Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
O livro tem conotações de diário pessoal juntamente com considerações sobre a situação mundial, focado na época em que a mudança se tornou inevitável, por causa da crise do Covid-19, em 2020-21, e também na actualidade de 2026.
A primeira pergunta que eu lhe queria fazer é a seguinte: podemos marcar uma data precisa, digamos um acontecimento localizado no tempo, que dá início ao rearranjo da ordem mundial? A nova ordem já está em funcionamento pleno ou ainda está em turbilhão, isto considerando a distopia de Orwell em que o mundo é composto por três grandes poderes, a Rússia, os Estados Unidos e a China?
Os períodos históricos são sempre difíceis de definir no momento em que os vivemos. Essa é uma tarefa para os historiadores.
Dito isto, eu acho que nós, que trabalhamos nestas áreas, devemos tentar explorar este tema para as pessoas que nos leem ou veem (nas aulas e na TV). E, do meu ponto de vista, eu acho que nós já estamos numa nova época histórica, que pode ainda não ter um nome, mas parece-me claro que já chegou. E o meu argumento é que a pandemia acelerou essa transição histórica.
E foi por isso que eu decidi registar o início deste processo da forma como fiz no livro.
Há quem considere que o século XXI começou com o ataque às Torres Gémeas. Acha que sim, que podemos dizer isso? Porque os séculos nunca começam no ano I. Por exemplo, o século XX começou em 1914, com a I Grande Guerra, e o século XIX na Revolução de 1789 , não é?
Sim, sim. É muito interessante isso que me está a perguntar sobre o 11 de Setembro. Eu até discordo, acho que o acontecimento mais importante em 2001 também ocorreu no mesmo dia, mas foi a entrada da China na Organização Mundial de Comércio (WTO).
Ou seja, as pessoas que levaram a cabo o ataque de 11 de Setembro tinham um determinado objetivo estratégico, que falhou. Quer dizer, o ataque foi muito bem-sucedido, mas aquilo que eles queriam que acontecesse, do ponto de vista estratégico, não aconteceu. Por outro lado, a entrada da China na Organização Mundial de Comércio teve imensas consequências que estamos a ver hoje. Antes era um país em construção, depois de entrar na WTO tornou-se o maior exportador global. Portanto, mais uma vez, no momento que nós vivemos os acontecimentos não é muito claro qual será mais significativo.
É difícil, e eu no livro até falo nisso. Mas, mesmo assim, defendo que nós já entrámos nessa nova época histórica, e para me repetir, acho que a pandemia acelerou esse processo de transição.
A questão do ataque às Torres Gémeas, na minha opinião, teve outra consequência, indireta, mas muito importante, que foi os Estados Unidos deixaram de se preocupar com a América Latina, que deixou de ser um perigo comunista e uma produtora de produtos agrícolas para o mercado norte-americano, e passaram a ter com primeira prioridade o Próximo Oriente e o SAEL, onde proliferaram uma espécie de grupos muçulmanos abertamente hostis à “cultura ocidental”.
A partir do 11 de Setembro, avaliaram que América do Sul de facto não ia ser comunista, aliás, o comunismo já estava morto há bastante tempo. Tirando o comunismo chinês, que é um comunismo capitalista, no mundo inteiro, hoje em dia, só há dois países comunistas, que são a Coreia do Norte e Cuba.
E essa mudança estratégica também acho que foi muito importante, porque a partir dela é que nascem os BRICS, e nascem vários agrupamentos internacionais baseados mais em comércio do que em política. Antes, os Estados Unidos naquela área do globo defendiam Israel e pouco mais. A partir da Guerra do Iraque e das várias “primaveras” falhadas, passaram a concentrar o seus interesses aí. Acha que sim? Acha que esse ponto também é interessante, também é de levar em conta?
Sim, um dos paradoxos do 2001 foi a maior concentração das atenções dos Estados Unidos no chamado Grande Médio Oriente —e veja lá que nós estamos a conversar hoje e essa tendência continua — e também prestaram mais atenção à China, porque acharam que a integração da China na economia internacional seria benéfica para os seus interesses, em termos económicos e políticos. Nós estamos, por assim dizer, na ressaca desse acontecimento.
