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Os protestos começaram no final de dezembro, inicialmente com uma motivação económica. A rápida desvalorização da moeda iraniana, a subida súbita dos preços de bens essenciais como óleo alimentar e frango e a decisão do banco central de acabar com um mecanismo que permitia a alguns importadores aceder a dólares a um câmbio mais favorável provocaram indignação generalizada. Esse corte traduziu-se num aumento imediato dos preços e no encerramento de lojas, sobretudo nos bazares de Teerão.
Segundo a CNN, os comerciantes são tradicionalmente próximos do regime e historicamente aliados do clero desde a Revolução Islâmica de 1979 e, por isso, o seu envolvimento nos protestos foi visto como um sinal particularmente alarmante para as autoridades.
Rapidamente, as reivindicações deixaram de ser apenas económicas e transformaram-se num protesto abertamente político. Em várias cidades, manifestantes passaram a exigir o fim do regime, a gritar slogans como “morte a Khamenei” e a atacar símbolos do poder estatal, incluindo edifícios públicos e meios de comunicação do Estado. As manifestações alastraram a grandes centros urbanos como Teerão, Mashhad, Tabriz, Qom e Rasht, bem como a regiões periféricas e marginalizadas, incluindo zonas de maioria curda e balúchi, diz o The Guardian.
A resposta do regime foi rápida e extremamente violenta. Forças de segurança, incluindo a polícia, a milícia Basij, a Guarda Revolucionária e agentes à paisana, recorreram a munições reais, balas de metal e cargas com motorizadas contra multidões. Organizações de direitos humanos indicam que pelo menos 50 a 51 pessoas foram mortas, entre as quais várias crianças, centenas ficaram feridas e mais de dois mil manifestantes foram detidos. Médicos e profissionais de saúde relataram à BBC hospitais sobrelotados, nomeadamente centros oftalmológicos em Teerão, com muitos feridos por disparos dirigidos à cabeça e aos olhos, um padrão já observado em repressões anteriores.
Paralelamente, as autoridades impuseram um apagão quase total da internet e das comunicações móveis, em vigor há mais de 36 horas. Especialistas descrevem ao The Guardian este bloqueio como o mais sofisticado e severo alguma vez aplicado no país: cerca de 90% do tráfego internacional desapareceu, chamadas internacionais foram interrompidas e a maioria da população ficou isolada do exterior. Ao mesmo tempo, o regime manteve acesso seletivo a algumas plataformas, permitindo a continuação da propaganda oficial e da comunicação institucional. O objetivo, segundo organizações como a Amnistia Internacional, é impedir a coordenação dos protestos e ocultar a verdadeira dimensão da repressão.
Num discurso televisivo, o líder supremo, Ali Khamenei, adotou um tom inflexível. Classificou os manifestantes como “vândalos” e “sabotadores”, acusando-os de agir ao serviço de interesses estrangeiros, em particular dos Estados Unidos e de Israel, e afirmou que a República Islâmica não irá recuar. Altas figuras do poder judicial e militar reforçaram a mensagem, prometendo punições “máximas” e sem clemência, sublinhando que a preservação do regime é uma “linha vermelha”.
A crise ganhou também uma forte dimensão internacional com França, Alemanha e Reino Unido a apelarem à contenção e ao respeito pelos direitos fundamentais, enquanto a ONU manifestou profunda preocupação com o número de mortos. O presidente norte-americano, Donald Trump, elevou ainda mais a tensão ao ameaçar intervir militarmente caso as forças iranianas continuem a matar manifestantes, afirmando que, se Teerão “começar a disparar”, os Estados Unidos “dispararão também”. O regime iraniano respondeu acusando Washington de instigar os protestos, acusações que os EUA rejeitam.
Neste contexto, Reza Pahlavi, filho do último xá do Irão e figura da oposição no exílio, surgiu como um símbolo de mobilização para parte dos manifestantes. Apelou a protestos coordenados, greves nacionais e à ocupação de centros urbanos, e slogans a favor do seu regresso foram ouvidos em algumas cidades. No entanto, analistas sublinham à CNN que o seu apoio real dentro do país é difícil de medir e que continua a existir uma ausência de liderança unificada e de um plano claro para uma transição política.
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