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Esta mesma pequena empresa, com menos de 30 empregados e classificada como de risco elevado em termos de crédito e litigância, trabalhou também para a Polícia Judiciária entre 2019/2020 e 2025, faturando entre 1,9 e 2,3 milhões de euros em contratos, precisamente no período em que Luís Neves era diretor nacional da PJ. Entre as obras realizadas para a polícia contam-se a remodelação das sedes da Guarda e de Évora, esta última nem sequer publicitada no Portal Base, plataforma onde o Estado é obrigado a divulgar contratos públicos.

Confrontado com a notícia, o ministro deu uma série de entrevistas (à TVI e CNN Portugal, e mais tarde ao canal Now) nas quais tentou explicar a situação. Segundo o ministro, só conheceu pessoalmente João Carvalho numa fase tardia, por volta de 2023, durante uma visita às obras da PJ na Guarda, quando o empreiteiro estava atrasado devido a alegados problemas familiares graves. Terá sido aí que nasceu uma relação de amizade, e mais tarde Neves pediu-lhe conselhos sobre a obra que queria fazer no seu próprio monte, adquirido nesse mesmo ano por 190 mil euros. O ministro insiste que não houve qualquer favorecimento, argumentando que 70% da faturação da Construbarcelos com a PJ ocorreu antes desse conhecimento pessoal, e que a empresa também perdeu concursos.

Luís Neves admite que, até agora, só pagou cinco mil euros ao empreiteiro, através de duas faturas de 2.500 euros cada, emitidas em nome da empresa da sua mulher, Ana Lúcia de Campos (dona da unipessoal Alcampos), em fevereiro de 2025, apesar de as obras se arrastarem desde 2024 e o empreiteiro viver a 600 quilómetros de distância, em Barcelos. Segundo o ministro, o dinheiro destinava-se a "pequenas despesas e fundo de maneio", pago "aos fins de semana", à medida que a obra ia avançando "aos solavancos", sem contrato escrito, sem orçamento fechado e sem licenciamento camarário, uma vez que Luís Neves considerou que a intervenção, descrita como "três paredes, uma casa de banho e um alpendre" não o exigia.

Quando os jornalistas pediram ao ministro os comprovativos de pagamento desses cinco mil euros, a resposta oficial do gabinete foi a de que "o registo de faturas no portal da Autoridade Tributária (o portal e-Fatura) é, na nossa perspetiva, um comprovativo de pagamento", uma afirmação amplamente criticada, já que o registo de uma fatura apenas prova que ela foi emitida, não que foi paga.

Desde o primeiro dia que a polémica tem vindo a adensar-se, esta semana soube-se que no terreno da propriedade foi construída uma piscina de cerca de 40 metros quadrados, que Luís Neves preferiu sempre descrever como um "tanque", sugerindo tratar-se de uma estrutura agrícola pré-existente. Contudo, imagens de satélite históricas analisadas hoje pelo Expresso mostram que não existia ali nenhuma estrutura desse género antes de 2024. Agravando a situação, verificou-se que o terreno está classificado simultaneamente como Reserva Agrícola Nacional e Reserva Ecológica Nacional, o que, a confirmar-se, tornaria a construção de uma piscina nova sujeita a um processo de licenciamento com pareceres da CCDR, processo que, segundo tudo indica, nunca foi feito. A Câmara Municipal de Odemira confirmou estar a averiguar a legalidade das obras.

Ontem, a Polícia Judiciária confirmou a abertura de um inquérito depois de se descobrir que um atrelado (galera) apreendido no âmbito da megaoperação antidroga "Pacoba", que, em dezembro de 2024, tinha levado ao desmantelamento de um dos maiores laboratórios de cocaína alguma vez detetados na Europa, tinha desaparecido de um parque de bens apreendidos no Seixal e foi encontrado, mais de um ano depois, preso a um camião da Construbarcelos, em Barcelos, a 350 quilómetros de distância.

O atrelado continha bidões com precursores químicos usados no fabrico de drogas sintéticas, embora a PJ tenha esclarecido que os produtos encontrados não eram, em si, estupefacientes. O veículo só poderia ter saído do parque mediante autorização formal, e está por esclarecer como e por ordem de quem isso aconteceu, sendo relevante notar que, à data, Luís Neves era o responsável máximo com poderes para autorizar a movimentação de bens apreendidos. O empreiteiro João Carvalho não foi detido, e o caso foi comunicado ao Ministério Público. A Procuradoria-Geral da República confirmou também estar a acompanhar e a analisar os restantes factos noticiados sobre a relação entre o ministro e o empreiteiro.

Luís Neves, ainda como diretor da PJ, terá pedido a colegas da Infraestruturas de Portugal, durante um almoço na sede da Judiciária, material proveniente do desmantelamento de linhas férreas (sulipas de madeira) para que o empreiteiro da Construbarcelos lhe construísse uma mesa e bancos no monte alentejano. Soube-se também que o ministro não tinha declarado a empresa da mulher à chegada ao Governo, o que o seu gabinete classificou como um "mero lapso"

*Texto originalmente publicado na newsletter Isto é Útil

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