29 de julho. Ciao, Roma! Chegámos e o primeiro impacto é de alívio. Acabaram-se as viagens de autocarro por uns dias. Ficamos alojados em pavilhões de escolas ou paróquias: no geral, há poucos chuveiros e casas de banho para a quantidade de peregrinos em cada espaço, mas a vida segue e todos estão agradecidos por ter um pedaço de chão onde estender o corpo.
Esteiras e sacos-cama preparados, é tempo de almoçar para seguir para o centro da cidade. Ainda sobrou pão de forma, atum e salsichas e a refeição é partilhada entre todos. Com resmungos, é certo, mas é a forma mais rápida.
O Vaticano espera os jovens peregrinos. A missa do início do Jubileu está marcada para as 19h00 locais, na Praça de S. Pedro. É preciso ir cedo para entrar. E antes disso ver o percurso a fazer: uma caminhada até à estação de metro mais próxima e entrar nos transportes. E depois andar mais um bocadinho a pé. Toda a gente está entusiasmada.
Quando se chega a uma das ruas com acesso à praça, um déjà vu. A multidão canta e bate palmas, há bandeiras no ar. Já se viu este ambiente em Lisboa, na Jornada Mundial da Juventude. Agora estamos mais longe, mas o espírito dos peregrinos é o mesmo.
Contudo, entre todos há um comentário geral: Portugal organizou-se melhor, havia sempre voluntários a quem perguntar informações. Ali, o reboliço imperava.
Onde acaba a fila? Como é que se entra? Será que por outra entrada tem menos gente? Só há este ecrã no caso de não conseguirmos entrar?
As respostas chegaram quase três horas de espera depois: não conseguimos entrar na Praça de S. Pedro nem havia como voltar atrás, considerando a densa multidão. Ecrã, nem vê-lo. Restaram os telemóveis para espreitar a missa e o desânimo que se multiplicou por mil quando se percebeu que o Papa Leão XIV apareceu de surpresa no fim da celebração. O verdadeiro ir a Roma e não ver o Papa.
Se a tarde foi de correrias e contratempos, a hora de jantar não foi melhor. Quem tem pack de peregrino com voucher de alimentação deve procurar numa app onde pode comer. Mas a tarefa não se mostra fácil. As filas são enormes, há restaurantes que aparecem na lista e depois dizem que não aceitam os vouchers, outros que simplesmente não existem na localização indicada. Contudo, mantém-se a frase do primeiro dia: o peregrino não exige, agradece. E a seguir vai comprar fast food para matar a fome.
Apesar dos contratempos, a noite termina bem. Há tempo para uma visita à Praça de S. Pedro. Multiplicam-se as fotos e os vídeos. Afinal, ainda não há muito tempo todos olhávamos para aquele local, à espera de saber quem seria o novo Papa.
30 de julho. A vida do peregrino não é fácil. Amanhece e meio grupo percebe que o repelente para insetos não serve de muito em Roma. As melgas italianas gostaram dos portugueses: há mordidas com ar de quererem infectar, ainda por cima nos pés e tornozelos. Seja como for, o caminho continua. Espera-nos a primeira visita a uma Basílica Papal e, consequentemente, a primeira passagem de uma Porta Santa, um dos grandes símbolos deste Jubileu.
A entrada em São Paulo Extra Muros é sinónimo do primeiro grande arrebate. Impressionante. Ninguém sabe se perde o olhar no teto, nas paredes, no chão. Em todo o lado. Há flores douradas, janelas de âmbar, colunas enormes, a história dos Papas ao longo das paredes — e espaço em vão para os que ainda hão de chegar.
A missa desta manhã junta os portugueses num só local. As camisolas coloridas vão dizendo quem é de onde e dão um sentimento de pertença. De casa. Estamos longe, mas somos todos vizinhos, todos irmãos.
No fim, é preciso procurar almoço. Depois da aventura dos vouchers nos restaurantes, a opção é um ponto de distribuição de refeições. A comida é fria, mas pelo menos existe. Quando chega a nossa vez na fila, uma má notícia: já não existem as opções todas que estariam disponíveis, mas é preciso comer qualquer coisa. Resta-nos uma embalagem de couscous com frango e legumes. A acompanhar com umas bolachinhas de água e sal, um puré de maçã e uma garrafa de água — com ou sem gás, sabe Deus o que vem no saco e depois seguem-se as trocas entre peregrinos, que nem toda a gente percebe este estranho gosto italiano.
Estômagos aconchegados, apesar de não completamente satisfeitos pela escolha gastronómica, é tempo de seguir caminho. Se todos os caminhos vão dar a Roma e já lá estamos, é continuar a aproveitar.
Além das celebrações próprias e da vertente religiosa, o Jubileu também é oportunidade para dialogar com a cidade. Há História em cada canto e é preciso aproveitar isso. A tarde leva-nos ao Circo Máximo e, daí, ao Coliseu.
Olha bem o tamanho disto. Como é que eles inundavam o Coliseu para batalhas com barcos lá dentro? Vamos entrar? Temos de tirar uma foto do outro lado, que é a perspectiva que toda a gente apanha.
A imponência do local é tanta que nos demoramos por ali e decidimos que não há melhor sala de jantar para aquela noite. Há um ponto de distribuição de refeições próximo. Correu relativamente bem ao almoço, arriscamos uma segunda vez. Parte do grupo vai fazer a recolha, a outra parte fica a descansar as pernas cansadas e meio estropiadas. Pelo WhatsApp chega a informação de que há massa com almôndegas. Perfeito, não pode falhar.
Até poder. O que chega até nós é uma embalagem fechada, opaca, e relativamente quente. Ponto positivo. O problema começa quando se abre a refeição. Cheira bem, mas o aspecto é medonho. As massas estão coladas em blocos rijos, as almôndegas têm tamanho miniatura e quase nem vê-las. Comer é uma tarefa difícil, mas quem olha para o grupo até pensa que não. Há quem chore a rir quando ouve frases como “a ver pela consistência destas massas percebemos como é que o Coliseu ainda está em pé ao fim deste tempo todo”.
Recuperadas as forças, dentro dos possíveis, o passeio continua com vista para o Fórum Romano e uma passagem pelo monumento a Vittorio Emanuele. Não há margem para dúvidas, os romanos fazem mesmo tudo em grande.
31 de julho. Outra prova disso é a manhã passada nos Museus do Vaticano. Depois de alguma demora na entrada apesar dos bilhetes comprados com antecedência, lá começa a visita. Depressa percebemos que há um percurso obrigatório definido, ao contrário do habitual, para que não existam turistas e peregrinos a remar contra a maré. Assim toda a gente vai na mesma direção — e ninguém pode parar muito tempo em alguns locais sem ouvir algum segurança a mandar avançar.
Há presentes de todo o mundo que chegaram ao Papa ao longo dos anos, múmias egípcias, os mais variados estilos artísticos. Mais uma vez, ninguém sabe muito bem para onde olhar primeiro. Cada corredor é uma obra de arte, com frescos, talha dourada, mosaicos bizantinos, pedras dos mais variados tipos, tapeçarias que forram paredes inteiras. E, de quando a quando, uma janela aberta com vista para a cúpula da Basílica de S. Pedro.
O percurso faz-se em cerca de três horas. Há fome e irritação, uns querem só sentar-se um bocado, outros querem ver tudo o que houver para ver que ninguém sabe quando volta. Encontra-se um meio termo: a secção de arte contemporânea é percorrida meio a correr, com o objetivo de se chegar mais rapidamente à Capela Sistina.
E quando finalmente se entra… a emoção é visível. O espanto também. Há mais barulho do que seria suposto numa capela, mas ninguém se consegue conter.
Como é que os cardeais conseguem eleger o Papa aqui? Eu ficava só a olhar para as paredes e para o teto. Já viste bem? Olha ali a imagem que aparece sempre, com Deus e Adão a estenderem os dedos. Sei que não se pode tirar fotos, mas não aguento.
Os vigilantes bem gritam “no photo” a torto e a direito, sem grande sucesso. De vez em quando há um telemóvel no ar, uma foto tirada em modo selfie para dar menos nas vistas, um telemóvel deixado no chão com temporizador para apanhar um grupo e o tecto. Não é todos os dias que se entra num espaço onde o Papa pode ir quando quer — e onde foi eleito.
Acabada a visita e comprados os souvenirs, procura-se almoço. A app mostra-nos uma rua, não muito longe, com várias opções. Uma delas é a vencedora e o que nos chega sabe pela vida: pasta al dente, com tomate fresco. E a seguir atravessa-se a estrada para procurar um vero gelato italiano para a sobremesa. A vida dos peregrinos afinal pode correr bem.
A tarde prossegue com mais visitas que não podiam deixar de ser feitas. Passamos por mais igrejas — em algumas já não conseguimos entrar, que nem no Jubileu prolongam os horários —, paramos frente ao Panteão e espreitamos a Fontana di Trevi. Quando damos conta, é hora de comer e preparar para descansar, que há mais para ver umas horas depois.
1 de agosto. É desta que entramos na Basílica de S. Pedro. O acesso à praça, para entrar pela Porta Santa, significa lidar com uma fila gigante ao sol. Os grupos mais pequenos devem juntar-se, por nacionalidade, a algum grupo maior para conseguirem entrar em cortejo com a cruz própria do Jubileu.
É isso que fazemos — mas nem tudo corre bem. Há quem não veja com bons olhos estas junções, por sentir que se passa à frente. Mesmo assim, seguem-se as indicações dos voluntários e o caminho é feito.
À entrada, o assombro mistura-se mais uma vez com a emoção. A Pietà de Michelangelo está logo à direita da Porta Santa e há quem nem dê por ela. O passo do cortejo segue acelerado, há orações intervaladas com murmúrios pelo que se observa em redor. Todos percebem que as Basílicas Papais são de facto a não perder. E ainda faltam outras duas.
Entretanto é hora de almoço. O grupo começa a ter algumas baixas, o calor e as poucas horas de descanso não dão tréguas. Enquanto se descansa à sombra num passeio, quem ainda consegue andar vai à procura de almoço — e não foi tarefa fácil, mas cerca de três horas e uns bons quilómetros depois há carbonara para todos. Sentamo-nos no pátio de uns prédios forrados a hera, o cenário parece de um qualquer filme italiano — e fica mesmo completo com mais um gelato ou um affogato, que há quem precise de cafeína para continuar a andar.
Recuperados, seguimos para mais visitas. O destino é mais uma Basílica Papal: Santa Maria Maior, onde está sepultado o Papa Francisco. O entusiasmo é muito e a desilusão atinge a mesma proporção quando lá chegamos, a fila fechou.
Resignado, o grupo senta-se frente à igreja. Vê-se o possível, aproveita-se para comer qualquer coisa, beber água, escrever postais, comprar mais uns souvenirs. Pelo meio desaparece um telemóvel.
E, de repente, tudo muda. O telemóvel aparece, dois elementos do grupo surgem do nada a gritar que afinal conseguimos entrar na basílica — mas temos de correr antes que voltem a fechar as baias. Assim se faz, o que dá um ar pouco sereno para passar uma Porta Santa. O ambiente é de riso pela oportunidade inesperada, mas depressa volta o mood peregrino. Mais uma vez, agradecemos por tudo. Também ao Papa Francisco, que lançou em 2023 o convite aos jovens para irem até Roma.
Ao fim do dia, entre os peregrinos começa a surgir a ideia de fim desta peregrinação. Já falta pouco para o encontro com Leão XIV em Tor Vergata, para a vigília e missa final. Antes disso, é preciso ir às compras e voltar a preparar mochilas. E os braços, que amanhã temos de carregar a tralha toda para outro destino.
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