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Segundo estimativas recentes incluídas no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, a população residente de milhafre-real em Portugal encontra-se classificada como criticamente em perigo de extinção, com menos de 50 casais reprodutores identificados regularmente e um número reduzido de aves invernantes.

"Os dados de contagem indicam que as populações que outrora se reproduziam no interior norte e centro do país têm vindo a diminuir de forma contínua nas últimas décadas", afirma ao 24notícias Teresa Portela, ornitóloga portuguesa que acompanha os censos de aves de rapina.

Nos últimos dois anos foram documentados vários incidentes de mortalidade de milhafres-reais associados a envenenamento, secundário ao consumo de iscos contaminados ou presas envenenadas. O caso mais recente e mediático envolveu a descoberta de cerca de 20 aves mortas em Leomil (Guarda), onde técnicos encontraram iscos suspeitos com sinais de substâncias tóxicas, que ainda estão a ser analisados em laboratório.

"O padrão identificado em várias mortes de milhafres, em que as aves exibem sinais clínicos compatíveis com intoxicação por rodenticidas e outros químicos, é preocupante e indica que o envenenamento está a ocorrer de forma mais frequente do que se pensava", revela Pedro Costa, toxicologista que trabalha com várias associações de conservação.

Mais do que um fenómeno isolado, os envenenamentos parecem estar associados a conflitos entre atividades humanas e fauna selvagem. Pedro Costa diz que em várias regiões agrícolas e pastorícias, produtores podem utilizar substâncias tóxicas de forma ilegal para controlar predadores de pequenos animais ou roedores, sem ter consciência das consequências para aves de rapina que se alimentam desses animais contaminados.

"Os milhafres-reais são predadores oportunistas que se alimentam de carcaças e de presas pequenas. Quando esses alimentos estão contaminados com rodenticidas ou pesticidas, o veneno é transmitido por cadeias alimentares, resultando em mortalidades diretas ou em intoxicações crónicas que comprometem a reprodução", explica.

Apesar de haver legislação ambiental que proíbe o uso de venenos de forma indiscriminada, a fiscalização em campo continua insuficiente. Organizações como a Liga para a Proteção da Natureza (LPN) e o Institute for Bird Population têm vindo a denunciar que muitos produtos utilizados ilegalmente não são alvo de inspeções regulares por parte das autoridades competentes, como o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

"A falta de presença sistemática de agentes ambientais nos territórios rurais e a escassez de equipas especializadas para recolha de provas tornam difícil responsabilizar os autores dos envenenamentos. Muitas vezes, as investigações ficam por concluir por falta de recursos e procedimentos claros", conclui Teresa Portela.

O que é necessário fazer?

As organizações de conservação,  têm vindo a recomendar um conjunto de ações concretas para inverter o declínio do milhafre-real. Pedro Portela revela as principais:

  1. Reforçar a fiscalização do uso de rodenticidas e pesticidas nas zonas agrícolas, com inspeções regulares e aplicação rigorosa de coimas e sanções legais;
  2. Implementar sistemas de monitorização de mortalidade, com recolha rápida de carcaças e análises toxicológicas obrigatórias sempre que se suspeite de envenenamento;
  3. Programas de educação e sensibilização junto de agricultores e proprietários rurais sobre os efeitos dos venenos na fauna selvagem e promoção de métodos alternativos de controlo de pragas;
  4. Proteção e recuperação de habitat, identificando corredores ecológicos e zonas de alimentação seguras para as aves;
  5. Apoio contínuo a projetos de conservação, como o LIFE Eurokite, que trabalha na marcação, monitorização e reintrodução de milhafres em várias regiões da Europa.

"Sem uma abordagem integrada que combine fiscalização, educação, vigilância e conservação do habitat, corremos o risco de perder esta espécie emblemática em Portugal dentro de poucas gerações", alerta.

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