Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Abbas Milani, diretor de estudos iranianos na Universidade de Stanford, escreve hoje no The New York Times que para se compreender como o povo iraniano reagirá após os ataques americanos e israelitas, é importante perceber que a Revolução Iraniana de 1979 não foi, na realidade, uma revolução. Foi um “bait-and-switch” engenhoso orquestrado por Ayatollah Ruhollah Khomeini, que assumiu a liderança do movimento, isto é um engodo que lhe permitiu trocar o poder.
Segundo o especialista, o povo iraniano desejava uma revolução baseada na cidadania moderna e num contrato social, para trazer democracia, liberdade, independência e uma república, mesmo que islâmica, mas sem domínio clerical. Khomeini prometeu essas ideias, enganando tanto os iranianos como o Ocidente, mas, no fim, implementou uma contrarrevolução.
O também investigador do Instituto Hoover lembra que antes da queda do xá, Khomeini deu várias entrevistas em Paris, ocultando as suas ambições políticas e sugerindo que se afastaria do poder, embora textos anteriores defendessem o governo clerical. Prometeu ao presidente Jimmy Carter conter o poder militar iraniano e manter o país livre da influência soviética, enquanto secretamente nutria ressentimento contra os EUA. Khomeini também rejeitou a modernização do xiismo, mantendo dogmas e rituais tradicionais.
Após assumir o poder, impôs uma Constituição baseada no seu livro de 1970 “Governo Islâmico: Guardião do Jurista”, que defendia que o povo é incapaz de se gerir a si próprio e necessita de um guardião, mas não um filósofo, e sim um especialista na Sharia. Tribunais revolucionários mataram membros do regime antigo e opositores, e medidas sociais rígidas, como o uso obrigatório do hijab, provocaram revolta entre mulheres, democratas seculares, esquerda e minorias étnicas.
Nos últimos 47 anos, o povo iraniano tem lutado incrementalmente pela liberdade: o Movimento Verde (2009-10), os protestos Mulher, Vida, Liberdade (2022-23) e os recentes protestos massivos são exemplos dessa “revolução contínua”. Hoje, menos de 12% dos iranianos apoiam o status quo da República Islâmica, segundo avança o especialista.
Agora, com a morte de Khamenei e outros líderes, a questão central não é quem irá governar, mas que ideias de governação democrática e políticas económicas podem unir o país e tirá-lo da paralisia política e crise económica. E para o autor do artigo, a nomeação de Ahmad Vahidi, como novo chefe da Guarda Revolucionária Islâmica do Irão, procurado pela Interpol associado à repressão e assassinatos em massa na Argentina, mostra que o regime ainda persiste na linha dura, mas a população secular e moderna do Irão dificilmente aceitará a continuação das práticas brutais.
Apesar da sobrevivência aparente do regime, a contrarrevolução de Khomeini está a gerar a revolução do futuro, uma luta contínua por democracia, liberdade e direitos que lhes foram prometidos há quase meio século.
Como tudo começou
A Revolução Islâmica de 1979 no Irão, liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, marcou um ponto de viragem ao projetar o xiismo político como força revolucionária e ao desafiar regimes sunitas conservadores, sobretudo no Golfo Pérsico. Desde então, Teerão tem apoiado partidos e milícias xiitas em países vizinhos, enquanto Estados do Golfo reforçaram o apoio a governos e movimentos sunitas.
No Líbano, os xiitas ganharam destaque através das atividades militares do Hezbollah. Já no Paquistão e no Afeganistão, extremistas sunitas como o Talibã atacaram frequentemente locais de culto xiitas. Em conflitos recentes no Iraque e na Síria, muitos jovens sunitas juntaram-se a grupos rebeldes que reproduzem a ideologia extremista da Al-Qaeda, enquanto combatentes xiitas lutaram ao lado das forças governamentais.
A rivalidade entre o líder supremo iraniano Ali Khamenei e o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman simboliza esta competição por influência religiosa e geopolítica. Cada país segue predominantemente um dos ramos do Islão e procura afirmar a sua liderança no mundo muçulmano.
Apesar das diferenças profundas, há momentos em que inimigos comuns, como o autoproclamado Estado Islâmico, levam potências sunitas e xiitas a convergir estrategicamente.
Quem são os sunitas?
Os sunitas representam cerca de 86% a 90% dos muçulmanos em todo o mundo e consideram-se o ramo mais tradicional e ortodoxo do Islão. Reconhecem como legítimos os quatro primeiros califas que sucederam a Maomé e encaram os líderes políticos subsequentes como figuras temporárias, sem autoridade divina especial.
Ao contrário da tradição xiita, o sunismo não atribui infalibilidade religiosa aos seus dirigentes. Historicamente, os líderes e estudiosos sunitas mantiveram ligações próximas com o poder político e com o Estado. A tradição jurídica sunita desenvolveu um sistema claramente codificado, estruturado em quatro escolas de direito islâmico.
Quem são os xiitas?
Os xiitas começaram como uma fação política que defendia o direito de Ali e dos seus descendentes à liderança. Com o tempo, essa posição evoluiu para uma teologia própria, marcada por uma hierarquia clerical definida e por uma interpretação contínua e dinâmica dos textos sagrados.
O conceito de martírio ocupa um lugar central na fé xiita, em grande parte devido à morte de Hussein. A celebração da Ashura, que assinala esse acontecimento, é um dos rituais mais marcantes da tradição xiita, envolvendo cerimónias de luto e recordação.
A fé xiita inclui também um elemento messiânico: muitos acreditam no regresso de um imã oculto que restaurará a justiça. Estima-se que existam atualmente entre 120 e 170 milhões de xiitas, sendo maioria no Irão, no Iraque, no Bahrein e no Azerbaijão, além de estarem presentes em comunidades significativas no Iémen, Líbano, Afeganistão, Paquistão e outros países da região.
Uma divisão com raízes profundas
A grande divisão do mundo muçulmano é entre sunitas e xiitas. Embora ambas as vertentes coexistam há séculos, partilhem as crenças fundamentais do Islão e reconheçam o Alcorão e os cinco pilares da fé, mantêm diferenças importantes em matéria de doutrina, rituais, leis, teologia e organização religiosa. Hoje, essa divisão está particularmente visível nas tensões geopolíticas que envolvem os Estados Unidos, a Arábia Saudita e o Irão, duas potências regionais que seguem ramos distintos do Islão.
Em janeiro de 2020, a ordem de Donald Trump, durante o primeiro mandato, para matar o general iraniano Qasem Soleimani desencadeou uma resposta militar de Teerão, com ataques a bases que acolhiam tropas norte-americanas no Iraque. Para muitos analistas, este episódio ilustrou como as diferenças entre sunitas e xiitas continuam a influenciar e a agravar rivalidades políticas e estratégicas no Médio Oriente. Irão e Arábia Saudita competem há décadas pelo domínio regional, e essa disputa é frequentemente enquadrada em termos religiosos.
A divisão remonta a 632, ano da morte do profeta Maomé, altura em que a questão central era saber quem deveria liderar a comunidade muçulmana. Uma parte defendia que o sucessor deveria ser escolhido entre os companheiros mais capazes do profeta; outra sustentava que a liderança deveria permanecer na sua família, nomeadamente através do seu primo e genro, Ali.
Os que apoiaram a escolha de líderes por consenso tornaram-se conhecidos como sunitas, termo que deriva de “Ahl al-Sunna”, ou “povo da tradição”, numa referência às práticas baseadas nos ensinamentos e exemplos de Maomé e dos seus próximos. Já os xiitas surgiram como “Shiat Ali”, o partido de Ali, reivindicando o direito deste e dos seus descendentes à liderança da comunidade islâmica.
Ali foi morto num contexto de intrigas e conflitos internos. Os seus filhos Hassan e Hussein também acabaram por morrer em circunstâncias violentas. A morte de Hussein na Batalha de Karbala, em 680, tornou-se um momento fundador da identidade xiita e está na base do forte simbolismo do martírio nesta tradição.
Raízes que vão sombrear o futuro do Irão?
O ataque de Israel e dos Estados Unidos contra o Irão, teve como objetivo declarado enfraquecer e eventualmente derrubar o regime dos mullahs, os líderes religiosos e políticos do Irão, geralmente clérigos xiitas que ocupam posições-chave no governo teocrático do país desde a Revolução Islâmica de 1979.
Líderes que combinam autoridade religiosa com poder político, controlando instituições como o Supremo Líder, o Conselho de Guardiões e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), que garante a lealdade interna e projeta poder militar regional. Ao longo das décadas, os mullahs consolidaram um regime autoritário baseado na repressão interna, na utilização de forças de segurança altamente disciplinadas e na influência através de proxies em países vizinhos, como o Hezbollah no Líbano e grupos armados no Iraque e Iémen.
A ofensiva coordenada começou com ataques cibernéticos e ataques aéreos e navais contra alvos estratégicos, incluindo a sede de figuras-chave como o próprio Aiatolá Khamenei, visando destruir as capacidades nucleares e de mísseis do país e neutralizar o IRGC. Estes ataques refletem o reconhecimento da vulnerabilidade do regime: a capacidade de comando, defesa aérea e lançamentos de mísseis do Irão já se encontra significativamente degradada, limitando a sua capacidade de contra-atacar de forma massiva.
A sobrevivência do regime continua a ser a prioridade absoluta dos mullahs. Para se manterem no poder, têm recorrido a todas as formas de retaliação disponíveis, incluindo ataques com mísseis e drones contra Israel e bases americanas na região, mobilização dos proxies regionais e até tentativas de operações de subversão internacional.
O Ayatollah Alireza Arafi foi nomeado como líder supremo interino, herdeiro dos seminários teológicos, representa a ligação entre a autoridade religiosa tradicional e o Estado burocrático moderno. O seu papel actual é manter a continuidade do regime até que seja escolhido um sucessor permanente, refletindo a sua influência dentro da elite clerical e no sistema político do país.
Numa altura em que pouco se sabe sobre o dia de amanhã, o The Guardian falou com diplomatas ocidentais que se mostram cautelosos em prever o fim do regime iraniano, lembrando-se do erro de avaliação antes da queda do xá em 1979, quando a diplomacia ignorou sinais de insurreição. Ainda na altura dos primeiros protestos da população, há um mês, os especialistas consideravam improvável qualquer deserção em massa do regime, apesar das alegações do filho do xá sobre oficiais da Guarda Revolucionária (IRGC). Vali Nasr e Ray Takeyh destacavam ao jornal britânico que não existia um movimento nacional consolidado e que muitos aguardam para decidir que posição tomar.
A imprensa israelita tem referido Ali Larijani, como uma das figuras mais influentes do Irão atualmente. Nascido em 1957 em Najaf, no Iraque, Ali Larijani provém de uma família com forte peso político e religioso: o pai, Grand Ayatollah Mirza Hashim Amoli, era um jurista de grande prestígio, e o irmão Sadiq Larijani chegou a ser chefe do judiciário e considerado potencial sucessor de Khamenei. Ali Larijani possui um PhD em Filosofia, o que se reflete no seu estilo político deliberativo e estratégico.
Ao longo da sua carreira, Ali Larijani participou na Guerra Irão-Iraque pela IRGC, foi ministro da Cultura e Orientação Islâmica, dirigiu um canal estatal, integrou o Conselho Supremo de Segurança Nacional, negociou com países europeus sobre o programa nuclear e presidiu o parlamento iraniano (Majlis). Conhecido por manter-se no centro do poder, apoiou agendas reformistas quando necessário, mas sempre conservando influência junto aos hardliners.
Devido à sua experiência e à rede de influência da família Ali Larijani, é visto como capaz de manter o equilíbrio do poder caso o regime enfrente instabilidade. Se o regime sobreviver ao atual conflito ou negociar com os EUA, Ali Larijani e a sua família poderão desempenhar um papel decisivo no futuro do Irão.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários