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No novo episodio de "O Resto é Paisagem", disponível na RTP Play, a viagem começa na ponte quinhentista sobre o rio Ceira. É evocada a doação de Góis e Bordeiro, a 13 de agosto de 1114, data que está na origem do feriado municipal.

O percurso acompanha o Ceira, passando pelas Fragas de Carcavelo e pelas praias fluviais da Peneda e do Beco Escuro, antes de chegar a outros espaços junto ao rio. No verão, a paisagem convida a percorrer alguns dos caminhos dentro de água e a descobrir as zonas balneares do concelho.

Já no centro de Góis, a atenção vira-se para o património religioso e artístico, com destaque para a torre da igreja, o retábulo quinhentista e a Capela dos Chichorros.

Mas é o túmulo de pedra de D. Luís da Silveira, donatário de Góis no século XVI, que merece particular atenção. O túmulo foi descrito no guia da Gulbenkian como “obra-prima”, José Saramago “exige uma viagem a Góis para o ver”, o historiador de arte e arqueólogo Virgílio Correia adjetiva “autêntica e maravilha” e a  arqueóloga Ana Sá, que fez trabalhos sobre este tombo, cita um conselho: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”.

Entre os pormenores destacados estão "o rendilhar da cota, os atributos do calvário" e a representação dos elementos ligados à vida militar do donatário.

A visita prossegue por edifícios históricos, pela antiga casa da Quinta dos Chichorros, pelas fontes, pela Igreja da Misericórdia e por outros espaços que ajudam a contar a história da vila.

O rio Ceira como fio condutor

O rio é uma presença constante ao longo do percurso. A viagem segue até Vila Nova do Ceira, onde a água, a pedra e os recursos naturais se cruzam com a história das populações.

O aproveitamento dos recursos locais é particularmente visível na utilização da pedra rolada e dos arenitos regionais nas construções. É um património que, segundo José Sá Fernandes, revela "um espetacular aproveitamento de recursos naturais".

O percurso passa ainda pela Ponte Pênsil e pela Praia das Canaveias, antes de chegar ao Cabril, onde o Ceira se despede de Góis. É também junto ao rio que sobrevive uma das lendas locais mais conhecidas: a história de dois jovens apaixonados cujas famílias recusaram o casamento. Segundo a tradição, os dois acabaram por morrer no rio, deixando cair cada um uma rosa que, ainda hoje, permanece associada ao local.

Aldeias que preservam a memória

Fora da vila, a viagem entra nas aldeias e revela uma outra dimensão de Góis: a das comunidades que continuam a cuidar do território.

Em várias localidades permanecem as chamadas comissões de melhoramentos, criadas para responder a necessidades das populações e melhorar os espaços comuns.

"Há essas pequenas alminhas, esses pequenos oratórios", é referido durante o percurso, numa paisagem onde as pequenas capelas, os caminhos e os miradouros continuam a marcar a identidade das aldeias.

O património comunitário também passa pelos antigos moinhos, pelas levadas e pelos espaços de utilização coletiva. São vestígios de uma forma de organização em que os recursos eram partilhados e adaptados às necessidades das populações.

Entre as aldeias visitadas está o Soito, descrito como uma localidade preservada junto ao Penedo de Góis, onde foram encontrados icnofósseis.

A viagem segue depois pela rota das Duas Serras, com a serra do Açor e a serra da Lousã no horizonte, e por percursos pedestres que permitem descobrir miradouros, antigos cortiços e outros elementos da cultura rural.

A paisagem de Góis é também marcada pela presença de espécies e atividades tradicionais. Entre florestas e ribeiras, há lugares onde ainda é possível ouvir o bramido dos veados e observar o céu noturno. "Com sorte, aparece uma lontra", é referido durante o percurso.

A viagem termina na Estrada Nacional 2, a mítica N2, que atravessa o concelho. Pelo caminho, surgem vestígios da ocupação humana desde a pré-história, antigas minas de volfrâmio e ouro e referências à exploração de recursos naturais.

Em Alvares, a N2 assinala também uma memória mais recente. O quilómetro 300 marca o meio da distância total da estrada, numa vila onde permanecem testemunhos da atividade industrial e da antiga indústria da resina.

A viagem passa ainda por histórias ligadas à eletrificação da região e pela memória de figuras políticas e empresariais que marcaram a vida local.

No final, entre a ponte, o rio e o som das concertinas, José Sá Fernandes despede-se “encantado” por Góis.

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