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Elevadores avariados, rampas de acesso que deixam de funcionar sem aviso, falta de informação acessível e dificuldades em utilizar os transportes públicos continuam a marcar o dia a dia de muitas pessoas com mobilidade reduzida em Portugal. Apesar dos investimentos realizados na renovação das frotas e na adaptação das infraestruturas, quem depende destes serviços diz que ainda enfrenta obstáculos que limitam a autonomia e obrigam a planear cada deslocação ao mínimo pormenor.

Ana Silva, de 36 anos, vive em Lisboa e desloca-se diariamente em cadeira de rodas elétrica entre a zona de Benfica e o Parque das Nações, onde trabalha. O percurso implica a utilização do autocarro e do metro, uma combinação que, diz, nem sempre corre como previsto. Ora o autocarro chega dentro do horário previsto, mas a rampa de acesso não abre ou o motorista tenta acioná-la várias vezes sem sucesso e Ana tem de esperar pelo veículo seguinte, que só chega cerca de 20 minutos depois.

"Infelizmente, isto acontece mais vezes do que deveria. Nunca sei se vou conseguir entrar no primeiro autocarro ou se vou ficar à espera do próximo", conta ao 24notícias, salientando que a imprevisibilidade dos transportes faz com que tenha de sair de casa muito antes da hora necessária.

"Se uma pessoa sem limitações demora 40 minutos a chegar ao trabalho, eu tenho de contar com pelo menos mais meia hora. Nunca posso assumir que tudo vai funcionar", diz.

As dificuldades, contudo, não terminam quando consegue embarcar. "Por vezes, na estação de metro onde saio, encontro elevadores fora de serviço. Há dias em que penso duas vezes antes de aceitar um convite ou fazer um percurso diferente. Não é falta de vontade. É porque nunca sabemos se vamos conseguir regressar a casa", salienta.

Ainda assim, Ana considera que houve melhorias nos últimos anos, sobretudo na renovação das frotas, mas acredita que a manutenção continua a ser o principal problema. "Não basta comprar veículos acessíveis. É preciso garantir que continuam acessíveis todos os dias."

"Se uma pessoa sem limitações demora 40 minutos a chegar ao trabalho, eu tenho de contar com pelo menos mais meia hora. Nunca posso assumir que tudo vai funcionar"Ana Silva

No Porto, os obstáculos repetem-se

A cerca de 300 quilómetros de distância, João Ferreira, de 44 anos, vive em Vila Nova de Gaia e utiliza regularmente o Metro do Porto, os autocarros da STCP e o comboio para se deslocar a consultas médicas e atividades físicas e associativas.

Embora reconheça que a maioria dos veículos já estejam adaptados, afirma que os maiores obstáculos surgem quando precisa de fazer transbordos entre diferentes meios de transporte.

"Nem sempre os horários estão articulados e, quando perco uma ligação, posso ficar muito tempo à espera. Para quem tem mobilidade reduzida, isso significa permanecer numa estação ou numa paragem sem condições durante bastante tempo", diz ao 24notícias, referindo também que a informação disponível nem sempre é suficiente quando existem alterações ao serviço.

"Já me aconteceu chegar a uma estação e descobrir que o elevador estava encerrado ou que uma plataforma estava em manutenção, sem qualquer aviso prévio. Só percebemos quando lá chegamos", afirma.

Outra das dificuldades prende-se com a necessidade de solicitar apoio em algumas viagens. "Há situações em que ainda dependemos da ajuda dos funcionários para embarcar ou desembarcar. Quando tudo corre bem, não há problema. Mas basta haver um atraso ou um desencontro para ficarmos à espera", diz João Ferreira.

"Nem sempre os horários estão articulados e, quando perco uma ligação, posso ficar muito tempo à espera. Para quem tem mobilidade reduzida, isso significa permanecer numa estação ou numa paragem sem condições durante bastante tempo"João Ferreira

À imagem de Ana, a falta de previsibilidade obriga-o a organizar todas as deslocações com grande antecedência. "Quando tenho uma consulta marcada, saio sempre muito mais cedo. Não porque a viagem seja longa, mas porque nunca sei se vou encontrar algum imprevisto pelo caminho", salienta, reconhecendo, ainda assim, que a acessibilidade melhorou nos últimos anos.

"Hoje existem mais equipamentos adaptados e nota-se um esforço dos operadores. O que falta é garantir que tudo funciona de forma consistente. A acessibilidade não pode depender do acaso", completa.

Associação alerta para problemas estruturais

Para a Associação Acesso para Todos, organização dedicada à inclusão de pessoas com deficiência motora, os testemunhos como os de Ana e João refletem uma realidade que continua presente em várias regiões do país.

Em declarações ao 24notícias, o presidente da associação afirma que as principais dificuldades estão relacionadas com a manutenção das infraestruturas e a "falta de consistência na acessibilidade".

"Portugal deu passos importantes na renovação das frotas e na adaptação de muitas estações, mas ainda existe uma grande diferença entre ter equipamentos acessíveis e garantir que esses equipamentos estão permanentemente operacionais", afirma Pedro Venâncio.

Segundo a associação, as reclamações recebidas dizem frequentemente respeito a elevadores avariados, plataformas de embarque indisponíveis, rampas danificadas e ausência de informação em formatos acessíveis.

"Portugal deu passos importantes na renovação das frotas e na adaptação de muitas estações, mas ainda existe uma grande diferença entre ter equipamentos acessíveis e garantir que esses equipamentos estão permanentemente operacionais"Pedro Venâncio

"Cada elevador que deixa de funcionar representa uma barreira real. Para muitas pessoas significa perder uma consulta médica, chegar atrasado ao trabalho ou simplesmente abdicar de sair de casa", diz.

A associação considera ainda que a acessibilidade deve ser encarada como um investimento transversal. "Quando um sistema é acessível para pessoas com mobilidade reduzida, acaba por beneficiar idosos, grávidas, famílias com carrinhos de bebé e qualquer passageiro com limitações temporárias", refere, defendendo um "reforço da manutenção preventiva, maior fiscalização das condições dos equipamentos e a criação de sistemas de informação em tempo real sobre avarias".

Operadores reconhecem desafios e prometem melhorias

Enquanto passageiros e associações apontam falhas que continuam a limitar a utilização dos transportes públicos por pessoas com mobilidade reduzida, os operadores defendem que têm reforçado os investimentos em acessibilidade e garantem uma monitorização permanente dos equipamentos.

A Carris, por exemplo, refere que a maioria da frota atualmente em circulação dispõe de "piso rebaixado e equipamentos destinados a facilitar o acesso de passageiros com mobilidade condicionada".

Os problemas que ainda existem também os admitem, mas de forma pontual. "As avarias nas rampas de acesso são situações excecionais, mas sempre que acontecem são comunicadas às equipas técnicas para reparação com a maior brevidade possível", refere fonte da transportadora.

A operadora acrescenta que "continua a renovar a frota e a investir na formação dos motoristas para garantir um melhor apoio aos passageiros".

No norte do país, o Metro do Porto afirma que a acessibilidade faz parte dos "princípios de funcionamento da rede".

Segundo fonte da empresa, todas as novas infraestruturas são concebidas para responder às necessidades de passageiros com mobilidade reduzida. "Existe um acompanhamento permanente do estado dos elevadores e restantes equipamentos de acessibilidade, sendo realizadas intervenções sempre que necessário.".

Também a STCP refere que continua a "renovar a frota com veículos totalmente acessíveis e assegura que a manutenção das plataformas de embarque constitui uma prioridade operacional".

Especialistas defendem visão integrada

Para especialistas em mobilidade e inclusão, os problemas sentidos por pessoas com mobilidade reduzida não podem ser analisados apenas pela existência de veículos adaptados ou estações com elevadores. A acessibilidade, defendem, depende de uma cadeia completa de fatores que começa na rua e termina no destino final do passageiro.

"Existe uma tendência para medir o investimento pelo número de equipamentos instalados, mas é igualmente importante avaliar quantos estão efetivamente disponíveis para utilização todos os dias"Marta Ribeiro

Marta Ribeiro, investigadora na área da mobilidade inclusiva e coordenadora do Centro de Estudos de Acessibilidade Urbana da Universidade de Coimbra, considera que Portugal tem registado progressos importantes, mas continua a enfrentar dificuldades na aplicação prática das medidas de inclusão.

"Durante muitos anos, a acessibilidade foi pensada como uma questão de adaptação física dos espaços. Hoje sabemos que é muito mais do que isso. Um transporte pode ter uma rampa, mas se essa rampa não funcionar, se a informação não estiver disponível ou se o percurso até à paragem não for acessível, a pessoa continua impedida de se deslocar", diz.

Segundo a especialista, um dos principais desafios está na manutenção dos equipamentos. "Existe uma tendência para medir o investimento pelo número de equipamentos instalados, mas é igualmente importante avaliar quantos estão efetivamente disponíveis para utilização todos os dias. Uma estação acessível apenas no papel não garante mobilidade", afirma, defendendo  ainda a criação de sistemas de informação em tempo real que permitam aos passageiros saber antecipadamente se existem elevadores, rampas ou plataformas fora de serviço.

"Para muitas pessoas, essa informação representa a diferença entre conseguir fazer uma viagem ou ter de desistir dela. A previsibilidade é uma parte fundamental da autonomia."

Para Ana e João, essa autonomia, ainda assim, continua longe de estar plenamente garantida. "Não queremos privilégios", resume Ana. "Queremos apenas conseguir apanhar um autocarro ou um metro com a mesma tranquilidade que qualquer outra pessoa."

João partilha o mesmo sentimento. "A verdadeira acessibilidade será alcançada quando deixarmos de precisar de pensar, todos os dias, se vamos conseguir chegar ao destino. Nesse dia, os transportes públicos serão verdadeiramente para todos."

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