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Giulia Sent é investigadora em Portugal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Recentemente, entregou a tese de Doutoramento em Ciências do Mar, no Centro de Ciências do Mar e do Ambiente (MARE), instantes antes de mergulhar numa nova aventura que junta a parte académica e pessoal. Italiana de nascença, natural de Murano, Veneza, antiga velejadora da seleção italiana nas classes “Optimist, 420 e 470”, quis velejar até à terra natal.

“O objetivo inicial era um bocado diferente. O meu sonho era chegar a Veneza no meu barco. Sou de lá, toda a minha família está lá”, confessou.

Entretanto, antes de içar velas, mudou o propósito da navegação a bordo do Sara, um veleiro de 33 pés (10 metros) adquirido em Alicante, Espanha, em 2022.

“Enquanto estava a desenvolver e preparar a viagem, apercebi-me que para um cientista seria um desperdício navegar tantas milhas sem contribuir para a ciência ou sem recolher dados para investigação científica”, adiantou.

A viagem carecia de “mais significado”, indo além de alimentar “o meu próprio ego de chegar a Veneza”, admitiu. “Queria ter mais objetivos, mais um propósito”, avançou ao 24noticias no Centro Náutico de Algés, enquanto a embarcação repousava pendurado no berço de reparação.

“Comecei a procurar projetos que precisassem de recolha de dados nos oceanos”, contou. Em regime de voluntariado, acabou por ser uma das 20 embarcações selecionadas para integrar o projeto PlanktoSpace.

O programa, lançado em parceria pela Agência Espacial Europeia (ESA) e a NASA, tem como objetivo recolher amostras de plâncton e dados oceanográficos em diferentes pontos do globo.

Dirigido a navegadores voluntários, permite correlacionar a composição do plâncton das águas superficiais com a cor dos oceanos vista de cima, observada por satélite.

Com o fito das pesquisas em mente, enquanto procrastinava a entrega da tese de doutoramento, Giulia decidiu transformar o Sara num veleiro de investigação científica (R/V) .

Giulia Sent
Giulia Sent créditos: Miguel Morgado | MadreMedia

Recolha de 10 litros de água a olhar para o céu

Giulia partiu no final de maio. Tem debaixo dos ombros a tarefa de, até Veneza, mapear os microscópicos organismos que navegam à deriva pelo Mediterrâneo e Adriático.

“O projeto disponibilizou um kit para recolher amostras. Basicamente, vou recolher cerca de 10 litros de água com um balde”, quantificou.

A recolha não será feita durante todo o percurso, antes obedece à coleta em pontos específicos. “O kit tem um sistema de recolha e filtração das amostras feitas no dia e hora em que o satélite está a passar pelo local onde estou”, frisou.

“O objetivo do projeto é monitorizar a biodiversidade planctónica a partir do satélite”. Tal obriga a uma navegação ao cronómetro e à recolha de amostras a olhar para o céu. “Necessito de planear e ver as passagens do satélite”, antecipou Giulia.

“Depois, no final da viagem, envio para a França, onde está a ser desenvolvido este projeto, e aí farão análises e comparam com o que o satélite viu”, descreveu.

A investigadora e doutoranda na Faculdade de Ciências considera “vantajoso monitorizar o ecossistema marinho a partir do satélite”, disse. Tradicionalmente, o processo, obriga investigadores e cientistas a deslocarem-se nos barcos aos locais, recolher amostras e enviar para laboratório. “É muito demorado”, adjetivou.

“Além das amostras serem pontuais, não são representativas de uma área grande”, acentuou. Em contraponto, “o satélite passa todos os dias, com uma única imagem apanha uma área geográfica muito larga”, comparou.

Mas, nem tudo parece navegar a alta velocidade e há desafios associados. “É preciso desenvolver algoritmos mais precisos”, avisou Giulia Sent.

Quatro meses de ida e volta. Quase sempre sozinha

Apesar de não ter data de chegada ao porto veneziano, “tenho data-limite para voltar aqui (Lisboa). Prometi voltar a trabalhar em setembro, no MARE”, afirmou.

“São quatro meses para fazer ida e volta, é um pouco apertado”, alertou. O aperto justifica as “poucas” paragens previstas na rota. Em especial, no regresso.

Navegará “a maior parte do tempo sozinha”. A duração da viagem solitária constitui em si mesmo uma novidade para a investigadora, confessa.

O percurso será quase sempre feito pela costa sem perder de vista o propósito que leva o veleiro Sara e a investigadora até à cidade das Gôndolas.

Primeira paragem: Algarve.

Nesta primeira etapa, Giulia percorreu águas atlânticas na companhia do namorado, Marco. Pausa seguinte, Gibraltar, estreito onde as orcas têm provocado alguns dissabores aos navegadores e atrasos na navegação.

Dependendo da “meteorologia”, confessou em terra, pretende fazer nova paragem num sítio umbilicalmente ligado à epopeia que abraçou. “Gostava de parar em Alicante, onde comprei o barco”, sublinhou.

O paradeiro de Giulia é, contudo, desconhecido. Tendo transmitido o pré-aviso de limitações de acesso à internet, atirou as novidades do percurso para um blog e página de Instagram.

“O barco é a minha casa”

Batizado de Sara, veleiro de construção e design sueco, é datado de 1973. “Tem mais 20 anos do que eu”, conferiu.

“Quando estava à procura de barcos, cruzei-me com um barco igual a este e apaixonei-me logo”, confidenciou.

Uma embarcação vintage não era um capricho, note-se. O “budget” determinou a escolha feita, assume, um “sonho financiado com o salário de doutoranda”, riu.

O refit (trabalhos de restauro) foi todo feito em solo português, a quatro mãos, no Centro Náutico de Algés. Giulia e o namorado, Marco, engenheiro mecânico de nacionalidade brasileira, trabalharam diariamente durante sete meses.

Gostaria de chegar a Veneza “na primeira semana de julho”, a tempo de participar e “dar umas palestras” num “curso, uma summer school, numa área muito relacionada com as amostragens que vou fazer e validação de satélites”, referiu.

Vai até Veneza e regressa a Lisboa no mesmo veleiro. “Na verdade, é ir na minha atual casa até à antiga casa” ou não fosse a embarcação a atual morada de Giulia Sent.

“O barco é a minha casa. Nos últimos três anos morei na marina da Expo”, morada flutuante onde conheceu o namorado, também ele um inquilino da marina.

A residir em Portugal há nove anos, entrou na universidade portuguesa integrada no programa Erasmus. “Era suposto ficar só seis meses e, entretanto, gostei. Depois da licenciatura, fiquei”, relembrou.

Nem sempre viu estrelas a partir do teto alfacinha. Vive debaixo deste rooftop a céu aberto somente desde 2023, altura em “as rendas começaram a ficar muito caras”, esclareceu. Poderia ter optado por ficar em terra firme, “mas todo o meu salário ia para uma renda, o que não acho muito razoável”, observou.

Velejadora desde os sete anos, na maioridade deixou de lado as velas e os cabos. “Nunca fui pessoa de conseguir focar-me muito em duas coisas”, reconheceu. Por isso, “a certa altura tive de escolher, escolhi a faculdade e deixei as regatas durante uns anos”, recordou a investigadora no MARE há sete anos para quem, esta viagem a solo, “eventualmente”, marca um regresso da vela “à minha vida”.

Embora não pretenda carregar uma mensagem numa garrafa, deixa um alerta. “Da parte ambiental, temos cada vez mais necessidade de monitorizar o ambiente porque as alterações acontecem cada vez mais rápido e é essencial ter dados sobre o que está a passar”, atestou.

“Até para perceber tendências. Se tivermos poucos dados, não dá para perceber se é uma tendência verdadeira ou se é só uma variabilidade anual”, concluiu Giulia Sent, investigadora e doutoranda na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

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