E uma das coisas que eu tento explicar no livro é como os acontecimentos, de 2020 em diante, fortaleceram a convicção da liderança do Partido Comunista da China de que o tempo corre ao seu favor. Há um particular encontro em Pequim, no final de 2020, em que pela primeira vez é afirmada uma política que tem dominado o pensamento chinês desde essa altura, e que é a alteração da distribuição do poder no sistema internacional mais favorável à China, e que esta é a hora de Pequim se afirmar no mundo.
É interessante pensarmos na China até à Segunda Grande Guerra, era praticamente uma entidade política inexistente, ou seja, era um campo de batalha para os japoneses e norte-americanos e nada mais.
Aliás, os americanos defenderam a China durante a Segunda Guerra Mundial, e a seguir favoreceram a ditadura do Chiang Kai-shek contra as forças comunistas, mas também nacionalistas, do Mao Tsé-Tung.
Portanto, o que me preocupa particularmente é que, hoje em dia, vivemos num mundo orwelliano com três poderes autoritários. Gostaria a Rússia de ser o terceiro poder; ainda não é, mas pode bem vir a ser, se incluir a Europa – o tal império euro-asiático. Vai depender muito da forma como a guerra contra a Ucrânia terminar. Se a Ucrânia conseguir manter-se como um Estado independente e soberano, a Rússia terá perdido esta guerra. Pode ocupar 20% do território ucraniano, mas isso será uma vitória tática operacional, não será uma vitória estratégica para a Rússia.
A Rússia faz esta guerra para recuperar uma esfera de influência na Europa e para tal precisa de acabar com a Ucrânia como um Estado independente. Portanto, se esta Ucrânia sobreviver, o futuro da Rússia será bastante mais difícil, porque não conseguirá afirmar-se como um polo de poder no sistema internacional, como Vladimir Putin ambiciona. Portanto, nós talvez estejamos a caminho de uma maior bipolaridade, Estados Unidos/China, e será muito interessante ver que papel a Europa desempenhará nesta nova fase histórica.
Por exemplo, a descasca que o J. D. Vance deu à Europa na Conferência de Munique de 25, uma coisa que eu achei surreal, porque quem está a trair os seus valores são os Estados Unidos, não é a Europa. Quer dizer, ele acusou a Europa das coisas que estão a acontecer nos Estados Unidos, que é uma caminhada acelerada para uma ditadura. É uma ditadura ainda não consolidada, digamos, é a fase correspondente à Alemanha quando o Hitler ganhou as eleições e começou o processo para a ditadura. E o que se passa na Europa é que não tem nada, não tem energia, não tem exército, não tem sequer uma política comum verdadeira.
Portanto, o Putin disse num discurso, que eu vi na televisão, que o Império Euroasiático — que aliás é o nome do Orwell — vai de Vladivostok a Lisboa. Eu não acredito que isso vá acontecer, quer dizer, não acredito que seja possível acontecer, mas é a ideia.
Já somos dois.
Mas é o que ele quer, não é?
Sim, é o que ele diz, mas normalmente a distância é grande entre o que os líderes políticos dizem e a realidade dos factos.
Pois é, quer dizer, mas é grande, revela uma intenção. Assim como o Trump querer a Gronelândia, ele nunca vai ter a Gronelândia, acho eu.
Sim, mas aquilo que está a dizer sobre o discurso de J.D. Vance é muito interessante e eu, no livro, tento chamar a atenção para isso. Eu acho que ali entre 2020 e 2022, sobretudo nos Estados Unidos e nas universidades europeias, houve um determinado tipo de pensamento que se tentou afirmar. Quase uma tentativa de revolução cultural, por assim dizer. Estou a exagerar na expressão, mas a ideia de que a história estava a caminhar a favor de um determinado tipo de cultura política muito progressista e dominada por um certo tipo de discurso não aconteceu. E agora nós estamos a ver o oposto.
