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A polémica em torno da presença de José Saramago no currículo do ensino secundário assenta, segundo Carla Marques, em “ideias falsas” que têm circulado nos últimos dias. A responsável, em declarações ao 24notícias, esclarece que não está prevista a exclusão do autor, mas sim a possibilidade de os professores escolherem entre diferentes obras e autores.
Em concreto, a proposta permite optar entre duas obras de Saramago - Memorial do Convento e O Ano da Morte de Ricardo Reis - ou o romance Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, de Mário de Carvalho. “Os professores podem escolher entre estes dois autores e entre três obras”, explica.
O documento encontra-se ainda em fase de consulta pública, o que significa que poderá sofrer alterações antes de ser aplicado nas escolas. “Neste momento não estamos a falar do que vai acontecer, mas de possibilidades”, sublinha Carla Marques, acrescentando que a versão final dependerá também das contribuições da comunidade educativa.
A proposta resulta de um trabalho desenvolvido por especialistas do Centro de Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e tem como objetivo introduzir maior diversidade no ensino da literatura. A intenção é permitir aos professores adaptar as escolhas às características dos alunos e às temáticas trabalhadas em sala de aula.
O 24notícias contactou o Centro de Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para saber quais os motivos da escolha do escritor Mário de Carvalho , mas até ao fecho deste artigo não obteve resposta.
Apesar da controvérsia, Carla Marques garante que a presença de Saramago não está em risco. Mesmo com a introdução de alternativas, o autor poderá continuar a integrar o currículo, seja através do ensino em sala de aula, seja no chamado “contrato de leitura”, um modelo em que o aluno se compromete a ler várias obras ao longo do ano com acompanhamento do professor.
“É possível que Saramago seja trabalhado em aula e Mário de Carvalho no contrato de leitura”, exemplifica, reforçando que a proposta “nunca vai no sentido de excluir” o Nobel português.
A responsável rejeita ainda a ideia de que a inclusão de Mário de Carvalho represente uma opção por "facilitismo. “É totalmente falso”, afirma, defendendo que Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde pode ter um nível de complexidade igual ou até superior ao de Saramago. A professora menciona também a qualidade do autor e os vários prémios literários como possíveis motivos de escolha.
Segundo Carla Marques, a revisão das aprendizagens essenciais pretende reforçar o pensamento crítico dos alunos, uma área em que estudos internacionais apontam fragilidades. Por isso, a proposta inclui mais autores e obras de elevada densidade literária.
Margarida Gaspar Matos, psicóloga e professora catedrática da Universidade Católica Portuguesa, defende que os alunos devem ler Saramago, "se eles gostam do Saramago, deixemos ler e depois vamos introduzir, aos poucos, mais um autor".
A lógica de flexibilização não se limita ao 12.º ano. No ensino secundário, já existem modelos semelhantes: Eça de Queiroz pode ser estudado através de diferentes romances, enquanto Fernando Pessoa é obrigatório, mas sem textos fixos definidos, cabendo ao professor a seleção.
Já autores considerados canónicos, como Luís de Camões ou Padre António Vieira, mantêm-se fora deste regime de alternativa, devido ao seu lugar central na literatura portuguesa.
Com o debate instalado, o Ministério da Educação deverá agora recolher contributos antes de fechar a versão definitiva das aprendizagens essenciais, uma decisão que continuará a marcar a discussão sobre o ensino da literatura em Portugal.
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