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Quando a guerra rebentou na Ucrânia, a 24 de fevereiro de 2022, o mundo acreditou que o massacre seria rápido. O consenso internacional apontava para um resultado muito diferente do que acabou por acontecer: dada a superioridade militar da Rússia — aviões, mísseis, tanques e efetivos — Kiev sucumbiria em poucas semanas.
Alguns serviços de inteligência chegaram a estimar que a capital da Ucrânia poderia cair ao fim de apenas 72 horas — enquanto se multiplicavam as discussões públicas sobre a possibilidade de o presidente ucraniano fugir para o exílio (ficou célebre a frase de Zelensky "A luta é aqui; preciso de munições, não de boleia", depois de os EUA se terem oferecido para o tirar do país). Os analistas enganaram-se e, ao quarto ano de guerra, Kiev continua de pé.
Pouco a pouco, um cenário semelhante à anexação da Crimeia, em 2014, rápido e com pouca resistência organizada, foi dando lugar a uma realidade que poucos esperavam. As forças armadas ucranianas não se fragmentaram, o povo não se rendeu nem se instalou um governo pró-Moscovo, facto que surpreenderam todos, sobretudo o presidente da Rússia, Vladimir Putin.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky permaneceu em Kiev, e isso teve um impacto simbólico enorme, e a Rússia encontrou problemas logísticos graves logo nas primeiras semanas. O Ocidente reagiu com sanções duras a Moscovo e envio de armamento para a Ucrânia. No final de Março de 2022, Putin abandonava a tentativa de tomar Kiev. No final desse ano, após contra-ofensivas ucranianas em Kharkiv e Kherson, alguns analistas admitiram até a hipótese de a Ucrânia recuperar território, enquanto em 2023 já todos acreditavam que esta seria uma guerra longa e de desgaste.
A guerra entre hoje no quinto ano e os custos humano e territoriais são severos: as Nações Unidas registam mais de 15.000 mortes de civis, 41.000 feridos e 10 milhões de deslocados desde Fevereiro de 2022. Os ataques a infra-estruturas críticas deixaram milhões de pessoas sujeitas a temperaturas negativas durante o pior inverno em anos.
Poder da Rússia foi sobrestimado
Se uns subestimaram a Ucrânia, outros sobrestimaram a Rússia, vista como a segunda força militar mais poderosa do mundo, modernizada após as reformas desde 2008, com experiência recente em conflitos na Síria e na Geórgia.
Presumia-se que a aviação russa dominaria rapidamente os céus, que as forças terrestres executariam uma operação coordenada e eficaz, que a cadeia de comando seria exemplar. Na prática, as coisas foram diferentes: falhas logísticas graves, problemas de coordenação, resistência forte do inimigo, corrupção estrutural no aparelho militar.
Hoje, diversos estudos sugerem que a inteligência interna russa falhou e Moscovo foi demasiado optimista. A Rússia fracassou ainda no que diz respeito à reação do Ocidente.
Muitos analistas acreditavam que a Europa estaria dividida, antecipavam hesitação na aplicação de sanções duras. Em vez disso, as sanções financeiras foram massivas, o envio de armamento avançado constante — e resultou até no reforço da coesão na NATO. Esta resposta mudou toda a equação estratégica.
UE aplica 19 pacotes de sanções em quatro anos
Até fevereiro de 2026, a União Europeia aprovou 19 pacotes principais de sanções contra a Rússia por causa da guerra na Ucrânia, incluindo proibição de importação de energia e sanções financeiras, embargo a bens e tecnologia militar sensível, congelamento de ativos e restrições de viagens a centenas de indivíduos e empresas, mecanismos de controlo sobre exportações que possam sustentar a capacidade militar de Moscovo.
Ainda este mês, foi discutido um 20.º pacote de sanções, mas não foi aprovado devido a oposição da Hungria.
A proposta em negociação implica mais sanções ao setor da energia, novas restrições financeiras, controlo mais apertado de exportações e aumento de sanções à "frota-fantasma". A Hungria garante que não apoiará as medidas enquanto a Ucrânia não permitir que o oleoduto Druzhba volte a operar e a fornecer petróleo russo a Budapeste e ao resto do seu mercado. Viktor Orbán recusa-se ainda a apoiar o pacote de ajuda militar à Ucrânia (€90 mil milhões) até que o fluxo de petróleo seja retomado.
