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O ataque ocorrido num contexto de aparente normalidade quotidiana voltou a expor uma realidade incómoda, apesar de mais de duas décadas de processo de paz, o republicanismo armado dissidente não desapareceu. A última ação, em abril, reacendeu memórias de um passado violento e sublinhou que a ameaça, embora residual, permanece ativa na Irlanda do Norte. Para as autoridades britânicas, trata-se menos de um ressurgimento em larga escala e mais da persistência de uma violência de baixa intensidade, imprevisível e potencialmente letal.

No centro dessas preocupações está o chamado New IRA, atualmente considerado pelo Reino Unido como o grupo paramilitar republicano dissidente mais perigoso em atividade.

O que defende

O nome completo da organização é New Irish Republican Army, mas internamente os seus membros referem-se simplesmente como Irish Republican Army, numa tentativa explícita de reivindicar a continuidade histórica do republicanismo armado iniciado no início do século XX. A designação “Novo IRA” foi adotada pelos meios de comunicação social e pelas autoridades para diferenciar esta organização das várias estruturas anteriores que usaram o mesmo nome.

A ideologia do grupo mantém-se alinhada com os princípios tradicionais do republicanismo radical: rejeição total da soberania britânica sobre a Irlanda do Norte, oposição às instituições criadas pelo acordo de paz e defesa da reunificação da ilha da Irlanda. Ao contrário dos principais partidos nacionalistas, o Novo IRA sustenta que a luta armada continua a ser um meio legítimo para atingir esses objetivos, considerando o processo político pós-1998 uma capitulação.

A génese do grupo e a rejeição do Acordo da Sexta-Feira Santa

O Novo IRA surgiu formalmente em 2012, na sequência da fusão do Real IRA com a organização Republican Action Against Drugs e outros pequenos grupos militantes. Esta união refletiu o descontentamento de setores republicanos que nunca aceitaram o Acordo da Sexta-Feira Santa, o tratado que pôs termo à maior parte da violência do conflito conhecido como The Troubles.

Na sua declaração fundadora, o grupo afirmou que o acordo tinha criado uma “paz falsa”, sustentada por instituições que, na sua perspetiva, legitimam a divisão da Irlanda e neutralizam o objetivo da autodeterminação nacional. Para estes militantes, a participação em estruturas políticas como a Assembleia da Irlanda do Norte representa uma traição ao ideal republicano.

As cisões do IRA e a lógica da dissidência armada

A história do IRA é marcada por divisões profundas, geralmente motivadas por divergências estratégicas entre ação armada e participação política. O IRA Provisório foi o principal grupo republicano armado durante The Troubles, declarou cessar-fogo em 1997 e encerrou formalmente a luta armada em 2005, num processo acompanhado pela transição política do Sinn Féin.

O Continuity IRA surgiu em 1986, após divergências sobre a aceitação de mandatos parlamentares, enquanto o Real IRA nasceu em 1997, em oposição direta ao cessar-fogo do IRA Provisório. Este último ficou para sempre associado ao atentado de Omagh, em 1998, o mais mortífero de todo o conflito, que matou 29 pessoas e reforçou o repúdio social à violência.

O Novo IRA representa a continuação dessa lógica dissidente, mas num contexto profundamente diferente, sem apoio popular significativo, sob vigilância constante e com recursos muito mais limitados.

Ataques, vítimas e impacto mediático

Apesar da sua reduzida capacidade operacional, o Novo IRA tem sido associado a vários atos de violência de elevado impacto simbólico e mediático. Em 2019, a jornalista Lyra McKee foi morta a tiro enquanto cobria distúrbios em Derry/Londonderry, um crime que gerou condenação transversal e marcou profundamente a perceção pública do grupo. O Novo IRA assumiu a responsabilidade pelo disparo.

Entre outros ataques atribuídos ao grupo estão o assassínio do guarda prisional David Black em 2012, o atentado com engenho explosivo que levou à morte de Adrian Ismay em 2016, bem como tentativas recorrentes de atentados com bombas sob viaturas de agentes da polícia.

As autoridades britânicas também ligam o grupo ao envio de cartas armadilhadas para alvos no Reino Unido continental, incluindo aeroportos, universidades e edifícios governamentais, numa estratégia destinada a projetar a ameaça para além da Irlanda do Norte.

O braço político e a vigilância das autoridades

O partido Saoradh é frequentemente apontado por analistas e pelos serviços de segurança como a expressão política do Novo IRA. Embora o partido negue formalmente qualquer ligação a estruturas armadas, os seus dirigentes são alvo de vigilância apertada e várias sedes foram alvo de rusgas policiais.

O Police Service of Northern Ireland considera o Novo IRA a principal prioridade no combate ao terrorismo republicano dissidente. Do ponto de vista britânico, a ameaça não se mede pela frequência dos ataques, mas pela intenção declarada de matar e pela natureza imprevisível das táticas utilizadas, que incluem engenhos improvisados e ataques direcionados contra indivíduos específicos.

Mais de vinte anos após o fim formal do conflito, o Novo IRA representa um remanescente violento de uma era que a maioria da sociedade norte-irlandesa procura deixar para trás. Sem apoio significativo da população, condenado pelos principais partidos nacionalistas e isolado politicamente, o grupo continua, no entanto, a desafiar o consenso alcançado em 1998.

Para Londres, a principal preocupação é evitar qualquer escalada que possa desestabilizar uma região onde o equilíbrio político permanece sensível, sobretudo num contexto pós-Brexit. Para muitos analistas britânicos, o Novo IRA não tem capacidade para relançar um conflito de larga escala, mas basta um único ataque bem-sucedido para reabrir feridas que continuam longe de estar totalmente cicatrizadas.

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