Transfigurou-se. Para as três mil pessoas que se empurram contra as baias metálicas só para lhe tocarem no casaco, esse indivíduo é o portador da verdade. É o xamã que promete que amanhã o Sol vai nascer e que a colheita será boa.
E nós? Nós, que estamos na bancada, deixámos de ser contabilistas, professores ou desempregados. Somos, agora, o povo. Um corpo único, quente, que respira a uma só voz.
Este livro não é sobre eleições, muito menos sobre sondagens ou a estratégia do partido A ou B. Não é uma análise sintética sobre quem ganhou o debate televisivo ou qual a percentagem de voto em Lisboa, nem é uma dissertação sobre os aconteci- mentos e desenvolvimentos da democracia portuguesa. O que se quer é fazer como Platão escreveu metaforicamente no início de A República: «Desci ontem ao Pireu.» Ou seja, sair da nossa zona de conforto e descer ao pavilhão da discussão democrática.
Este livro é sobre o que acontece naquele pavilhão. É sobre a tecnologia mais antiga da humanidade: a capacidade de nos reunirmos num círculo, à volta de uma fogueira (ou de um palco iluminado), para acreditarmos, juntos, numa ficção partilhada.
Durante décadas, disseram-nos que a política moderna se tinha tornado fria, técnica e racional. Disseram-nos que a democracia se jogava nos gabinetes, nas folhas de cálculo do Ministério das Finanças e nos algoritmos das redes sociais. Mentiram.
Se há lição que podemos tirar de 50 décadas de democracia em Portugal é que, de racional, a vida política tem muito pouco e a emoção é o seu principal atributo. Nem precisamos de ir ao comício para compreender esta premissa, basta-nos começar por observar as conversas ou caixas de comentários online, estar atentos aos comentários e debates na televisão ou escutar as conversas por essas ruas e café — o grande grosso da discussão está longe de uma racionalidade comunicativa e remete-nos mais para o campo da crença e das convicções afetivas.
A Política é, na sua essência, uma atividade com uma linguagem semelhante à religiosa. Sem Deus, mas com todos os rituais da fé: temos os nossos santos, os nossos mártires, os nossos demónios, as nossas procissões e, acima de tudo, a nossa missa — o comício.
A Política existe porque há uma ideia de comunhão, de membros em grupo que se reconhecem entre si como semelhantes — e não como iguais. É no campo da semelhança que reconhecemos «o outro» com um conjunto de características e possibilidade de compreensão comum, mas também alguém com quem temos divergências que têm de ser sanadas. Este é o espaço da aparência — no sentido arendtiano –, onde a política só existe porque eu vejo os outros e os outros me veem (1). E, nesse sentido, o comício é a forma suprema desse espaço. É o único momento em que a ideia abstrata de partido ganha carne e osso. Sem o comício, o partido político é apenas um logótipo num boletim de voto. Com o comício, torna-se uma entidade viva, capaz de nos abraçar.
O comício é Politics pura — usando aqui a terminologia clássica das três dimensões da esfera política. É o momento em que a política deixa de ser regulação fria e passa a ser criação de significado comum. É o jogo de luta que dá alma à máquina. Não é Policy (as medidas políticas), nem Polity (as regras) — e é importante separar as águas.
Mas não estamos perante a Política num estado puro, muito menos genuíno; o que vemos hoje nestes pavilhões já não é a reunião espontânea da tribo. É uma peça de engenharia emocional de alta precisão. O que parece paixão é, muitas vezes, cenografia. O que parece um líder carismático é, muitas vezes, um produto de um focus group. O ritual sagrado foi industrializado.
Nas páginas seguintes, vamos desmontar esta máquina. Vamos olhar para os bastidores, para os fios que seguram as luzes, para os consultores que escrevem os discursos e para os mecanismos psicológicos que nos fazem chorar quando um indivíduo de fato sobe a um palco.
Vamos entrar na festa. Mas, desta vez, vamos manter as luzes acesas.
Capítulo 1
A religião sem Deus
Se um antropólogo de Marte aterrasse hoje num pavilhão desportivo durante um comício, teria dificuldade em distinguir o que vê daquilo que os seus colegas observaram nas catedrais medievais ou nos rituais tribais da Polinésia. A estrutura é a mesma. A arquitetura emocional é idêntica. Só a divindade mudou.
