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Introdução

O animal no palco

O cheiro é sempre o mesmo. É uma mistura adocicada de suor, perfume barato, plástico aquecido pelos holofotes e eletricidade estática. Quem entra num pavilhão desportivo transformado em catedral política sente-o antes de o ver. O ar é pesado, denso, irrespirável, mas ninguém se importa. Pelo contrário: é essa densidade que procuram.

Lá fora, a cidade segue a sua vida fria e individualista. As pessoas olham para os telemóveis, evitam o contacto visual no metro, fecham-se nos seus apartamentos. Mas, aqui dentro, o mundo foi suspenso. Aqui, o isolamento moderno morre.

Estamos à espera. Há uma hora que a playlist com batidas sintéticas — desenhadas em laboratório para acelerar o ritmo cardíaco sem distrair o cérebro — dá sinal nas colunas empilhadas como muralhas ao lado do palco. As bandeiras de plástico, distribuídas à entrada por miúdos da «jota» com sorrisos nervosos, agitam-se num ritmo descoordenado que, visto da bancada, parece um oceano colorido.

De repente, as luzes da sala morrem. Um grito coletivo, gutural, sobe da plateia. Não é um grito racional; não é a aprovação de uma medida fiscal ou de uma proposta de lei sobre a habitação. É um som pré-verbal. É o som da tribo a reconhecer-se a si própria.

Os focos de luz, brancos e encandeantes, varrem a escuridão e convergem para um único ponto: o fundo da sala. A música muda. Entra o hino. As portas abrem-se.

E entrou.

Livro: "O ritual do poder"

Autor: Nuno da Silva Jorge

Editora: Almedina

Data de lançamento: 27 de agosto de 2026

Preço: € 16,90

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A pessoa que caminha pelo corredor central, a apertar mãos, suadas, com o nó da gravata milimetricamente desapertado para sugerir «trabalho», deixou de ser um funcionário público. Naquele corredor, sob aquela luz, essa pessoa não é um gestor da coisa pública nem um legislador falível. Transfigurou-se. Para as três mil pessoas que se empurram contra as baias metálicas só para lhe tocarem no casaco, esse indivíduo é o portador da verdade. É o xamã que promete que amanhã o Sol vai nascer e que a colheita será boa.

E nós? Nós, que estamos na bancada, deixámos de ser contabilistas, professores ou desempregados. Somos, agora, o povo. Um corpo único, quente, que respira a uma só voz.

Este livro não é sobre eleições, muito menos sobre sondagens ou a estratégia do partido A ou B. Não é uma análise sintética sobre quem ganhou o debate televisivo ou qual a percentagem de voto em Lisboa, nem é uma dissertação sobre os aconteci- mentos e desenvolvimentos da democracia portuguesa. O que se quer é fazer como Platão escreveu metaforicamente no início de A República: «Desci ontem ao Pireu.» Ou seja, sair da nossa zona de conforto e descer ao pavilhão da discussão democrática.

Este livro é sobre o que acontece naquele pavilhão. É sobre a tecnologia mais antiga da humanidade: a capacidade de nos reunirmos num círculo, à volta de uma fogueira (ou de um palco iluminado), para acreditarmos, juntos, numa ficção partilhada.

Durante décadas, disseram-nos que a política moderna se tinha tornado fria, técnica e racional. Disseram-nos que a democracia se jogava nos gabinetes, nas folhas de cálculo do Ministério das Finanças e nos algoritmos das redes sociais. Mentiram.

Se há lição que podemos tirar de 50 décadas de democracia em Portugal é que, de racional, a vida política tem muito pouco e a emoção é o seu principal atributo. Nem precisamos de ir ao comício para compreender esta premissa, basta-nos começar por observar as conversas ou caixas de comentários online, estar atentos aos comentários e debates na televisão ou escutar as conversas por essas ruas e café — o grande grosso da discussão está longe de uma racionalidade comunicativa e remete-nos mais para o campo da crença e das convicções afetivas.

A Política é, na sua essência, uma atividade com uma linguagem semelhante à religiosa. Sem Deus, mas com todos os rituais da fé: temos os nossos santos, os nossos mártires, os nossos demónios, as nossas procissões e, acima de tudo, a nossa missa — o comício.

A Política existe porque há uma ideia de comunhão, de membros em grupo que se reconhecem entre si como semelhantes — e não como iguais. É no campo da semelhança que reconhecemos «o outro» com um conjunto de características e possibilidade de compreensão comum, mas também alguém com quem temos divergências que têm de ser sanadas. Este é o espaço da aparência — no sentido arendtiano –, onde a política só existe porque eu vejo os outros e os outros me veem (1). E, nesse sentido, o comício é a forma suprema desse espaço. É o único momento em que a ideia abstrata de partido ganha carne e osso. Sem o comício, o partido político é apenas um logótipo num boletim de voto. Com o comício, torna-se uma entidade viva, capaz de nos abraçar.

O comício é Politics pura — usando aqui a terminologia clássica das três dimensões da esfera política. É o momento em que a política deixa de ser regulação fria e passa a ser criação de significado comum. É o jogo de luta que dá alma à máquina. Não é Policy (as medidas políticas), nem Polity (as regras) — e é importante separar as águas.

Mas não estamos perante a Política num estado puro, muito menos genuíno; o que vemos hoje nestes pavilhões já não é a reunião espontânea da tribo. É uma peça de engenharia emocional de alta precisão. O que parece paixão é, muitas vezes, cenografia. O que parece um líder carismático é, muitas vezes, um produto de um focus group. O ritual sagrado foi industrializado.

Nas páginas seguintes, vamos desmontar esta máquina. Vamos olhar para os bastidores, para os fios que seguram as luzes, para os consultores que escrevem os discursos e para os mecanismos psicológicos que nos fazem chorar quando um indivíduo de fato sobe a um palco.

Vamos entrar na festa. Mas, desta vez, vamos manter as luzes acesas.

Capítulo 1

A religião sem Deus

Se um antropólogo de Marte aterrasse hoje num pavilhão desportivo durante um comício, teria dificuldade em distinguir o que vê daquilo que os seus colegas observaram nas catedrais medievais ou nos rituais tribais da Polinésia. A estrutura é a mesma. A arquitetura emocional é idêntica. Só a divindade mudou.

Para o olhar destreinado, um partido político é uma organização burocrática desenhada para gerir a ordem jurídica a que chamamos Estado. Tem estatutos, moradas fiscais, contas bancárias e funcionários que registam quotas. Mas essa é a fachada profana. Na sua essência, um partido não serve para gerir o presente; serve para prometer a salvação.

Quando entramos na festa política, deixamos o mundo da lógica e entramos no território da crença. A política moderna é, em todos os sentidos, uma experiência com semelhanças à de uma religião secular. Matámos Deus no século XIX, como anunciou Nietzsche, mas não matámos a nossa necessidade de O adorar (2). O silêncio deixado pela ausência do divino era demasiado ensurdecedor para a humanidade suportar, por isso preenchemo-lo com a única coisa que tínhamos à mão no mundo moderno: nós próprios.

Vazio no Céu, ruído na Terra

A história da política moderna começa com um funeral. Em algum momento do século XIX, entre o fumo das chaminés da Revolução Industrial e o avanço implacável da ciência, a humanidade ocidental declarou a morte política de Deus. Não foi um homicídio físico, mas um esvaziamento ontológico. O Céu, que durante milénios tinha sido a fonte de toda a autoridade — o Rei governava porque Deus queria, a Lei existia porque as Escrituras o ditavam —, ficou subitamente silencioso.

Max Weber, com a sua precisão cirúrgica, chamou a este fenómeno o desencantamento do mundo (Entzauberung der Welt) — o processo histórico de racionalização e intelectualização que define a modernidade ocidental, no qual as forças mágicas e místicas são progressivamente eliminadas como explicação para a realidade, cedendo lugar ao cálculo técnico e à previsão científica (3). Este triunfo da razão instrumental, contudo, resulta naquilo que Weber diagnosticou como um sistema económico e burocrático coercivo que aprisiona o indivíduo numa lógica de eficiência mecânica, esvaziada de qualquer sentido transcendente ou sagrado. Como o autor sintetiza na sua conhecida conferência A Ciência como vocação: «Significa que, em princípio, não existem forças misteriosas e incalculáveis que interfiram com a vida, mas que, pelo contrário, podemos dominar todas as coisas pelo cálculo» (4). Segundo Weber, caminhávamos para uma jaula de ferro de racionalidade, burocracia e cálculo frio (5). A magia tinha acabado. O mundo seria gerido por técnicos, não por sacerdotes.

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

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Weber estava certo sobre a burocracia, mas estava redondamente enganado sobre o fim da magia no mundo moderno. Ele subestimou a incapacidade crónica do ser humano de viver sem o sagrado. Antes de ser um animal político (zoon politikon), o homem é um animal religioso (homo religiosus). Podemos ter matado os velhos deuses nas catedrais, mas a energia psíquica que lhes dedicávamos — a necessidade de adorar, de pertencer, de sacrificar o eu em prol de um nós transcendente — não desapareceu. Ficou apenas à deriva, à procura de novos recetáculos.

É aqui que entra o partido político. E, mais especificamente, é aqui que nasce a necessidade vital do comício.

Vivemos numa sociedade desenhada segundo a lógica descrita por Albert Hirschman: um mundo onde tentámos domar as paixões destrutivas (o desejo de glória, o fanatismo, a guerra tribal), substituindo-as por interesses inofensivos (o comércio, o dinheiro, a segurança) (6).  Mas a política não sobrevive apenas com interesses frios. O comício é a prova do falhanço dessa frieza mundana: o ser humano continua a necessitar da paixão para dar sentido à vida. No pavilhão, a lógica do interesse (o cálculo racional do voto) é suspensa e regressamos, eufóricos, ao velho mundo das paixões violentas que julgávamos ter superado.

Na era moderna, as ideologias políticas — o socialismo, o liberalismo, o nacionalismo — não são apenas propostas de gestão económica. São, no sentido que Raymond Aron batizou, aspirantes a religiões seculares (7). Elas ocuparam o trono vazio. Prometem exatamente o mesmo que as antigas fés: uma explicação para o sofrimento do mundo (a crise, a exploração, a «corrupção»), um caminho para a redenção (o programa eleitoral) e a promessa de um paraíso final (a sociedade justa).

Mas uma religião não sobrevive apenas com livros sagrados ou manifestos escritos. O cristianismo não teria durado dois mil anos se fosse apenas a Bíblia; precisou da missa. O islão precisa da oração em Meca. A fé precisa de ser praticada fisicamente. O partido político, sendo uma entidade abstrata e jurídica, precisava de um local onde pudesse ser tocado, cheirado e sentido. Precisava de um ritual que transformasse a adesão intelectual numa experiência emocional. Não que a política substitua a função primordial da religião, mas os mecanismos pelos quais opera são semelhantes e uma herança da forma como se comunica e cria uma identidade coletiva.

Mas será legítimo chamar religião a um partido laico? A resposta é sim, se entendermos a religião não como teologia, mas como estado de espírito. Le Bon foi definitivo neste ponto: somos religiosos sempre que colocamos «todos os recursos da mente e submissões da vontade» ao serviço de uma causa que se torna o guia das nossas ações (8). Deus torna-se opcional, é a entrega fanática que é obrigatória.

A ideologia funciona dessa forma como uma obsessão sistemática — da forma que o sociólogo Jules Monnerot descrevia (9). E no comício o militante não está a ouvir argumentos; está a participar num delírio coletivo terapêutico, numa espécie de fenómeno afetivo-religioso na política que traz de volta os mitos como formas de sentido. Monnerot explicou que, ao excomungar os demónios (a oposição) e invocar os deuses (o futuro), o grupo cura as suas ansiedades. O partido torna-se um ser real, uma entidade psicológica viva, que «possui» os indivíduos e lhes fornece uma armadura contra a incerteza.

Não vamos ao comício por razões lógicas. Vamos à procura daquilo a que Rudolf Otto chamou de numinoso. Otto descreveu a experiência do sagrado como um mysterium tremendum — um mistério que nos faz tremer, uma mistura de medo e fascínio perante algo maior do que nós. E o objeto mais numinoso é aquele que paira acima da compreensão, que, por isso, exige mediadores: os que o anunciam, os que o servem, os que o esperam.

O numinoso não é uma ideia abstrata; é um estado de alma. É a consciência súbita de que estamos perante algo que nos supera totalmente. Otto descreve-o como um sentimento que provoca no homem o estado de criatura — aquele momento em que nos sentimos pequenos, reduzidos a nada, anulados perante uma força maior. No comício, essa força é a Massa, o Partido ou a História.

A experiência do militante na plateia segue rigorosamente a anatomia do mysterium tremendum. É uma tempestade perfeita composta por elementos precisos: primeiro, o tremendum, o medo reverencial. Há algo de oculto e extraordinário na causa que não compreendemos totalmente, um mistério que motiva, literalmente, tremores. Depois, a majestas: a superioridade absoluta do poder. O indivíduo apaga-se perante a grandeza do movimento. Sente uma dependência absoluta que transforma o partido numa plenitude de ser. «Ele é tudo; eu sou apenas uma peça.» Segue-se a energia: a urgência vital. O ambiente do comício está carregado de uma eletricidade — paixão, vontade, fúria — que coloca a alma em atividade febril. E, finalmente, o mysterium: a sensação de estar perante o totalmente outro. Quando o líder sobe ao palco, naquele instante sagrado, já não é o vizinho do lado nem o cidadão comum; torna-se um estranho familiar, uma entidade que nos enche de um espanto paralisante.

O comício político é eficaz porque replica esta arquitetura. Não convoca a nossa razão para um debate; convoca a nossa pequenez para uma adoração. Nada se assemelha mais a esta passagem do que a ação de um político em pleno comício, anunciando um futuro que está para vir e que suplantará o atual estado das coisas e que revela o numinoso da ação política. Quando o líder entra e a sala explode, o arrepio que o militante sente não é entusiasmo cívico; é o tremor. Ele sente-se pequeno perante a majestade do partido. É exatamente o que acontece quando a porta do fundo se abre e o foco de luz branca rasga a escuridão do pavilhão. É a sensação irracional de estar na presença de uma força que nos pode salvar ou destruir.

O comício não é um mero evento de comunicação como os manuais de Relações-Públicas gostam de classificar. O comício é a liturgia desta nova «fé». É o momento em que a experiência do sagrado ganha corpo no mundo secular em que vivemos.

(1) Arendt, A Condição Humana.

(2) Nietzsche, Assim Falava Zaratustra.

(3) Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

(4) Weber, O Político e o Cientista (Presença, 1973).

(5) Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

(6) Hirschman, As Paixões e os Interesses: argumentos políticos a favor do capialismo, antes do seu triunfo.

(7) Aron, L’Opium des intellectuels.

(8) Le Bon, Psicologia das Massas.

(9) Monnerot, Sociologia do Comunismo.

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