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Diz que a maior parte dos meses trabalha "para aquecer". Está a ganhar um terço do que ganhava enquanto médico e paga tudo do seu bolso: alojamento e viagens semanais de 600 € de ida e volta para a ilha Terceira, onde tem residência. Não se arrepende da decisão que tomou, mas lembra que o país não é só Lisboa.
Luís Mendes Cabral chegou à presidência do Instituto Nacional de Emergência Médica há seis meses e garante que não vai embora sem cumprir a missão a que se propôs: refundar o INEM, "doa-me a mim o que doer". O processo está a ser duro, mas o responsável está habituado a abanões.
As polémicas em que o INEM se tem visto envolvido nos últimos anos são muitas, tantas que está a decorrer uma Comissão Parlamentar de Inquérito para perceber o que está errado na instituição e como se podem prevenir falhas graves que, no limite, podem resultar na morte de utentes.
Num instituto público "obsoleto" e com "falhas", em que o investimento foi durante anos relegado para último lugar, é agora necessário operar sistemas de gestão mais modernos, contratar mais pessoas, adquirir mais ambulâncias e mudar para uma sede mais espaçosa.
Isto tudo com um orçamento de 220 milhões, que não é financiado pelo Orçamento do Estado, mas por uma percentagem que todos pagam na fatura dos seus seguros. E que "vai ter de aumentar". Só a conta da Liga dos Bombeiros Portugueses, que fazem 90% do socorro, vai subir mais de 23%.
As mudanças já começaram, mas ainda há muitas novidades para anunciar, algumas desvendadas nesta entrevista em que Luís Mendes Cabral esclarece o funcionamento do INEM e aponta os constrangimentos que ainda persistem. Começámos por um tema que está a causar comoção entre os trabalhadores.
O INEM vai mudar de Lisboa para o Taguspark, em Oeiras. Porquê e em que fase está o processo?
Estamos a ver se conseguimos encontrar uma solução para aquilo que é um edifício que já está obsoleto há muitos anos e que já não tem espaço para todos os trabalhadores de que precisamos.
Quantos trabalhadores estão na sede?
Cerca de 140 pessoas. Funciona 24 horas por dia, porque também temos ali o CODU [Centro de Orientação de Doentes Urgentes] a funcionar. Estou a contabilizar os diversos turnos, e já não há área para todos os trabalhadores disponíveis fazerem atendimento.
Têm sido estudadas várias alternativas, uma delas o Taguspark. Pedimos apoio à Comissão de Trabalhadores para perceber o impacto que isso teria para os trabalhadores.
O que pensam os trabalhadores da mudança de Lisboa para Oeiras?
É engraçado, alguns acharam que ficavam muito mais perto de casa, outros acharam que ficavam muito mais longe, principalmente porque parece que os transportes públicos para aquela zona não são uma coisa espetacular.
São processos complicados, dificilmente vamos encontrar um edifício num sítio que agrade a todos.
Talvez se Isaltino resolvesse a questão do SATUO - Sistema Automático de Transporte Urbano de Oeiras, que vai de Paço de Arcos a Sintra e passa no Taguspark, uma promessa de há anos.
Penso que existe um projeto interessante de recuperação dessa infraestrutura, acho que comparticipado pelo governo. Ou seja, eventualmente, a mobilidade futura ficaria salvaguardada.
Já tive uma conversa interessante sobre este assunto com Vera Arreigoso, jornalista do "Expresso"; eles também trabalhavam no centro de Lisboa e, a certa altura, tiveram de ir para Oeiras [Paço de Arcos]. Na altura, foi uma revolução enorme, um escândalo, mas hoje estão muito mais convencidos e satisfeitos, exatamente por causa do estacionamento, da capacidade do edifício, da mobilidade.
Mas somos pessoas de hábitos, temos rotinas, e pensar que de um momento para o outro pode ser tudo diferente assusta as pessoas. Estamos, por isso, numa fase de auscultação; fizemos esse pedido à Comissão de Trabalhadores, que conseguiu incendiar mais do que ouvir ou pôr os trabalhadores também na perspetiva de termos de encontrar alternativas. Não é fácil, um edifício novo não aparece de um dia para o outro.
"[Sobre a mudança da sede] Estamos a falar de 19 quilómetros; do ponto de vista legal, podíamos tomar a decisão de mudar amanhã, porque é uma distância inferior a 30 km"
A mudança tem um custo para o INEM?
Sim. Neste momento estamos a fazer a avaliação dos nossos prédios na cidade de Lisboa — Almirante Barroso, onde é a sede; Infante D. Pedro, ao pé do Hotel Roma; e Quinta do Lumiar, principalmente logística — para perceber como é que podemos financiar a mudança.
Não gostaríamos de ter de vender, achamos que não devemos fazê-lo; vamos provavelmente alugar. Mas temos de perceber também como proceder à aquisição ou ao aluguer do espaço que está disponível no Taguspark.
Ficou sempre em aberto — e essa foi uma das questões que me deixou um pouco "magoado" com a Comissão de Trabalhadores — a hipótese de deixarmos o prédio que temos na Infante D. Pedro como uma espécie de cowork, um espaço disponível para os trabalhadores que não conseguem esta mobilidade para uma zona fora do centro de Lisboa. Dissemos isto à Comissão de Trabalhadores, mas os trabalhadores nem sequer souberam que tinham essa hipótese e as deliberações foram tomadas sem esta informação, portanto, de uma forma parcial.
Porque é que não comunicam apenas a mudança, ponto final?
Estas mudanças têm de ser trabalhadas, têm de ser debatidas, têm de ser explicadas. Não gostaríamos de ter uma posição de força, porque há trabalhadores que estão connosco há muitos anos, praticamente desde que o INEM existe, e isso é know-how acumulado.
A alternativa do espaço em Lisboa teria de ser transitória — um período de quatro, cinco ou seis anos — para as pessoas poderem organizar a sua vida e, depois, juntarem-se às restantes. Estamos a falar de 19 quilómetros; do ponto de vista legal, podíamos tomar a decisão de mudar amanhã, porque é uma distância inferior a 30 km. Mas achamos que não o devemos fazer, exatamente porque queremos manter os trabalhadores.
Os trabalhadores do INEM passaram, durante os últimos anos, por uma fase de revolta e de manifestação de algum desagrado em relação à instituição, porque não foram ouvidos em muitos processos em que o INEM esteve envolvido e foram postos de parte em relação a algumas decisões. Achamos que devemos envolver as pessoas.
Já tem tanta gente a pedir a sua demissão, para quê dar mais um argumento, é isso?
Nem é tanto por aí, porque quando se vem para uma missão destas, de refundar uma instituição, sabe-se logo à partida que se vai ter de tomar decisões. E decidir não é consenso; se fosse, seria fácil. Decidir é escolher e há sempre pessoas que vão ficar muito satisfeitas e outras que vão ficar contra.
Vai ser capaz de tomar essas decisões?
Sim, claramente. Estou neste processo para tomar decisões. É muito mais fácil não decidir, como dizia João Soares na capa do semanário "SOL". É muito mais confortável para toda a gente, não há responsabilização, não implica contestação, não implica mudança. Mas não é disso que o país precisa; neste momento, precisamos de decisões, precisamos de evoluir.
Todas estas decisões têm de ser tomadas no INEM porque, é verdade — e isso tem de ser assumido, acho que se tem visto a nível da CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] —, durante muitos anos não se decidiu. E isso que fez com que chegássemos a uma situação, do ponto de vista operacional, com várias falhas. Nesta altura, já todos percebemos que ou há decisões ou a rampa vai continuar a descer.
Outro dia, um deputado perguntou se já tínhamos passado para a fase ascendente, se já tínhamos deixado a fase de degradação dos serviços. Isso só é possível se tomarmos decisões muito concretas em relação àquilo que foram os dogmas do passado.
As nossas decisões, e tenho dito isto muitas vezes no INEM, têm de estar focadas principalmente naquilo que é a nossa prestação de serviço ao utente. Não devemos ser auto-referenciais, não devemos olhar para o INEM de acordo com aquilo que são as necessidades dos trabalhadores ou com aquilo que é a vontade do instituto. Estamos aqui para servir pessoas. O que é que as pessoas que servimos gostariam que fizéssemos nesta altura? É com base nisso que as decisões têm de ser tomadas.
"É muito mais fácil não decidir. É muito mais confortável para toda a gente, não há responsabilização, não implica contestação, não implica mudança. Mas não é disso que o país precisa"
O que poderia levá-lo a demitir-se?
Eu vim com uma missão muito clara, que é refundar o INEM. E tenho de cumprir esta missão, não saio daqui sem isso feito.
Doa a quem doer?
Neste momento, doa-me a mim o que doer. Esta missão é para ser cumprida. Obviamente, estou sempre à disposição da senhora ministra ou do senhor primeiro-ministro, se acharem que já não estou a cumprir fielmente a missão. Agora, esta refundação do INEM tem de acontecer, porque não podemos falhar aos portugueses como, infelizmente, temos vindo a falhar.
"Não podemos falhar aos portugueses como, infelizmente, temos vindo a falhar"
Quando aceitou o cargo, com quem falou, no governo?
Tive uma conversa com a ministra da Saúde.
Que lhe disse o que queria, a quem disse o que queria? Como foi o entendimento?
O concurso da CRESAP [Comissão de Recrutamento e Seleção para a Administração Pública], correndo exatamente como correu comigo, é um instrumento bastante positivo e transparente para aquilo que é a seleção para estes cargos — evita que haja dúvidas relativamente às competências das pessoas que estão a ser nomeadas, ou que não haja oportunidade para quem, de forma espontânea, quer colaborar.
Foi o que aconteceu comigo. Achei, a certa altura, vendo aquilo que estava a acontecer ao INEM e sabendo aquilo que era possível fazer no INEM, que podia candidatar-me ao cargo. Candidatei-me ao concurso e passei por um processo de escrutínio da CRESAP.
Não era um concurso com fotografia, como se costuma dizer?
Não, acho que foi um processo justo. Não me foi pedido para concorrer, a ministra não sabia que eu ia concorrer. É um concurso aberto.
Mas há um pressuposto para poder concorrer à presidência do INEM que acho que tem de ser resolvido, é que o presidente da instituição tem de ser médico. Isso limita, obviamente, as candidaturas.
Depois, é pedida uma proposta; no fundo, um plano de ação para os próximos anos, uma carta de missão. Aquilo que lá pus, fazendo a leitura de todo o enquadramento político que havia na altura — um governo que se apresentou como reformista, um contexto em que o INEM precisava de ser refundado, e isso foi dito claramente pela ministra e havia essa perceção pelos portugueses —, foi uma carta de missão que ia no sentido dessa mudança.
Foi esse processo que me terá levado aos três finalistas e foi isso que expliquei também, de uma forma muito clara, quando fiz a minha entrevista no âmbito da CRESAP com a senhora ministra: explicar-lhe ao que vinha, para esta missão de refundação do instituto.
"Não faz parte da formação de base de um médico gerir um Instituto Público que gere um orçamento de 220 milhões"
A visão era a mesma ou houve pontos em que discordaram?
Penso que há duas coisas importantes. Da parte do ministério, houve uma visão muito clara de que era preciso mudar, ou seja, era preciso encontrar, com uma base técnica muito sólida, o caminho para o futuro do INEM — e, em relação a isso, acho que não houve discordância nenhuma. Em relação àquilo que eram as minhas propostas, também não houve qualquer discordância nem houve, também quero deixar claro, a exigência de qualquer das partes sobre a forma como essa mudança tinha de ser feita.
Foi assumido que a liderança do INEM é uma liderança técnica, de desempenho técnico em relação àquilo que é a necessidade de liderança do próprio instituto.
Não concorda que o presidente do INEM tenha de ser um médico. Porquê?
Porque não faz parte da formação de base de um médico gerir um Instituto Público que gere um orçamento de 220 milhões. Devíamos ter um conselho de administração muito parecido com aquilo que são as ULS [Unidade de Saúde Local], em que há um presidente com uma vertente muito mais de gestor do que de médico e, depois, há os lugares da área financeira, da área jurídica, da área de recursos humanos e, também, um diretor clínico e um enfermeiro diretor para assessorar o conselho de administração naquilo que são as decisões clínicas, porque é importante olharmos para o INEM como uma unidade de prestação de cuidados de saúde
Essa mudança vai ser feita?
A proposta que, enquanto conselho diretivo, fizemos ao ministério sobre esta questão, vai nesse sentido. Temos de alterar da orgânica do instituto e uma coisa tem de ficar clara: o instituto não pode ter um conselho diretivo só com dois elementos.
Neste momento, somos dois; as decisões têm de ser tomadas entre os dois — e o presidente tem voto de qualidade, o que não faz sentido. Se um vai de férias, não pode ficar o outro sozinho a tomar medidas.
É como pôr o ladrão como fiel depositário dos bens roubados?
Claro que as decisões são, obviamente, partilhadas com o vogal, mas, se não houvesse esse cuidado... Temos de ter em conta o normal funcionamento dos órgãos públicos; para ser um órgão colegial, temos de fazer conselhos diretivos mais alargados, com, pelo menos, quatro pessoas no conselho de administração, apoiadas naquilo que são os pressupostos financeiros, jurídicos e salvaguardando os cuidados de saúde aos utentes.
"Talvez tenha havido a perceção de que, se venho de um sistema onde não há técnicos de emergência pré-hospital, vinha para acabar com os técnicos de emergência pré-hospitalar no continente"
Por que razão há quem peça a sua demissão?
Eu ainda não tinha chegado e já estavam a pedir a minha demissão — o presidente de um sindicato tornou público que fez pressão junto do primeiro-ministro para que eu não fosse nomeado mal se falou no meu nome.
Conhecia-o?
Não, nunca tínhamos tido qualquer tipo de conversa, nunca tínhamos tido qualquer tipo de relacionamento. Penso que isto tem a ver, principalmente, com ideias pré-concebidas relativamente àquilo que foram as minhas opções no passado e aquilo que foram as minhas decisões dentro desta área da emergência médica pré-hospitalar.
Venho do sistema de emergência médica dos Açores, que não tem técnicos de emergência médica pré-hospital, funciona principalmente com enfermeiros e com bombeiros, à semelhança, por exemplo, do que acontece na Região Autónoma da Madeira; o modelo é o mesmo.
Talvez tenha havido a perceção de que, se venho de um sistema onde não há técnicos de emergência pré-hospital, vinha para acabar com os técnicos de emergência pré-hospitalar no continente.
"À entrada na carreira, os técnicos de emergência pré-hospitalar ganham 1.300 €. Os enfermeiros, cerca de 1.400 €; uma diferença de 100 € para uma formação distinta: seis meses para quatro anos"
O que é um técnico de emergência pré-hospitalar?
Colocando a coisa de uma forma muito clara: são, neste momento, dois terços da força de trabalho do INEM e 90% da resposta do sistema de emergência médica pré-hospitalar.
Das chamadas que atendemos — e sabemos isso por via das prioridades que atribuímos —, em 90% dos casos não é preciso uma resposta diferenciada a nível de médicos ou de enfermeiros, ou seja, uma ambulância, com a diferenciação de formação que têm os técnicos de emergência pré-hospitalar, é suficiente para avaliar a situação e transportar o doente até à unidade de saúde.
Não são médicos nem são enfermeiros. Que formação têm?
Esta é uma questão interessante e que tem sido muito debatida no INEM nos últimos tempos, que é a comparação desta carreira, inclusive a nível internacional.
Há países onde existem técnicos dedicados a esta função que têm licenciatura, enquanto noutros têm formação pós-secundária não superior e, noutros ainda, têm uma mistura das duas situações. Há uma disparidade enorme de horas de formação, quer a nível da Europa, quer a nível de países terceiros.
Uma das realidades com que é fácil compararmo-nos é Espanha. Espanha desenhou uma carreira e tem, tal como nós temos em Portugal os técnicos de emergência pré-hospitalar, os técnicos de emergência sanitária, ou seja, um técnico que se dedica às emergências na área da saúde.
Os técnicos têm as mesmas funções lá e cá, mas em Espanha o curso é dado em politécnicos. Embora não seja um curso superior, dá um grau de diferenciação académica pós-secundário, mas pré-licenciatura, e que são 2.000 horas de formação. São eles que tripulam as ambulâncias, mas não podem fazer nada de forma autónoma — estamos a falar de gestos tão simples como medir a glicemia ou pôr uma máscara de oxigénio no doente sem que um médico valide essa situação.
E em Portugal, o que é preciso para ser técnico de emergência pré-hospitalar e que atos podem realizar?
Em Portugal, os técnicos de emergência pré-hospitalar têm uma formação exclusiva dada pelo INEM de 910 horas (o decreto-lei diz seis meses de formação) e estão autorizados a fazer um conjunto de gestos autonomamente — por exemplo, na questão da glicemia ou do oxigénio nem sequer tem de haver validação médica.
Só pedimos a validação em situações específicas, nomeadamente na administração de medicação, porque, achamos nós e acha a classe médica, que os medicamentos só devem ser administrados depois de um médico validar a situação.
E os técnicos querem fazer mais, é isso? É aqui que está a divergência?
É neste âmbito que estamos a ter a discussão. Penso que há aqui uma confusão grande que tem de ser esclarecida logo à partida, que é aquilo que é a carreira, as horas de formação, a profissão de técnico de emergência pré-hospitalar.
Pessoalmente, como presidente do INEM, não me oponho a que os sindicatos possam negociar com o governo sobre essa matéria. Outra coisa completamente diferente é a atuação dos técnicos, que tem de ser feita de acordo com protocolos decididos pelos médicos do INEM — que, no fim da linha, são quem está sentado no CODU e, ao receber a chamada e ouvir a explicação do técnico, vai dizer se este pode ou não administrar um medicamento.
Em Espanha, apesar das 2.000 horas de formação, os sistemas de emergência médica não autorizam que seja dada qualquer medicação nem autorizam quaisquer gestos invasivos sem a validação de um médico.
"A Liga dos Bombeiros Portugueses está a exigir uma aatualização daquilo que é o valor fixo e dos variáveis, até por causa do aumento do preço dos combustíveis"
Desde que chegou ao INEM, que mudanças foram feitas em termos de formação?
Em termos de formação, a única coisa que alterámos logo de início foram os protocolos de atuação. Até sou favorável a que haja uma profissionalização dos técnicos de emergência pré-hospitalar, porque são a nossa base de socorro; quanto mais horas de formação, quanto mais conhecimento tiverem, melhor apoio vão prestar à população. Mas não foi nisso que mexemos, foi nos protocolos.
Por exemplo, os técnicos de ambulância de socorro, que são os bombeiros voluntários, têm 200 horas de formação e o INEM dá-lhes 60 horas de formação para poderem aplicar os protocolos de suporte básico de vida. Mas o número de horas, para nós, não é um assunto. Só na perspetiva de melhorar a carreira, eventualmente incluí-la no ensino politécnico. Achamos que este caminho pode ser feito.
Para ter uma noção, estamos há dez anos numa luta entre técnicos de emergência médica pré-hospitalar, enfermeiros e médicos relativamente a esta questão dos protocolos, do que pode ou não pode ser feito, daquilo que são competências médicas ou competências de enfermagem que podem ser exercidas pelos técnicos. Do ponto de vista legal, em Portugal, até ao momento, há atos que são exclusivos dos enfermeiros ou exclusivos dos médicos.
Temos muitos técnicos que, a certa altura, acham que têm de fazer uma evolução do ponto de vista da atuação e, então, vão fazer o curso de Enfermagem para passarem a atuar a nível do suporte imediato de vida. Outros, conheço pelo menos dois, estão a fazer o curso de Medicina para poderem atuar ao nível do suporte avançado de vida, que implica uma licenciatura em Medicina. Mas tem de haver a percepção de que existem níveis, formações associadas a cada nível, que têm que ser cumpridas.
Por outro lado, também existem técnicos que estão muito satisfeitos com aquilo que é o seu grau de capacitação e funções: ir a casa da pessoa, ou ao acidente de viação, fazer a sua avaliação, pegar no doente, fazer as imobilizações, administrar o que tiver de administrar e transportá-la para o hospital.
Quanto ganha um técnico de emergência pré-hospitalar, um enfermeiro e um médico à entrada de carreira?
Os técnicos de emergência pré-hospitalar conseguiram um aumento bastante significativo; o valor de entrada na carreira anda à volta dos 1.300 €. Os enfermeiros estão muito pouco acima, cerca de 1.400 €, ou seja, estamos a falar de 100 € de diferença remuneratória para uma distinção que, do ponto de vista curricular, é muito grande: seis meses de formação para quatro anos, que é o tempo da licenciatura. Mas temos TEPH a ganhar 1.700 € no INEM.
Os médicos ganham cerca de 2.760 €, se não estou em erro, ou pouco mais do que isso — valor base de entrada na carreira.
"Perto de 90% do nosso socorro já é feito pelos bombeiros, com quem temos parcerias e protocolos de atuação"
O INEM está ou não a cumprir os tempos médios de resposta recomendados? Quais são esses tempos e onde estão os maiores atrasos?
Até Janeiro deste ano, fazíamos a medição da resposta dos nossos tempos de socorro de uma forma estranha e arbitrária, decidida internamente pelo INEM a certa altura, que era de 15 minutos nos meios urbanos e de 30 minutos nos meios rurais.
Essa métrica não diferenciava as prioridades mais elevadas das menos elevadas. Sabemos, é assim a nível mundial — os sistemas de triagem são normalmente muito claros em relação a isso — que temos situações muito urgentes, situações urgentes, situações pouco urgentes e situações não urgentes. Quando recebemos as chamadas no INEM, temos também essa triagem.
O que é que diferencia um enfarte do miocárdio num cidadão que vive na cidade ou no meio rural? Nada, é exatamente igual. Por isso, achámos que essa métrica não fazia qualquer sentido e decidimos assumir as métricas usadas a nível internacional.
Sabemos, por exemplo, que nas prioridades mais urgentes (P1), temos cerca de oito minutos para chegar ao local — isto tem a ver com a capacidade de resposta no suporte avançado de vida. Estamos a falar de paragens de cardio-respiratórias; se não for feito nada nos primeiros oito minutos, pode haver lesões irreversíveis a nível cerebral ou que não permitam a sobrevida daquela vítima.
Sabemos que nas prioridades subsequentes, por exemplo as P2, imediatamente abaixo, temos até 18 minutos para chegar ao local. Nas P3, onde estavam englobadas todas as situações no modelo antigo, temos até 60 minutos para chegar ao local. E nas P4 temos até 120 minutos, duas horas. A partir daí, para nós é claro que não é preciso uma ambulância; a pessoa pode encontrar uma alternativa para ir até à unidade de saúde. Isso é dito ao utente e transferimos a chamada para a Saúde 24, que gere a situação.
E como está a correr a mudança?
Temos feito uma avaliação dos meios, mas temos um problema — vêm uns atrás dos outros. Por não ter sido feito um investimento muito significativo em termos de equipamentos, de tecnologia e de viaturas nos últimos anos, temos várias áreas em que estávamos obsoletos; não estávamos a funcionar de acordo com aquilo que seriam as boas práticas em 2026.
Por exemplo, os computadores estavam no limite até da capacidade de atualização do sistema operativo, não passavam dali e isso estava a criar constrangimentos do ponto de vista operacional.
As pessoas ficam muito espantadas quando digo isto, mas não temos capacidade de geolocalização das nossas viaturas. Consigo perguntar, através de rádio portátil, "onde está a viatura", mas isso não me traz informação fundamental do ponto de vista operacional, que é perceber se está a chegar a casa do utente, se não está a chegar a casa do utente, que circuito fez até lá, se já aceitou o serviço ou quanto tempo vai levar até ao destino final. E é nesse campo que precisamos de avançar e estamos a fazer os investimentos necessários.
Pode dar exemplos?
Sou presidente do INEM há seis meses; foram tomadas várias decisões, mas, depois, esbarramos naquilo que são os pressupostos da contratação pública, que têm de ser cumpridos para não haver dúvidas sobre essa matéria — e o INEM, sobre isso, tem sido muito escrutinado.
Estamos a finalizar os procedimentos de aquisição dos tais equipamentos que nos vão permitir saber concretamente, ambulância a ambulância, viatura a viatura, quais são os nossos tempos de resposta e se estamos a cumprir ou não. Sabemos, por via de alguns dados que são introduzidos em algumas viaturas, que temos um tempo de resposta mediano à volta dos 12 minutos.
Os concursos para o software também estão feitos, já foram notificados os fornecedores das soluções, espero que no espaço de um mês tenhamos os primeiros dados.
Em relação à gestão de chamadas, vamos fazer uma atualização do sistema informático dos CODU, que está pendente desde 2021. Devia ter acontecido há mais de cinco anos e vai finalmente acontecer esta semana; é a última indicação que tenho em cima da mesa. A situação já estava decidida, não tive de fazer nada a não ser empurrar a coisa — todas as semanas tenho vindo a fazer pressão para que isso aconteça.
"Estamos há dez anos numa luta entre técnicos de emergência médica pré-hospitalar, enfermeiros e médicos"
Quantas ambulâncias tem o INEM? Vi no Portal Base um anúncio para aquisição de 282 veículos, com data de Fevereiro, num valor perto de 17 milhões.
Esse concurso tem vários lotes. O primeiro são algumas viaturas e o segundo é o lote grande, com Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação (VMER) e ambulâncias, adjudicado à SIVA, à Auto Maran e Onda. É a renovação da frota do INEM, de todas as viaturas médicas; estamos apenas à espera do Tribunal de Contas.
Das cerca de 470 ambulâncias que temos em circulação diariamente, só 30 são do INEM; as outras são dos bombeiros voluntários.
Quem vai, afinal, gerir essa frota, o INEM ou os bombeiros?
Perto de 90% do nosso socorro já é feito pelos bombeiros, com quem temos parcerias e protocolos de atuação. Na prática, temos apenas 30 ambulâncias do INEM a funcionar diariamente, das amarelas, com TEPH na rua. Essas ambulâncias — porque ainda temos a Cruz Vermelha Portuguesa —, nem sequer cobrem 10% daquilo que é a atividade regular do INEM. E estamos a falar principalmente dos grandes centros, não estamos a falar do interior do país.
Eu vou manter uma frota própria porque, mais uma vez, temos de ter a capacidade e a elasticidade de resposta às situações de pico. Para ter uma ideia, recebemos, em 2025, 4.500 chamadas por dia nos nossos centros de orientação de doentes urgentes. Dessas, e por via do sistema de triagem que temos implementado atualmente, estamos a enviar meios para cerca de 96% das situações. Mas isto flutua muito; ainda esta semana tivemos dias de 3.500 chamadas, mas em Janeiro chegámos a ter 5.680 chamadas. Estamos a falar de uma flutuação de quase 2.000 chamadas, que é metade daquilo que fazemos habitualmente no dia-a-dia.
Por isto, tenho de ter atendimento em excesso. Vamos imaginar que há um sismo em Lisboa, há um incêndio. Não sabemos quando vai acontecer. O mesmo em relação às ambulâncias. Tenho de ter um conjunto de ambulâncias próprias do INEM, que se estima ser por volta das 40, para as poder mobilizar em caso de necessidade.
"Das cerca de 470 ambulâncias que temos em circulação diariamente, só 30 são do INEM"
É o INEM que chama os bombeiros?
Há um protocolo escrito, que é assinado e negociado com a Liga dos Bombeiros Portugueses, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e o INEM, em que estão definidos os pressupostos de funcionamento e o regulamento dessa relação.
Além disso, há uma assinatura individual, em duplicado, com 476 corpos de bombeiros — em que eu, enquanto presidente do INEM, tenho de assinar e rubricar todos os protocolos estabelecidos com as associações humanitárias deste país.
Mas isso não é feito digitalmente?
Algumas sim, a maior parte não. Os bombeiros ainda gostam de pôr o selo branco da associação. Estes protocolos vão ter de ser atualizados, porque a Liga dos Bombeiros Portugueses está a exigir uma atualização daquilo que é o valor fixo e dos variáveis, até por causa do aumento do preço dos combustíveis.
"Os TEPH devem ter um código deontológico próprio, que não permita que, através de grupos de WhatsApp, se encontre uma forma de protesto que põe em causa a vida das pessoas"
Qual o valor pago atualmente e em quanto vai ficar?
Neste momento, o valor do posto de emergência médica fixo está em 8.760 € e a proposta que temos praticamente fechada com a Liga é passar para 10.800 €.
Agora, temos de perceber que ainda estamos um bocadinho longe, e, enquanto INEM, temos vindo a dar razão à Liga nesta matéria, daquilo que é o custo operacional e funcional de algumas ambulâncias. Isto ainda é possível fazer dentro destes valores porque existem ainda muitos bombeiros voluntários a fazer este serviço, o que diminui os custos operacionais.
Mas, para dar uma noção, uma ambulância do INEM custa, só em recursos humanos — estamos a falar de TEPH, que ganham um pouco mais do que os bombeiros —, 22.000 € por mês.
Só com os bombeiros voluntários, no ano passado, o INEM gastou 108 milhões. Metade do meu orçamento vai para os protocolos que temos com os bombeiros.
"Temos um tempo de resposta médio à volta dos 12 minutos"
Em relação aos recursos humanos, quantos médicos, quantos enfermeiros e quantos técnicos de emergência pré-hospitalar tem o INEM e quantos faltam?
Uma das decisões tomadas relativamente à questão dos profissionais foi: abram-se os concursos todos que for preciso abrir para chegar àquilo que são os limites dos quadros operacionais do INEM. Isto começou a ser feito no ano passado; era um processo que já tinha sido iniciado.
Já tinha sido feito o contrato de 200 TEPH para a região Norte; foram admitidos e assumidos principalmente pela região do Porto e pela região de Coimbra. Este ano foi aberto novo concurso para a região de Lisboa, com mais 200. Infelizmente, neste momento, já só estão 68 em formação.
Ao contrário dos outros concursos, neste caso não contratamos um profissional já formado; contratamos um potencial candidato para formar. Durante o primeiro ano, que é o ano de experiência, a pessoa tem de receber as formações todas inerentes ao desempenho da sua atividade enquanto TEPH. Se chumbar em alguma dessas formações, automaticamente é rescindido o contrato. Além disso, há os que no decurso da formação descobrem que não é bem aquilo que querem; os que se candidatam a outros concursos e entram com mais facilidade; os que saem para ganhar mais ou ficar perto de casa.
Notamos que na região de Lisboa tem havido uma dificuldade enorme em contratar, em formar e garantir que todas as pessoas chegam ao final do curso no INEM. Neste momento, estamos só com 68, mas podem ficar ainda menos, dependendo das avaliações que ainda irão ser feitas.
Além disso, temos um concurso para 68 enfermeiros em curso, um concurso para 30 médicos e um concurso para 28 técnicos superiores. Ou seja, foram abertos todos os concursos que era possível abrir dentro daquilo que é o quadro e a capacidade do INEM.
O suficiente para uma operação sem sobressaltos?
Na vertente operacional, é importante perceber uma coisa que limita muito a atuação do INEM: funcionamos 24 horas sobre 24 horas, não paramos. Um posto de trabalho não é só um funcionário, são cinco funcionários: um para fazer manhã, outro para fazer tarde, outro para fazer noite, mais um para fazer a manhã do dia seguinte e um para cobrir as férias e as folgas geradas por estes regimes de trabalho rotativo (turnos e oito horas).
Para ter uma ambulância a funcionar 24 horas são necessários dez funcionários. E isso implica uma geração grande de horas extraordinárias, também. Por exemplo, os médicos não podem fazer trabalho em horário regular a partir das 20h. Todo o trabalho que tenham de fazer a partir das oito da noite, por lei, é obrigatoriamente extraordinário. Estamos a falar de VMER, CODU, helicópteros, um conjunto muito significativo de recursos que precisam de funcionar 24 horas sobre 24 horas.
"Uma ambulância do INEM custa, só em recursos humanos, 22.000 € por mês"
Porquê a dificuldade de reter pessoas?
Não me pergunte, mas existe, principalmente na região de Lisboa e Algarve. Mas não é um fenómeno exclusivo do INEM, é transversal a várias áreas. Penso que tem a ver com os custos da habitação, claramente, e o custo de vida em geral, alimentação, escolas.
O INEM tem sido foco de diversas polémicas. Como é que, enquanto presidente, reconstrói a confiança dos trabalhadores e das pessoas na instituição?
Primeiro, em relação aos trabalhadores: dois terços da minha classe laboral são os técnicos de emergência pré-hospitalar, como já disse. Acho que o sindicato tem feito um bom trabalho no sentido de melhorar as condições financeiras e, sejamos honestos, grande parte da motivação passa pelo reconhecimento e pelo pagamento que é feito desse reconhecimento. Estamos a falar, para uma situação em que não é exigida licenciatura, de um vencimento muito significativo; não é só o vencimento base, há o subsídio de turno, as horas extraordinárias. É um vencimento bastante razoável — e, mais uma vez, justo, não pomos em causa a questão remuneratória.
Depois, temos algumas questões relacionadas com as condições de trabalho, mais uma vez, fruto do grande desinvestimento nos últimos anos: temos bases de ambulâncias que não apresentam as melhores condições, os nossos centros de atendimento precisam de remodelações físicas em termos de espaço, os gabinetes de trabalho e gabinetes administrativos também precisam de alguma reformulação.
Estamos conscientes de que esta não é uma alteração que se faz de um dia para o outro, até por via daquilo que são as prerrogativas da contratação pública, mas aquilo que este conselho diretivo quer deixar muito claro neste processo de refundação são orientações: para onde vamos.
Penso que o pior que pode acontecer a um funcionário é achar que não sabemos bem para onde queremos ir. Se os funcionários souberem claramente que estamos a trilhar este caminho e que vamos chegar ao nosso objetivo, ganham novamente motivação, e é isso que queremos fazer, quer do ponto de vista das infra-estruturas logísticas, quer do ponto de vista das viaturas. Há um investimento na estrutura, há um investimento no INEM que nos vai levar a melhores condições de trabalho.
"O único financiamento que recebemos é uma taxa que está consignada à emergência médica nacional e que vem principalmente do ramo vida dos seguros que todos pagamos. Essa percentagem, que é de 2,5%, tem de ser revista"
E os utentes, como podem recuperar a confiança no INEM?
Em relação aos utentes, duas coisas importantes: a avaliação que a maior parte das pessoas faz da nossa atividade prende-se principalmente com dois pontos muito simples: atendemos ou não atendemos a chamada quando nos ligam; mandamos ou não mandamos uma ambulância quando dizemos que o vamos fazer.
Por isso, e já disse isso internamente, temos de ter atenção a estes dois pontos; temos de atender a chamada no tempo mínimo de atendimento de chamadas e temos de enviar as ambulâncias dentro daquilo que são as prioridades atendidas.
Quando não atendem uma chamada, não atendem porquê?
No primeiro dia que fui ao Centro de Orientação de Doentes Urgentes de Lisboa, estavam apenas quatro pessoas a fazer o atendimento de chamadas, havia duas filas de atendimento sem ninguém. Nesse mesmo dia, foi dada uma instrução muito clara: tem de haver sempre gente a atender, nem que seja à custa do encerramento de ambulâncias.
A prioridade do INEM é atender — por isso é que, infelizmente, temos relatos de pessoas que ligam para o INEM e ficam dois minutos, três minutos à espera de serem atendidas. Neste momento, estamos a cumprir métricas de atendimento, em menos de 14 segundos todas as chamadas são atendidas.
Obviamente, isto depende dos picos de procura. O pico é muito interessante: normalmente, temos um décimo daquilo que é a atividade normal até às oito da manhã; a partir daí começamos a subir e, por volta da uma ou duas horas da tarde, temos o pico do dia. Depois, volta a decrescer até cerca das dez da noite e, das dez da noite para a frente, a atividade é muito residual.
Vamos ter de ter sempre um excesso de capacidade de resposta em relação àquilo que é a procura expectável, porque falta quase sempre um ou dois TEPH por dia no atendimento, que tem de ser compensado. Há alturas em que, por causa de um acidente ou outro fenómeno, temos um fluxo muito grande de chamadas, e temos de ter a capacidade e a elasticidade para lá chegar.
"No ano passado, batemos o recorde de chamadas, mais de 1.600.000"
Se em 2026 voltar a haver uma greve como a que aconteceu em 2024, quais os riscos reais de se voltarem a repetir falhas no socorro?
Temos de perceber concretamente que greve está a ser decretada e de que classe profissional. Mas vamos falar, por exemplo, de uma greve geral. Não se vai passar o que se passou em 2024 por dois motivos que me parecem importantes. Primeiro, como foi dito, foi determinado que houvesse um reforço significativo dos CODU, todos os postos de atendimento têm de estar preenchidos — em dia de greve são 80% dos postos.
Segundo aspeto me parece importante — casa arrombada, trancas à porta —, o INEM passou a ter uma preocupação muito maior relativamente à definição dos serviços mínimos e àquilo que é a preocupação de escalar e deixar claro às pessoas que estão a ser escaladas que têm mesmo de cumprir os serviços mínimos.
Os técnicos de emergência pré-hospitalar têm algum código deontológico, como têm médicos e enfermeiros?
Não. Essa é uma das questões que tenho vindo a criticar muito — e, principalmente o Sindicato dos Trabalhadores de Emergência Pré-Hospitalar, mas também alguns TEPH têm-se sentido tocados por essa crítica. Mas temos de ser muito claros: as profissões na área da saúde têm de ter códigos deontológicos e é preciso saber que, façamos a greve que fizermos, temos de manter alguma resposta aos utentes, porque não há alternativa. A alternativa é a morte.
Por isso, por mais justas que sejam as nossas reivindicações, e os médicos e os enfermeiros sabem claramente isso, deontologicamente não podemos ultrapassar certos limites. Em relação à profissão de técnico, que acho que deve ser uma carreira profissional, tem de haver a percepção de que têm de cumprir certas prerrogativas, ter um código deontológico próprio, que não vai ser o mesmo que o dos médicos, não vai ser o mesmo que o dos enfermeiros, mas que é um código deontológico de funcionamento da carreira e que não permita que, através de pequenos grupos de WhatsApp, se encontre uma forma de protesto que põe em causa a vida das pessoas.
"Estou a ganhar cerca de um terço daquilo que ganhava enquanto médico. O INEM não tem qualquer encargo com o meu alojamento ou com as minhas viagens"
Porque é que os portugueses devem acreditar em si e na sua liderança?
Bem, nunca fui atacado do ponto de vista técnico, aquilo por que fui atacado pelos sindicatos não teve a ver com as minhas capacidades técnicas, mas com ilações tiradas sobre ações do passado. E o presidente do Sindicato dos Trabalhadores dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar não teve a frontalidade de falar comigo e perguntar ao que venho, quais são as minhas ideias. Nem sequer houve essa conversa e partiu logo para a questão da demissão, acho que foi um bocadinho exagerado.
O que posso dizer aos portugueses é que estou aqui com um enorme prejuízo, quer do ponto de vista pessoal, quer do ponto de vista familiar, quer do ponto de vista financeiro, para servir o país naquilo que o país precisa num determinado momento, que é a refundação ou reformulação do Instituto Nacional de Emergência Médica.
Estou empenhado em que isso aconteça para garantir que no futuro teremos um INEM a funcionar como deve ser. Não estou aqui agarrado ao cargo, estou aqui num espírito de missão para resolver um problema do país. Assim que este problema for resolvido, todos nós podemos voltar a ter a confiança naquilo que é um instituto fundamental.
Isso vai acontecer daqui a quanto tempo?
Acho que já há uma perceção por parte dos portugueses de que o INEM está a dar uma resposta diferente, já estamos na fase ascendente. Penso que isto vai ficar mais consolidado com dois aspetos fundamentais que têm a ver com alterações legislativas que estão a ser programadas para que isto seja uma realidade.
Primeiro, a orgânica do INEM, que é de 1981, quando ainda nem sequer havia a facilidade da videoconferência, a capacidade de estar em vários locais sem ser fisicamente; depois, o recentrar o instituto naquilo que é a sua função como prestador de cuidados de saúde.
Nada disto tem a ver com o presidente ser ou não ser médico, tem a ver com o corpo clínico e a organização clínica do instituto como existe nas ULS [Unidade Local de Saúde] do país. E isto tem de ficar plasmado de forma muito clara.
Há ainda uma componente que é fundamental todos perceberem, que tem a ver com o financiamento do instituto. O único financiamento que recebemos é uma taxa que está consignada à emergência médica nacional e que vem principalmente do ramo vida dos seguros que todos pagamos — no final da fatura há uma rubrica que diz "taxa INEM".
Essa percentagem, que é de 2,5%, tem de ser revista, porque não é neste momento suficiente para garantirmos aquilo que queremos em termos de investimento. Mais uma vez, não é só uma questão de manter o funcionamento do INEM, tem de haver um investimento nas sedes, nas bases das ambulâncias. É preciso perceber que, assim que as primeiras viaturas começarem a ser entregues, vou ter de lançar um novo concurso de viaturas, porque o processo demora três anos — e daqui a três anos já outras viaturas têm de ser substituídas.
"Estes cargos, que são cargos de alguma exigência, podem e devem ser exercidos por alguém que não vive em Lisboa — o país não é só Lisboa"
Para não acontecer como no caso dos helicópteros, em que teve de se fazer, além do concurso público, um ajuste direto para não ficar sem socorro aéreo?
Claro, todos estes investimentos têm de ser feitos.
O facto de termos uma população mais envelhecida trouxe mudanças ao INEM?
Sim, o envelhecimento é importante porque aumenta a sobrecarga de recursos e pedidos, mas temos muito mais gente nova ativa no país; esta questão da imigração é clara e sente-se no dia-a-dia, notamos que há mais pessoas a viver em Portugal.
A indexação da taxa dos seguros ao INEM acaba por ser um fator importante, porque, à medida que a atividade económica aumenta, aumenta o número de seguros, aumenta a comparticipação para o INEM. Mas é preciso ver que, no ano passado, batemos o recorde de chamadas, mais de 1.600.000.
Uma consulta superficial ao Portal Base mostra que, em 20 contratos de aquisição de bens e serviços, doze são com agências de viagens. São as suas idas e vindas da Terceira?
Não, que eu saiba não. Tem a ver com as nossas bases dos helicópteros, principalmente de Évora e de Viseu. Porque não há um espaço físico, ainda — é um dos investimentos que vai ter de ser feito —, para as equipas ficarem em permanência durante 24 horas. Por isso, principalmente para os períodos noturnos, são contratados hotéis para essas equipas através de agências de viagens.
Estava a provocá-lo, porque disse que foi para o INEM com grande prejuízo pessoal e financeiro. Queria perceber melhor a situação, pode explicar?
Neste momento, dito de uma forma muito clara, estou a ganhar cerca de um terço daquilo que ganhava enquanto médico. O INEM não tem qualquer encargo com o meu alojamento ou com as minhas viagens para a Terceira, onde está a minha família e onde tenho residência.
Paga as viagens e o seu alojamento no continente do seu bolso? Porquê?
Pago tudo do meu bolso. O INEM não tem previsto qualquer subsídio, qualquer ajuda de custo em relação ao alojamento do seu presidente.
E não negociou isso quando foi contratado?
Devo dizer que, na maior parte dos meses, trabalho para aquecer; o que eu ganho não paga as passagens e o alojamento. Tenho uma vantagem, depois peço os reembolsos das passagens. Estou a pagar 600 € por cada ida e volta, é o preço que a TAP me está a cobrar. Como açoreano, tenho direito ao subsídio social de mobilidade, o que quer dizer que, pagando 600 €, posso pedir o reembolso até aos 119 €, que é o valor do subsídio. Ou seja, só recebo o meu ordenado quando o subsídio social de mobilidade me paga as passagens da TAP.
E o alojamento?
Não está previsto no contrato e tenho de ser eu a suportar o custo do alojamento, que não me foi disponibilizado.
"Hoje [no SNS] são precisos quase três médicos para fazer aquilo que um de nós fazia em 120 horas semanais. Nas novas gerações ninguém quer fazer 120 horas por semana, fazer as 40 já é difícil"
Agora que fala nisso, o que pensa do assunto? Foi por isso que ficou a dormir no INEM?
Acho que os portugueses deviam estar mais preocupados com o que estou a fazer enquanto estou acordado do que enquanto estou a dormir.
De qualquer maneira, dormi mais de três anos naquele edifício enquanto médico regulador do CODU de Lisboa, descansávamos dentro do edifício. Saí muitas vezes do CODU para ir trabalhar para o hospital. Na altura, dormíamos no edifício.
Neste momento, estou em Lisboa única e exclusivamente para garantir a reestruturação e a refundação do INEM. Tenho a minha família nos Açores, para onde volto à sexta-feira às 9h20 da noite e de onde venho à segunda-feira às 6h40 da manhã. Estou a semana toda no continente para tratar da refundação e daquilo que é este processo de reestruturação do INEM.
Fico muitas vezes no gabinete até mais tarde porque, não tendo família cá, não tenho qualquer tipo de atividade familiar. E tinha a que me dedicar: todos os dias tinha uma pilha enorme de papéis para assinar, as avaliações de desempenho dos trabalhadores desde 2023. São 1.500 trabalhadores, 3.000 assinaturas pelo menos para pôr em dia até 2025 — e que agora vou ter de fazer também em 2026.
Obviamente, durante a noite acabava por estar ali no gabinete a assinar. Neste momento, a senhora da limpeza chega normalmente ao 7.º piso, que é o do conselho diretivo, por volta das sete da noite. E o que assumimos todos é que a essa hora saímos e não há mais trabalho. Claro que muitas vezes vou para casa e fico a trabalhar no meu computador, não é por não estar no meu gabinete que deixo de trabalhar naquilo que é necessário para o INEM.
Vive em hotel, tem uma casa arrendada?
Tenho uma casa alugada.
Hoje, o que pensa destas condições?
Estes cargos, que são cargos de alguma exigência, podem e devem ser exercidos por alguém que não vive em Lisboa — o país não é só Lisboa, é todo o território continental e mais duas regiões autónomas. Por isso, devem ser criadas condições para quem, de uma região autónoma, quer vir para o continente dar um pouco daquilo que é a sua capacidade de trabalho, o seu conhecimento em prol do país. Estou a falar principalmente da questão do alojamento, já nem falo das passagens aéreas, do ir e vir, que são suportadas no modelo que descrevi — em quatro semanas, estamos a falar de 2.400 euros todos os meses. Devo dizer que cada mês que passo no INEM são cerca de 10 mil euros de prejuízo em termos pessoais.
É também uma questão de descanso mental, para poder estar dedicado ao trabalho, ou não?
Claro. E isto só é possível porque durante os últimos anos, enquanto médico anestesiologista, desempenhei as minhas funções e consegui juntar o suficiente para hoje ter alguma folga financeira e suportar isto, senão seria impossível.
Arrepende-se de ter aceitado ser presidente do INEM ou sabia ao que vinha?
Não me arrependo exatamente porque sabia ao que vinha, sabia claramente que isto ia ser duro. Ninguém faz um processo de refundação sem ser um pouco mártir desse processo. Sempre que alguém tenta mexer, obviamente, vai haver contestação, vai haver ataques pessoais.
Para um povo que tem tanta aversão à mudança como o português, não é um erro falar-se em refundação, quando o que se está a fazer é pôr uma instituição a funcionar?
Uso o termo que foi utilizado pelo governo e que foi o mote para a minha candidatura. Para mim, passou a mensagem de que era uma palavra a sério; refundação não é só cosmética, era algo em que eu poderia colaborar como residente. Percebo o que diz e concordo, mas estamos a falar de uma reestruturação orgânica muito significativa do INEM e de recentrar a prestação de cuidados no core business, que é o utente.
Gostava que me falasse um pouco da sua vida nos Açores e do peso da insularidade.