Estamos a ver um ano de intercionalização do que os Estados Unidos acham que é melhor para eles. Começou com o J.D. Vance em 2025 e agora, este ano, com o Marco Rubio, que vem dizer que a cultura dominante deve ser uma cultura muito mais à direita. E, portanto, eu tento no livro explicar esta transição de uma visão cultural para outra visão cultural, mas isto obviamente, como estava a chamar a atenção, cria um enorme problema político aos países europeus, porque, no fim de contas, a administração Trump está a apoiar politicamente determinado tipo de partidos políticos na Europa que não são muito favoráveis à democracia liberal. E, portanto, nós passamos de um extremo para o outro, e veremos se até ao final desta década haverá mais um equilíbrio no sentido de construir uma nova síntese política à volta de uma ideia cultural do Ocidente, que é isso que se está a perder agora.
Considerando os três poderes, a Rússia, Estados Unidos e China, é interessante que são três poderes autoritários, autocráticos, para não lhe chamar de ditaduras. Quer dizer, podemos chamar de ditaduras até no caso da Rússia, se bem que a Rússia, eu não sei bem como está organizada, tem eleições, não é?
Teoricamente. Sim, tem eleições. A Rússia está de regresso ao seu passado mais sombrio e o que tem dominado a cultura política da Rússia tem sido sempre a ideia da servidão, da servidão da população.
E, portanto, na longa história russa, o período que se seguiu ao final da Guerra Fria é um período atípico, enfim, que durou dez anos, quinze anos no máximo. O herói político russo, para nós, continua a ser Mikhail Gorbatchev, exatamente pela ideia de abertura e de libertação, mas para a maioria dos russos, Gorbatchev é um traidor, uma figura secundária da história.
E o Putin até tem permitido uma reabilitação do Stalin, não é?
Sim, mas é uma dificuldade que a Rússia tem, e a China também. A China, sobretudo depois de Xi Jinping ter quebrado a tradição do terceiro mandato. São regimes cada vez mais personalistas.
E o problema dos regimes políticos personalistas é o que acontece quando o líder político morre e não há mecanismos de sucessão política clara. E essa continua a ser a grande vantagem das democracias e vamos ver o que acontece nos Estados Unidos este ano nas eleições para o Congresso e depois em 2028, 2029, com a chegada de uma nova administração.
Eu tenho muito medo que os democratas não consigam... não têm figuras muito carismáticas, quer dizer, o Gary Newsom da Califórnia, talvez, mas não têm uma figura carismática. Porque o Trump tem um carisma extraordinário. Uma figura como ele, que tanto fisicamente como intelectualmente é desagradável, não é? Tem um carisma que as pessoas vão atrás dele, não se percebe porquê.
Nós, pelo menos, não percebemos. Sim, eu concordo absolutamente consigo que Donald Trump é provavelmente o político mais carismático dos Estados Unidos nas últimas décadas. Eu posso não concordar absolutamente nada com ele, mas o que interessa a um analista são os factos e os factos mostram isso.
Portanto, o seu regresso à Casa Branca é um enorme feito político que nós temos de ter em conta e independentemente do que vai acontecer a Donald Trump nos próximos três anos. O facto é que as forças estruturais, os problemas estruturais dos Estados Unidos que o levaram ao poder, continuarão lá. Isso é algo que nós, europeus, temos de ter em conta quando tentamos, por assim dizer, renegociar a nossa relação com os Estados Unidos.
Ele não pode concorrer às próximas, não é?
Não, não pode. A não ser que a Constituição norte-americana seja modificada, coisa que eu acho altamente improvável que venha a acontecer. É impossível. Os democratas, por muito que percam, nunca perderão o suficiente para impedir isso.
Aliás, a oposição ao Trump neste momento, pode ser que amanhã não seja diferente, vem sobretudo dos tribunais. É interessante isso. Apesar de o Supremo Tribunal ter poderes inacreditáveis, não é? Pelo menos para a nossa compreensão. O resto do corpo judicial tem uma hierarquia que não consigo perceber. Há juízes estaduais, há juízes federais... Mas eles é que têm feito o maior trabalho de contrariar, digamos assim, de atrasar a transformação dos Estados Unidos numa ditadura. Conhece um livro do Sinclair Lewis que é “It Can't Happen Here?”
Sim, conheço muito bem. E é por isso que no livro eu chamo a atenção sobretudo para Tácito, porque Tácito é o historiador romano que explica como é que a República Romana caiu e deu lugar ao Império.
Para mim continua a ser um historiador muito atual, exatamente por mostrar como é que esse processo decorreu em Roma. Portanto, eu acho que é um pensador bastante atual e eu no livro faço questão também de mostrar como é. Ou seja, eu acho que nós, que trabalhamos nesta área, devemos mostrar, na medida do possível, o que fazemos, o que lemos, um pouco o que é, por assim dizer, e é isto que eu tento fazer no livro.
Uma das coisas que eu achei mais interessantes no livro foi o seu constante paralelo com os filósofos gregos e romanos. É uma coisa que ninguém fez, é o primeiro livro em que eu vejo isso, e é uma área em que eu, que me considero uma pessoa culta, não sei quase nada. Da história de Roma eu só sei o que toda a gente aprendeu na escola, que não é nada, não é? Não lemos textos romanos na escola. Acho que ainda não.
Sim, sim. Mas eu faço isso porque acho que a grande virtude dos gregos foi terem feito as perguntas mais importantes numa comunidade política.
Esses problemas são eternos na condição humana. E os romanos a mesma coisa. Nós hoje acentuamos muito coisas como a tecnologia, mas aquilo que é mais essencial na vida política de uma sociedade foi escrito pelos gregos e pelos romanos e, portanto, se nós modificarmos os nomes, são livros surpreendentemente atuais.
Exatamente por isso, têm o grau de abstração suficiente para atravessarem todo o tempo histórico. E isso é a marca do génio das pessoas que fizeram essas obras.
Bom, o facto é que nós, como pessoas, continuamos a ser os mesmos do tempo dos gregos e dos romanos. O que mudou foi a tecnologia. Quer dizer, eu acho que o homem continua a ser uma besta, no sentido mesmo de bestial. Tecnologicamente estamos quase na inteligência artificial, não é? O que é que acha da inteligência artificial? Eu acho perigosa.
Há aí uma pequena entrada no livro, já não me lembro exatamente onde. É que, por dever de ofício, eu todos os dias gasto uma hora e meia, duas horas, a ler o que se publica no mundo sobre aquilo que me interessa.
Sim, o professor tem uma lista das suas leituras que é muito parecida com a minha, aliás.
Exatamente. E há aí uma notícia, penso que é da Bloomberg, em que eles põem uma nota a dizer que uma notícia foi escrita por um sistema de inteligência artificial. Isto é em 2020. E eu pergunto a mim mesmo, no livro, onde é que nós estaremos em 2025? Agora estamos a ver exatamente onde estamos. O que eu acho que nós não compreendemos ainda bem são as consequências políticas da introdução dessa tecnologia, mas tal como aconteceu com a introdução de outras tecnologias, esta também terá consequências políticas com as quais nós teremos de ter uma opinião equilibrada. Todas os avanços tecnológicos correspondem a avanços bélicos, militares.
Ou seja, o homem usa sempre as suas invenções mais geniais para as transformar num instrumento contra ele. Não se percebe, mas é verdade. Quando a internet apareceu, toda a gente achou que era uma maravilha, não é? E hoje em dia, a internet é um problema.
E é um problema sem solução. Nós já estamos a ver a aplicação da IA no campo de batalha na Ucrânia. E a Ucrânia é hoje o maior laboratório militar do mundo. Estamos na fronteira entre o conhecido e o desconhecido em termos de possibilidades tecnológicas na arte da condução da guerra, da violência armada. E temos visto enormes progressos nessa área.
