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Julie Inman Grant, de 57 anos, depois de décadas a trabalhar na indústria tecnológica privada, passou para o outro lado da barricada, conta a BBC. Hoje, é responsável por exigir responsabilidades a algumas das maiores empresas tecnológicas do mundo, numa função que a colocou na linha da frente de batalhas sobre desinformação, censura, assédio online e segurança infantil. Essa visibilidade tornou-a uma das burocratas mais conhecidas da Austrália — e também um alvo frequente.

Ao longo do mandato, foi alvo de campanhas de intimidação por grupos neonazis, entrou em confronto público com Elon Musk e atraiu críticas de membros do Congresso dos Estados Unidos. Tudo isto enquanto lidera a implementação de uma medida inédita: a proibição do acesso às redes sociais a todos os australianos com menos de 16 anos.

A legislação, que entrou em vigor a 10 de dezembro, abrange dez plataformas, incluindo Facebook, Instagram, Snapchat e YouTube. O mundo observa atentamente esta experiência australiana, que coloca ainda mais pressão sobre o trabalho da comissária.

A medida tem tido amplo apoio por parte de pais, que veem na intervenção do Estado um aliado na gestão do uso das redes sociais pelos filhos. No entanto, as críticas não tardaram. Especialistas em tecnologia e defensores do bem-estar infantil alertam que a educação digital pode ser mais eficaz do que a proibição. Outros questionam a aplicabilidade da lei e apontam que grupos minoritários — como jovens de zonas rurais, adolescentes com deficiência ou que se identificam como LGBTQI+ — dependem mais do espaço online para encontrar comunidade.

As próprias empresas tecnológicas manifestaram reservas. Embora afirmem partilhar preocupações com a segurança online e garantir cumprimento da lei, discordam da opção tomada. Inman Grant defende que qualquer medida que possa proteger crianças merece ser testada, argumentando que atrasar a entrada nas redes sociais pode ajudar a desenvolver competências críticas e resiliência.

Recorre frequentemente a uma metáfora ligada ao mar: tal como na segurança aquática, defende que as crianças precisam de aprender a “nadar” no mundo digital, reconhecendo riscos como algoritmos, predadores e burlões. Curiosamente, no passado usou a mesma analogia para se opor à proibição, mas acabou por mudar de posição após participar ativamente na definição da forma como a lei seria aplicada.

A experiência é também pessoal. Mãe de três filhos, incluindo gémeos de 13 anos, descreve a sua casa como um “laboratório”, com reações muito diferentes à perspetiva de perder acesso às redes sociais.

Nascida em Seattle, nos Estados Unidos, cresceu num ambiente marcado pela tecnologia. Trabalhou no Congresso norte-americano, fez carreira na Microsoft, Twitter e Adobe, e acabou por se fixar na Austrália, onde se naturalizou. Ao longo desses anos, percebeu que a segurança online não era uma prioridade e tentou promover mudanças a partir de dentro. Mais tarde, decidiu fazê-lo como reguladora.

Agora, com o fim do mandato a aproximar-se, admite que poderá ser tempo de passar o testemunho, mas deixa claro que a sua missão de tornar o mundo digital mais seguro está longe de terminar.

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