Em primeiro lugar, estamos a menos tempo de Lisboa do que, por exemplo, alguém que vive em Bragança. Não há, hoje em dia, aquelas questões de que me lembro, em que as vindas para o continente eram feitas no Carvalho Araújo, um navio que também passava pela Madeira e que levava quatro dias de viagem. Hoje há voos diários para os Açores.
Mas quem nasce num arquipélago e é criado num arquipélago tem uma forma um pouco diferente de olhar para o mundo. Obviamente, a limitação geográfica das ilhas cria-nos um desejo de conhecer o mundo diferente daquilo que é a realidade nacional, em que a pessoa tem essa facilidade de acesso.
Segundo, corta-nos as amarras muito cedo. Vim estudar para Lisboa com 17 anos, para fazer a Faculdade de Medicina. Saí da minha casa e estabeleci a minha vida, comecei a fazer a minha atividade praticamente já sem laços familiares.
Foram cerca de 12 anos na cidade de Lisboa onde fiz a faculdade; depois acabei por fazer a especialidade no Hospital de Santa Maria, onde conheci a minha mulher, que é enfermeira — conhecemo-nos em contexto hospitalar.
Voltei para a ilha de São Miguel, de onde sou, e fui como anestesiologista para o Hospital de Ponta Delgada, onde estive só seis meses, porque me convidaram para ser diretor do serviço de urgência, a que me dediquei.
Na sequência disso, em 2012, montámos o sistema de emergência médica pré-hospitalar da Região Autónoma dos Açores, que foi uma pequena grande revolução naquilo que era o funcionamento do sistema regional. Talvez fruto disso, do sucesso desse processo, fui convidado para ser secretário regional da Saúde dos Açores em novembro de 2012. Esse convite tinha um pequeno senão, que era ter de mudar a minha família para a ilha Terceira, um desafio que aceitei com sentido de missão e que a minha família acabou por apoiar. É lá que vivemos hoje e somos felizes; tem um convívio social bastante intenso, uma vida cultural interessantíssima.
Depois, voltei a trabalhar no hospital como anestesiologista e fui convidado para voltar a ser diretor clínico do Serviço de Emergência Médica da região autónoma. A ida para a Terceira foi, de alguma forma, providencial, porque acabei por ficar na ilha certa, tinha o hospital e tinha a proteção civil, as atividades que mantinha até ter sido nomeado presidente do INEM.
"Os custos em saúde estão a aumentar de forma muito significativa; as últimas estimativas apontavam para um aumento de cerca de 6% ao ano"
Tem dois filhos?
Tenho o Francisco, com 17 anos, que diz que quer seguir a área da emergência médica e vai entrar agora para Medicina, é o melhor aluno da escola, e tenho a Matilde, que tem quinze anos, uma doença raríssima — há 14 casos diagnosticados a nível mundial — e é uma miúda muito alegre.
Nesta altura, tremem mais os Açores ou o INEM?
O INEM, neste momento, está a tremer pouco. Treme na altura em que há mudanças, mas penso que as pessoas já perceberam que há uma visão. Podem nem todas concordar com ela, mas há uma visão e um caminho que vai ser cumprido. Hoje não há um clima de turbulência, como alguns querem fazer passar. Mais uma vez, acho que se está a dar demasiada atenção àquilo que é a opinião de um sindicato, de um presidente de um sindicato, que não representa a sociedade.
Mas que diz que foi contar mentiras à ministra. Foi?
Não há nada que aconteça de negativo em termos de notícias do INEM que não tenha essa fonte. Se, enquanto trabalhadores do INEM, estamos preocupados em puxar a imagem da instituição para cima, não podemos estar constantemente a denegrir.
O sindicato deve fazer o seu trabalho, e está a fazê-lo bem, naquilo que são as suas competências sindicais. Agora, acho que ultrapassa claramente aquilo que são as suas competências sindicais. As questões da parte clínica, de desempenho operacional, não são questões sindicais. Eu não discuto com o sindicato dos enfermeiros ou com o sindicato dos médicos protocolos de atuação clínica dentro do INEM, discuto isso com a Ordem dos Enfermeiros ou com a Ordem dos Médicos.
Não percebo que haja alguém que há mais de quatro anos não tripula os meios do INEM e a certa altura apareça na televisão a falar sobre helicópteros — não há TEPH nos helicópteros —, a falar sobre a possibilidade de fazer partos em casa, na cozinha, às grávidas, a falar sobre questões que têm a ver com VMER e viaturas que não são específicas dos TEPH. Tem de haver legitimidade, quer na parte científica, quer na parte profissional, para poder falar sobre determinados temas.
Sei que não é sua competência, mas gostava que falasse sobre o SNS e a crise que está a atravessar. Também precisava de ser refundado?
A primeira coisa que tenho a dizer é que vim resolver os problemas do INEM, não vim resolver os problemas do SNS. Se me pedissem para resolver os problemas do SNS, aí não me chegava à frente, porque não vejo como. Em relação ao INEM tenho o conhecimento técnico e profissional necessário para saber exatamente o que quero fazer e para onde devemos ir.
Em relação ao SNS, há uma questão de ideologia que deve ser esclarecida logo à partida, que o país ainda não esclareceu, é se quer um sistema público, privado ou público-privado.
O que temos é misto, na verdade.
Mas deve ser tendencialmente gratuito, deve haver um co-pagamento, as seguradoras podem entrar neste modelo? Penso que o país ainda não se definiu, se temos um governo de direita, temos políticas mais de direita, se temos um governo de esquerda, revertemos as medidas da direita e, enquanto andarmos nisto, vai ser difícil chegar a algo de concreto.
Agora, temos de ter em atenção duas questões que me parecem importantes no funcionamento do Sistema Nacional de Saúde. Primeiro, as novas gerações de profissionais não são iguais às antigas. Quando éramos chamados, ainda no internato e depois já como especialistas, para fazer os natais, as passagens de ano, ou quando havia um buraco na escala porque alguém tinha adoecido, nós chegávamo-nos à frente. Hoje isso não acontece, as novas gerações não estão disponíveis para isso.
E por isso a grande falta de profissionais; hoje são precisos quase três médicos para fazer aquilo que um de nós fazia em 120 horas semanais. Nas novas gerações ninguém quer fazer 120 horas por semana, fazer as 40 já é difícil. É daí que vem a falta de recursos humanos, estamos a ser substituídos por uma geração que não vai fazer o mesmo que nós fizemos. Isto é uma questão geracional que ultrapassa fronteiras, não é só em Portugal. Mas que vamos ter de gerir e temos de ter essa noção quando olhamos para os próximos anos do Serviço Nacional de Saúde.
Outra questão são os custos em saúde, que estão a aumentar de forma muito significativa. As últimas estimativas apontavam para um aumento de cerca de 6% ao ano do custo do sistema de saúde só por via daquilo que são as novas tecnologias, os novos equipamentos, os novos fármacos. Há ampolas a custar um milhão de euros. Estes vão ser os dois fatores mais limitadores daquilo que é a atividade do SNS nos próximos anos e têm um peso muito significativo. Depois, há áreas em que é preciso tomar medidas corajosas.
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