Na primeira vaga de sanções, logo em 2022, contam-se medidas como restrições ao acesso da Rússia aos mercados financeiros da UE, proibição de comércio com áreas ocupadas de Donetsk e Luhansk, congelamento de ativos do Banco Central da Rússia, exclusão de bancos russos do sistema SWIFT, fecho do espaço aéreo da UE a aviões russos, proibição de transações com o banco central russo, sanções a oligarcas e elites próximas do Kremlin, restrições a exportações de tecnologia de ponta, proibição de investimentos no setor energético russo, proibição de exportação de bens de luxo, restrições à importação de aço e ferro russos, proibição de importação de carvão russo, proibição de acesso de navios russos a portos da UE, restrições ao transporte rodoviário russo, embargo parcial ao petróleo russo transportado por via marítima, proibição de importação de ouro russo, reforço de controlos de exportação.
A União Europeia já tinha sanções contra a Rússia desde 2014, após a anexação da Crimeia, mas o regime foi largamente aprofundado a partir da invasão da Ucrânia. Além destas, existem outras medidas restritivas sob regimes diferentes — por exemplo, contra violações dos direitos humanos.
Mais €28 mil milhões de ativos privados congelados
O impacto das sanções (que, em forte medida, também penalizam aqueles que as impõem) foi brutal: mais de 2.500 indivíduos — figuras políticas, militares e empresários russos — e entidades sancionadas, congelamento de mais de €28 mil milhões de ativos privados relacionados com a Rússia, redução das receitas energéticas russas, com petróleo e gás externos cada vez mais difíceis de vender ao preço e no volume anteriores.
Apesar das sanções, a economia russa não colapsou, em parte devido à adaptação do Kremlin, aos preços elevados de energia em mercados externos, ao comércio com outros países (como a China e a Índia) e a diversas formas encontradas para contornar as medidas relacionadas com a "frota-fantasma". A Rússia ficou estruturalmente mais debilitada, mas ainda não ao ponto de forçar o fim da guerra.
Os impactos na economia russa são significativos: antes de 2022, o petróleo e o gás representavam grande parte das receitas da Rússia, que tinha a Europa como principal cliente. O país perdeu a maior parte do mercado europeu de gás e foi forçado a vender petróleo com desconto à Ásia, enquanto os custos logísticos aumentaram (com o uso da "frota-fantasma").
Com a guerra, a despesa militar disparou, os défices orçamentais aumentaram e as reservas financeiras foram usadas para cobrir custos. A Rússia passou a depender de importações indiretas via países terceiros, a produção de armamento tornou-se mais lenta e mais cara e algumas armas modernas tornaram-se difíceis de substituir.
As sanções não impediram a Rússia de mobilizar centenas de milhares de soldados ou de aumentar a produção de munições, mas a qualidade do equipamento diminuiu, o desgaste humano aumentou e a capacidade de substituição de sistemas avançados é mais difícil.
Estima-se que o total de baixas russas (mortos, feridos e desaparecidos) ascenda a 1,2 milhões desde o início da guerra — com entre 275.000 e 325.000 soldados russos mortos em combate. Sem efetivos nacionais, a Rússia opta por recrutar e integrar nas forças nacionais militares estrangeiros — dados divulgados pela Ucrânia apontam para mais de 18.000 cidadãos de cerca de 128 países diferentes (Africa do Sul, Quénia, Coreia do Norte) recrutados para combater. Destes, perto de 3.400 terão morrido em combate.
Com uma inflação persistente, mão-de-obra escassa, dependência excessiva do setor militar e a fuga de capital humano, a questão que se coloca é: quanto tempo mais conseguirá a Rússia aguentar nesta situação?
Hoje, já ninguém arrisca dizer, como em 2024, que a guerra pode durar mais dois anos. Desde fevereiro de 2022, foram documentados 2.591 ataques ao sistema de saúde ucraniano, incluindo 1.389 hospitais e clínicas danificados ou destruídos e pelo menos 359 profissionais de saúde mortos. Os incidentes documentados aumentaram quase 50% em 2024 e 2025, a sublinhar o esforço da Rússia para desmoralizar a Ucrânia.
O orçamento aprovado pelo parlamento russo para 2025 indica que a Rússia está a gastar entre €126 e €130 mil milhões por ano em defesa e segurança, cerca de 6,3 % do PIB previsto para esse ano. No entanto, uma análise do Serviço Federal de Inteligência alemão vem agora dizer que as despesas terão sido 66% superiores ao previsto no orçamento oficial.
Em fevereiro de 2026, uma vitória rápida de Rússia é improvável, mas o país ainda tem recursos para sustentar o esforço de guerra durante algum tempo, embora cada vez com mais dificuldades. Para já, o conflito continua sem um fim à vista e essas são as piores notícias.
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