E o que eu acho que aconteceu nos últimos quatro anos em relação à Ucrânia é que praticamente toda a doutrina NATO em termos aéreos e em termos de forças terrestres e da interação com o poder aeroespacial ficaram obsoletas e estamos a caminho de algo completamente novo. E Portugal também faz parte desse processo porque, por exemplo, o maior exercício de drones com marinhas, na Europa, é feito na costa portuguesa. Também estamos envolvidos nesse processo.
Aliás, vamos ter um navio militar que é um porta-drones. Num país como o nosso — temos uma profundidade muito grande no Atlântico e tendo em conta o custo dessas plataformas marítimas —, eu acho que faz todo o sentido usarmos drones. Eu até fiquei surpreendido, achei que pela primeira vez estávamos a ser precursores. Quer dizer, os ucranianos com certeza que, se não estão já a fazer isso, em breve serão os instrutores da Europa em termos de guerra. .
Há empresas portuguesas, obviamente, a trabalhar nessa área e a aproveitar, às vezes quase em tempo real, as lições do campo de batalha para produzirem novas tecnologias, novos drones e esse tipo de equipamentos.
Bom, eu li, não sei onde, que na primeira guerra mundial a arma fantástica foi a autometralhadora com tripé. Na segunda guerra mundial foi o tanque, nesta nova são os drones.
Sem dúvida, são baratos, podem ser produzidos em grande quantidade e podem ser melhorados em tempo real.
Voltámos à guerra de trincheiras por causa dos drones. Estamos novamente numa guerra de atrito igual à primeira guerra mundial.
Sim, mas a infantaria continua a ser necessária e sistemas com mísseis, defesa anti-mísseis e artilharia continuam a ser necessários e o que nós estamos a ver, como a guerra na Ucrânia revelou, é a quantidade astronómica de munições que é necessária para combater uma guerra desse tipo. Foi algo para o qual nem a Rússia, nem os Estados Unidos, nem os países europeus estavam preparados para o uso de uma forma tão intensa desse tipo de munições, e isso obviamente explica o processo de reajustamento ou de reconstrução de bases industriais nos países mais avançados do mundo para terem em conta exatamente isso.
Então e agora quanto ao Medio Oriente, entre Israel e o Irão, o que vê na sua bola de cristal?
O que eu acho que está a acontecer é uma coisa um pouco diferente, ou seja, entre 1979 e este ano, ou ano passado, nós tivemos de facto um sistema bipolar no chamado Grande Medio Oriente. De um lado os Estados Unidos e os seus aliados e do outro o Irão e os seus proxies. Essa bipolaridade está a acabar. Este ano o Irão é muito mais fraco mas obviamente tentará resistir, e os Estados Unidos, apesar da sua omnipresença em termos regionais, a prazo deixarão de ser o ator hegemónico na região e veremos um Grande Medio Oriente em que países como a Turquia, Arábia Saudita o Qatar, os Emirados Árabes Unidos e por aí fora, terão bastante mais espaço de manobra e haverá uma ligação cada vez maior entre o Golfo Pérsico e a Ásia do Sul.
Apesar do que está a acontecer dar a ideia de uma bipolaridade entre o Irão e os Estados Unidos, acho que já estamos em transição para algo diferente. A atual tensão de certa forma está a camuflar as forças estruturais que já estão em funcionamento. Se eu escrever um segundo volume talvez esse processo fique mais claro e a gente conversa daqui a uns anos sobre este mesmo assunto.
É interessante, nós estamos a falar de coisas seriíssimas e temos no meio as ideias esdrúxulas do Trump, que quer fazer uma Riviera Francesa em Gaza e aquele Conselho da Paz que é preciso pagar para entrar, não é?
O Trump é fantástico porque ele pensa realmente como um homem de negócios. Aliás, mau, mas é um homem de negócios, ou seja, tudo tem a função de ganhar e perder em dinheiro. É o caso da invasão da Venezuela, o rapto do Maduro. Até escrevi uma coluna sobre isso porque neste momento a Venezuela não tem regime, ou seja, tem o regime de chavista bolivariano mas na realidade não tem um presidente bolivariano. Quem é que manda da Venezuela? É Trump!
O Conselho da Paz que o Donald Trump tem em mente é uma tentativa do presidente norte-americano de demolir a ordem internacional que ainda existe e fazer uma estrutura paralela às Nações Unidas liderada por ele. Duvido que isto tenha grande futuro mas o que é significativo é que ele o está a fazer. Ou seja, ele não é um presidente da criação de algo de novo, é mais um presidente da distribuição do que resta da ordem internacional. O papel do construtor de uma nova ordem nos Estados Unidos está por revelar, será um outro presidente, não sabemos exatamente quem.
No fim de contas o que nós temos é Vladimir Putin a fazer a mesma coisa que o Xi Jinping, e é por isso que eu chamo o livro “A Grande Ruptura”. No capítulo final falo na hora dos novos conquistadores. O papel dos países europeus será sobretudo tentar manter o que resta desta ordem e tentar criar algo de novo entre o final desta década e o início da próxima. Penso que será esse o nosso papel e é por isso que o resultado final da guerra na Ucrânia é tão importante.
Mas a Europa como uma unidade nunca existiu. Repare que a Europa conquistou o mundo não em conjunto, foi uma disputa entre os países europeus, uns contra os outros. Ou seja, foi uma competição, não foi uma união. Hoje em dia a Europa continua dividida porque a Itália tem um governo de direita e há países europeus, a França por exemplo, que vão ter um presidente de direita. No Reino Unido, os trabalhistas estão a conseguir ser piores do que os conservadores e o Nigel Farage vai ter muitos parlamentares na próxima eleição.
Eu falo de um dos livros do Walter Scheidel, que é professor em Stanford, e o pensamento dele, que outros historiadores europeus reiteraram, é que a divisão dentro da Europa foi uma fonte de inovação e poder. Quer dizer, se tivesse havido um poder hegemónico na Europa não teria sido tão criativa do ponto de vista político. Portanto é natural que essa divisão continue e também é perfeitamente possível que alguém do Rassemblement National venha a ganhar as eleições, o que provocará grandes diferenças entre os países europeus. Ou seja, quando pensamos em termos de futuro, que foi o que sempre me interessou, pode ser uma situação de desintegração europeia, ou pode ser de mais integração. E o que me fascina é tentar perceber para onde nós vamos, e talvez tenha sido por isso que este livro tem tantas situações de detalhe diário – são as perguntas que faço a mim mesmo. Nestes momentos de perplexidade que nós sentimos, talvez seja útil para quem me lê perceber como é que eu faço isto.
Não acha estranho que os ingleses não queiram pôr em questão o Brexit? Eles reconhecem que foi um mau passo, mas este governo nem quer falar no assunto.
O Brexit foi um enorme erro estratégico, mas a relação dos ingleses com a União Europeia foi sempre difícil e os pró-Brexit viam o futuro do Reino Unido numa aliança com os Estados Unidos e com a criação de uma espécie de Singapura na Europa. Agora estamos a ver que a ideia não funciona porque os Estados Unidos agora são menos confiáveis, e porque a realidade geográfica não muda – o maior mercado que a Inglaterra tem são os países da UE. Uma das supremas ironias do Brexit é que a primeira-ministra que realmente levou o processo até ao fim, a Theresa May, estudou geografia em Oxford. Se há pessoa que percebesse a importância estratégica da geografia teria sido ela, mas as circunstâncias políticas foram outras. Portanto, o que eu acho que isso quer dizer é que qualquer futuro governo inglês será tentado a aproximar-se da Europa – a não ser que o Nigel Farage venha a ter uma enorme votação. Atualmente existe uma maior aproximação militar e tecnológica.
Neste momento de transição, há sempre oportunidade política para novos atores surgirem em cena. Se voltarmos a Tácito, ou mesmo Tucídides, está lá tudo explicado.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários