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A ideia de que a gravidez é sempre um “estado de graça” continua enraizada social e culturalmente, mas nem todas as mulheres vivem essa fase de forma positiva. Foi este o ponto de partida para uma conversa entre Jessica Athayde e a psicóloga clínica e psicoterapeuta Maria de Jesus Correia, que defenderam a necessidade de quebrar o tabu em torno das experiências negativas durante a gestação.

“Porque é que ainda é tabu dizer que a gravidez pode ser uma merda?”, questionou Jessica Athayde, recordando que foi alvo de críticas quando falou publicamente sobre a sua infelicidade durante esse período. Segundo a atriz, muitas dessas reações vieram de mulheres com experiências diferentes, o que evidencia a pressão social para viver a gravidez de forma positiva.

Maria de Jesus Correia explicou que essa pressão está profundamente enraizada. “Socialmente, passa a ideia de que a gravidez é cor-de-rosa e um estado de graça. Ir contra isso não é fácil”, afirmou, sublinhando que o consultório acaba por ser, muitas vezes, o único espaço seguro para expressar emoções negativas.

A especialista alertou ainda para uma confusão frequente entre gravidez e maternidade. “Quando uma grávida diz que não está bem, muitas vezes interpreta-se isso como um prenúncio de que será uma má mãe”, referiu, rejeitando essa associação direta.

Do ponto de vista psicológico, a gravidez é descrita como uma “crise adaptativa”, marcada por mudanças físicas, hormonais e emocionais. “Tudo isto inevitavelmente traz alterações emocionais”, explicou, defendendo a importância da psicoeducação para normalizar sentimentos como medo, dúvida ou ambivalência.

Essa ambivalência, querer muito ser mãe e, ao mesmo tempo, sentir receio é, segundo a psicóloga, perfeitamente natural. “Uns dias são de entusiasmo, outros de medo. É possível viver com essas duas dimensões”, afirmou.

As redes sociais surgem como um fator adicional de pressão. Jessica Athayde criticou a forma como a gravidez é frequentemente retratada online de forma “perfeita”, uma ideia reforçada por Maria de Jesus Correia: “Essas imagens mostram apenas o lado positivo e podem ser desestabilizadoras.”

A conversa abordou também a diversidade de experiências. “Nenhuma mulher vive a gravidez da mesma forma”, sublinhou a psicóloga, explicando que há casos em que a gravidez é vivida como um período de realização pessoal, enquanto outras mulheres se sentem profundamente desconfortáveis, sem que isso determine a qualidade da relação futura com o bebé.

O pós-parto foi outro dos temas destacados como um período particularmente exigente, tanto do ponto de vista físico como emocional. A especialista lembrou que, tal como na gravidez, também aqui pode ocorrer uma crise adaptativa, agravada por privação de sono e novas responsabilidades.

Sobre saúde mental, Maria de Jesus Correia alertou para a dificuldade em reconhecer e falar sobre depressão durante a gravidez. “Ainda é mais difícil do que falar de depressão pós-parto”, disse. A distinção entre dias difíceis e um quadro clínico passa, sobretudo, pela intensidade e duração dos sintomas. “Se interfere com a rotina e se agrava ao longo do tempo, pode tratar-se de psicopatologia”, explicou.

A questão da medicação também foi abordada, com a psicóloga a garantir que existem antidepressivos compatíveis com a gravidez, recomendando acompanhamento especializado em psiquiatria perinatal.

Outro ponto relevante foi o papel do parceiro, que deve, acima de tudo, validar as emoções da mulher. “A pergunta-chave é: ‘como posso ajudar?’”, afirmou, destacando a importância da comunicação no casal.

A perda de identidade é também uma preocupação para algumas mulheres. “Passam a ser ‘a grávida’ ou ‘a mãe’, e isso pode ser vivido de forma difícil”, explicou.

A vida sexual durante a gravidez, por sua vez, pode sofrer alterações significativas, influenciadas por fatores hormonais, físicos e emocionais. “Não há certo nem errado. A libido pode variar muito ao longo dos trimestres”, sublinhou.

Para lidar com este período, a psicóloga defende a normalização das emoções e o reforço da rede de apoio. “Só perceber que não se está sozinha já reduz o sofrimento”, afirmou.

Para uma mensage final, ambas apelaram a uma visão mais realista da gravidez, longe da idealização. “A realidade não é sempre cor-de-rosa”, disse Maria de Jesus Correia, enquanto Jessica Athayde deixou uma mensagem de esperança: mesmo quando a gravidez é difícil, “depois pode vem o melhor da vida”.

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