Para o olhar destreinado, um partido político é uma organização burocrática desenhada para gerir a ordem jurídica a que chamamos Estado. Tem estatutos, moradas fiscais, contas bancárias e funcionários que registam quotas. Mas essa é a fachada profana. Na sua essência, um partido não serve para gerir o presente; serve para prometer a salvação.
Quando entramos na festa política, deixamos o mundo da lógica e entramos no território da crença. A política moderna é, em todos os sentidos, uma experiência com semelhanças à de uma religião secular. Matámos Deus no século XIX, como anunciou Nietzsche, mas não matámos a nossa necessidade de O adorar (2). O silêncio deixado pela ausência do divino era demasiado ensurdecedor para a humanidade suportar, por isso preenchemo-lo com a única coisa que tínhamos à mão no mundo moderno: nós próprios.
Vazio no Céu, ruído na Terra
A história da política moderna começa com um funeral. Em algum momento do século XIX, entre o fumo das chaminés da Revolução Industrial e o avanço implacável da ciência, a humanidade ocidental declarou a morte política de Deus. Não foi um homicídio físico, mas um esvaziamento ontológico. O Céu, que durante milénios tinha sido a fonte de toda a autoridade — o Rei governava porque Deus queria, a Lei existia porque as Escrituras o ditavam —, ficou subitamente silencioso.
Max Weber, com a sua precisão cirúrgica, chamou a este fenómeno o desencantamento do mundo (Entzauberung der Welt) — o processo histórico de racionalização e intelectualização que define a modernidade ocidental, no qual as forças mágicas e místicas são progressivamente eliminadas como explicação para a realidade, cedendo lugar ao cálculo técnico e à previsão científica (3). Este triunfo da razão instrumental, contudo, resulta naquilo que Weber diagnosticou como um sistema económico e burocrático coercivo que aprisiona o indivíduo numa lógica de eficiência mecânica, esvaziada de qualquer sentido transcendente ou sagrado. Como o autor sintetiza na sua conhecida conferência A Ciência como vocação: «Significa que, em princípio, não existem forças misteriosas e incalculáveis que interfiram com a vida, mas que, pelo contrário, podemos dominar todas as coisas pelo cálculo» (4). Segundo Weber, caminhávamos para uma jaula de ferro de racionalidade, burocracia e cálculo frio (5). A magia tinha acabado. O mundo seria gerido por técnicos, não por sacerdotes.
Weber estava certo sobre a burocracia, mas estava redondamente enganado sobre o fim da magia no mundo moderno. Ele subestimou a incapacidade crónica do ser humano de viver sem o sagrado. Antes de ser um animal político (zoon politikon), o homem é um animal religioso (homo religiosus). Podemos ter matado os velhos deuses nas catedrais, mas a energia psíquica que lhes dedicávamos — a necessidade de adorar, de pertencer, de sacrificar o eu em prol de um nós transcendente — não desapareceu. Ficou apenas à deriva, à procura de novos recetáculos.
É aqui que entra o partido político. E, mais especificamente, é aqui que nasce a necessidade vital do comício.
Vivemos numa sociedade desenhada segundo a lógica descrita por Albert Hirschman: um mundo onde tentámos domar as paixões destrutivas (o desejo de glória, o fanatismo, a guerra tribal), substituindo-as por interesses inofensivos (o comércio, o dinheiro, a segurança) (6). Mas a política não sobrevive apenas com interesses frios. O comício é a prova do falhanço dessa frieza mundana: o ser humano continua a necessitar da paixão para dar sentido à vida. No pavilhão, a lógica do interesse (o cálculo racional do voto) é suspensa e regressamos, eufóricos, ao velho mundo das paixões violentas que julgávamos ter superado.
Na era moderna, as ideologias políticas — o socialismo, o liberalismo, o nacionalismo — não são apenas propostas de gestão económica. São, no sentido que Raymond Aron batizou, aspirantes a religiões seculares (7). Elas ocuparam o trono vazio. Prometem exatamente o mesmo que as antigas fés: uma explicação para o sofrimento do mundo (a crise, a exploração, a «corrupção»), um caminho para a redenção (o programa eleitoral) e a promessa de um paraíso final (a sociedade justa).
Mas uma religião não sobrevive apenas com livros sagrados ou manifestos escritos. O cristianismo não teria durado dois mil anos se fosse apenas a Bíblia; precisou da missa. O islão precisa da oração em Meca. A fé precisa de ser praticada fisicamente. O partido político, sendo uma entidade abstrata e jurídica, precisava de um local onde pudesse ser tocado, cheirado e sentido. Precisava de um ritual que transformasse a adesão intelectual numa experiência emocional. Não que a política substitua a função primordial da religião, mas os mecanismos pelos quais opera são semelhantes e uma herança da forma como se comunica e cria uma identidade coletiva.
Mas será legítimo chamar religião a um partido laico? A resposta é sim, se entendermos a religião não como teologia, mas como estado de espírito. Le Bon foi definitivo neste ponto: somos religiosos sempre que colocamos «todos os recursos da mente e submissões da vontade» ao serviço de uma causa que se torna o guia das nossas ações (8). Deus torna-se opcional, é a entrega fanática que é obrigatória.
A ideologia funciona dessa forma como uma obsessão sistemática — da forma que o sociólogo Jules Monnerot descrevia (9). E no comício o militante não está a ouvir argumentos; está a participar num delírio coletivo terapêutico, numa espécie de fenómeno afetivo-religioso na política que traz de volta os mitos como formas de sentido. Monnerot explicou que, ao excomungar os demónios (a oposição) e invocar os deuses (o futuro), o grupo cura as suas ansiedades. O partido torna-se um ser real, uma entidade psicológica viva, que «possui» os indivíduos e lhes fornece uma armadura contra a incerteza.
Não vamos ao comício por razões lógicas. Vamos à procura daquilo a que Rudolf Otto chamou de numinoso. Otto descreveu a experiência do sagrado como um mysterium tremendum — um mistério que nos faz tremer, uma mistura de medo e fascínio perante algo maior do que nós. E o objeto mais numinoso é aquele que paira acima da compreensão, que, por isso, exige mediadores: os que o anunciam, os que o servem, os que o esperam.
O numinoso não é uma ideia abstrata; é um estado de alma. É a consciência súbita de que estamos perante algo que nos supera totalmente. Otto descreve-o como um sentimento que provoca no homem o estado de criatura — aquele momento em que nos sentimos pequenos, reduzidos a nada, anulados perante uma força maior. No comício, essa força é a Massa, o Partido ou a História.
A experiência do militante na plateia segue rigorosamente a anatomia do mysterium tremendum. É uma tempestade perfeita composta por elementos precisos: primeiro, o tremendum, o medo reverencial. Há algo de oculto e extraordinário na causa que não compreendemos totalmente, um mistério que motiva, literalmente, tremores. Depois, a majestas: a superioridade absoluta do poder. O indivíduo apaga-se perante a grandeza do movimento. Sente uma dependência absoluta que transforma o partido numa plenitude de ser. «Ele é tudo; eu sou apenas uma peça.» Segue-se a energia: a urgência vital. O ambiente do comício está carregado de uma eletricidade — paixão, vontade, fúria — que coloca a alma em atividade febril. E, finalmente, o mysterium: a sensação de estar perante o totalmente outro. Quando o líder sobe ao palco, naquele instante sagrado, já não é o vizinho do lado nem o cidadão comum; torna-se um estranho familiar, uma entidade que nos enche de um espanto paralisante.
O comício político é eficaz porque replica esta arquitetura. Não convoca a nossa razão para um debate; convoca a nossa pequenez para uma adoração. Nada se assemelha mais a esta passagem do que a ação de um político em pleno comício, anunciando um futuro que está para vir e que suplantará o atual estado das coisas e que revela o numinoso da ação política. Quando o líder entra e a sala explode, o arrepio que o militante sente não é entusiasmo cívico; é o tremor. Ele sente-se pequeno perante a majestade do partido. É exatamente o que acontece quando a porta do fundo se abre e o foco de luz branca rasga a escuridão do pavilhão. É a sensação irracional de estar na presença de uma força que nos pode salvar ou destruir.
O comício não é um mero evento de comunicação como os manuais de Relações-Públicas gostam de classificar. O comício é a liturgia desta nova «fé». É o momento em que a experiência do sagrado ganha corpo no mundo secular em que vivemos.
(1) Arendt, A Condição Humana.
(2) Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.
(3) Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.
(4) Weber, O Político e o Cientista (Presença, 1973).
(5) Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.
(6) Hirschman, As Paixões e os Interesses: argumentos políticos a favor do capialismo, antes do seu triunfo.
(7) Aron, L’Opium des intellectuels.
(8) Le Bon, Psicologia das Massas.
(9) Monnerot, Sociologia do Comunismo.
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