Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
A representatividade da mulher na área das ciências em Portugal tem registado uma evolução positiva nas últimas décadas, posicionando o país acima da média europeia em vários indicadores, embora persistam desigualdades significativas em áreas específicas e nos níveis mais elevados da carreira científica.
Segundo dados do Eurostat, em termos de educação, as mulheres são maioritárias no ensino superior em Portugal há mais de uma década. Em 2024, cerca de 60% dos estudantes matriculados no ensino superior eram mulheres, uma tendência que se reflete igualmente nos graus mais avançados. No mesmo ano, as mulheres representaram aproximadamente 53% dos doutoramentos atribuídos, consolidando uma presença dominante na formação científica de nível avançado. Esta realidade coloca Portugal entre os países europeus com maior equilíbrio de género na atribuição de graus académicos superiores.
No domínio da investigação científica, os dados da Fundação para a Ciência e Tecnologia e do Eurostat indicam que cerca de 51% dos investigadores em Portugal são mulheres, um valor claramente superior à média da União Europeia, que se situa em torno dos 41%. Este indicador confirma uma forte presença feminina no sistema científico nacional, particularmente nas áreas das ciências naturais, da saúde e das ciências sociais, onde a percentagem de mulheres ultrapassa frequentemente os 50%.
Apesar destes números encorajadores em determinadas áreas da Ciência, as mulheres continuam sub‑representadas em outras mais específicas, especialmente nas disciplinas tecnológicas e de engenharia. Em 2023, apenas cerca de 31,3% dos estudantes de áreas CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) em Portugal eram mulheres, ligeiramente abaixo da média europeia e ainda distante da meta comunitária proposta de 40%.
A situação é mais extrema em campos como Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), onde apenas 18,4% dos estudantes são mulheres e a proporção de doutorandas em ICT é de 22,3%, abaixo da média europeia e das metas sugeridas.
Condições laborais e desigualdades salariais
Se na área de CTEM no ensino as percentagens eram baixas em relação aos homens, um estudo do Observatório Género, Trabalho e Poder do ISEG mostra também que, em 2023, as mulheres representavam apenas 28,4% dos profissionais, apesar de um ligeiro crescimento desde 2010, e que ainda enfrentam diferenças salariais relevantes. Nesse ano, elas ganhavam em média 16,05% menos do que os homens em profissões CTEM, um agravamento em relação a 2010.
Nos subcampos, a representação feminina em engenharia situou‑se em cerca de 24,8% e nas TIC em 22,2%, o que indica desafios para a atração e retenção de mulheres nestas áreas.
Reconhecendo as disparidades, o Governo português aprovou um Programa Nacional para Meninas em CTEM (2026‑2029), com o objetivo de aumentar a participação feminina nas carreiras científicas e tecnológicas, incluindo a meta de alcançar 30% de mulheres profissionais de ICT até 2030.
De facto, a promoção da presença feminina na ciência tem vindo a ganhar importância, não só com a aposta do Governo, mas também com iniciativas como as da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) e programas internacionais como as Medalhas de Honra L’Oréal‑UNESCO para Mulheres na Ciência. A FCT financia projetos, bolsas e cargos de coordenação, promovendo igualdade de género e capacitação de mulheres em áreas tradicionalmente dominadas por homens. Já o programa L’Oréal‑UNESCO destaca "cientistas de excelência, oferece bolsas a jovens investigadoras e aumenta a visibilidade feminina na ciência, combatendo estereótipos e inspirando novas gerações".
Algumas mulheres portuguesas que marcaram a Ciência
Ao longo dos últimos três séculos, várias mulheres portuguesas deixaram uma marca indelével na ciência e na saúde, tornando-se referência nacional e internacional. Entre elas destacam-se:
- Adelaide Cabete (1867-1935): médica e feminista que lutou pelo acesso à saúde pública e pela construção da Maternidade Alfredo da Costa em Lisboa.
- Domitila de Carvalho (1871-1966): primeira licenciada em Matemática em Portugal, professora e deputada, desempenhou papel importante na educação feminina.
- Carolina Beatriz Ângelo (1878-1911): primeira cirurgiã portuguesa e a primeira mulher a votar em Portugal.
- Matilde Bensaúde (1890-1969): bióloga e fundadora da Sociedade Portuguesa de Biologia, pioneira na fitopatologia.
- Branca Edmée Marques (1899-1986): discípula de Marie Curie e fundadora do primeiro laboratório de radioquímica em Portugal.
- Sara Benoliel (1898-1970): pediatra inovadora, promotora de métodos educativos ao ar livre e defensora da saúde infantil.
- Cesina Bermudes (1908-2001): primeira mulher doutorada em Medicina em Portugal e defensora dos direitos das mulheres.
- Laura Ayres (1922-1992): médica e especialista em saúde pública, coordenou o primeiro Inquérito Serológico Nacional.
- Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004): engenheira química e única mulher primeira-ministra de Portugal, destacou-se na ciência e política.
- Maria de Sousa (1939-2020): imunologista de renome internacional, fundadora do Mestrado em Imunologia do ICBAS e mentora de grandes cientistas portugueses.
__
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários