Médicos Sem Fronteiras e OMS preocupados com transmissão rápida do surto de ébola

A propagação do Ébola na República Democrática do Congo (RDC) está a gerar crescente preocupação entre as autoridades de saúde internacionais. Duas semanas após a Organização Mundial da Saúde (OMS) ter declarado oficialmente o surto, a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou que a situação é "profundamente alarmante".
Médicos Sem Fronteiras e OMS preocupados com transmissão rápida do surto de ébola

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Segundo a MSF, referiu à BBC, nunca tinha sido registado um número tão elevado de casos tão pouco tempo depois da declaração de um surto. Atualmente, existem mais de 1.000 casos suspeitos e pelo menos 246 mortes na RDC, enquanto o Uganda já confirmou nove casos e uma vítima mortal.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, deslocou-se à província de Ituri, no leste da RDC, onde se concentra a maioria dos casos, para acompanhar os esforços de contenção da doença. Durante a visita, apelou a uma maior participação das comunidades locais na resposta ao surto e alertou para os riscos associados a algumas práticas funerárias tradicionais, nomeadamente o contacto físico com os corpos das vítimas, uma das formas mais eficazes de transmissão do vírus.

Este surto distingue-se de anteriores porque é causado pela variante Bundibugyo do vírus Ébola, uma estirpe rara que não era detetada há mais de dez anos. Ao contrário de outras variantes, não existe atualmente uma vacina aprovada nem tratamentos específicos comprovados para esta forma da doença, embora estejam a ser testadas soluções experimentais. Além disso, os primeiros testes laboratoriais realizados na região procuravam variantes mais comuns do vírus, o que poderá ter contribuído para atrasos na identificação do surto.

O Ébola é uma doença viral grave que normalmente tem origem em animais, sobretudo morcegos frugívoros, podendo passar para os seres humanos através do contacto com animais infetados ou do consumo da sua carne. Após a infeção, os sintomas podem demorar entre dois e 21 dias a surgir e incluem febre, dores de cabeça, fadiga e dores musculares. À medida que a doença evolui, podem surgir vómitos, diarreia, falência de órgãos e, em alguns casos, hemorragias internas e externas. A transmissão entre pessoas ocorre através do contacto direto com fluidos corporais de indivíduos infetados, como sangue, saliva, suor, urina ou vómito, bem como através de objetos contaminados.

As autoridades congolesas acreditam que o atual surto começou a espalhar-se após a morte de uma enfermeira que desenvolveu sintomas no final de abril. O seu corpo foi transportado para a localidade de Mongwalu para a realização do funeral, onde muitas pessoas terão estado em contacto com o cadáver. Segundo o ministro da Saúde da RDC, este evento contribuiu significativamente para a rápida disseminação do vírus. Em algumas comunidades, a doença foi inicialmente associada a feitiçaria ou causas sobrenaturais, levando algumas pessoas a procurar curandeiros ou centros religiosos em vez de assistência médica, o que atrasou a deteção de casos.

A resposta ao surto está também a ser dificultada pelo contexto de conflito armado que afeta o leste da RDC. Organizações humanitárias relatam que a insegurança, as deslocações populacionais, as más condições das estradas e as frequentes mudanças de controlo territorial entre grupos armados dificultam o acesso das equipas médicas às zonas mais afetadas. Apesar disso, tanto o governo congolês como o grupo rebelde AFC-M23 afirmam estar a implementar medidas de vigilância epidemiológica e rastreamento de contactos.

Para tentar conter a epidemia, as autoridades, com o apoio da OMS, da MSF e do Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças, aumentaram a capacidade de testagem, criaram centros de tratamento, reforçaram as campanhas de sensibilização e identificaram cerca de 3.600 pessoas que tiveram contacto com infetados e que estão agora sob vigilância. Uma melhoria importante foi a instalação de um laboratório em Bunia capaz de analisar amostras localmente e fornecer resultados em menos de 24 horas. Até recentemente, as amostras tinham de ser enviadas para Kinshasa, a mais de 1.500 quilómetros de distância, o que provocava atrasos significativos.

Embora a OMS tenha declarado o surto uma emergência de saúde pública de interesse internacional, os especialistas sublinham que o risco de uma pandemia global semelhante à da Covid-19 continua a ser muito reduzido. Ainda assim, vários países da região reforçaram as medidas de controlo fronteiriço. O Ruanda encerrou a fronteira com a RDC, o Uganda suspendeu temporariamente vários transportes transfronteiriços e outros países africanos aumentaram os rastreios de viajantes e a preparação dos seus sistemas de saúde. Existe também um caso suspeito sob investigação no Brasil, envolvendo um homem que regressou recentemente da RDC.

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