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Jornalistas iranianos a trabalhar em Londres afirmam viver sob ameaça constante, após uma série recente de intimidações e ataques físicos que atribuem ao regime de Teerão, numa tentativa de silenciar meios de comunicação em língua persa no estrangeiro.
Segundo o The Guardian, na quarta-feira, as instalações londrinas da Iran International foram alvo de uma tentativa de incêndio. De acordo com a polícia metropolitana, um "recipiente incendiado" foi lançado para o parque de estacionamento de um edifício vizinho. O incidente está a ser investigado pelas autoridades britânicas.
Entre os jornalistas, o sentimento é de medo, mas também de habituação à ameaça. Um profissional do canal descreveu um ambiente em que a violência se tornou parte do quotidiano. “Os nossos cérebros ignoram automaticamente estas coisas. Normalizámos as ameaças para conseguir continuar a trabalhar”, afirmou, acrescentando que, sem esse mecanismo, “seria impossível lidar psicologicamente com a situação”.
Outro jornalista revelou que forças de segurança iranianas terão mostrado à sua família, no Irão, uma fotografia da varanda da sua casa em Londres, acompanhada de uma mensagem intimidatória: “Estamos muito perto dele”. Segundo o mesmo relato, recebeu ainda ameaças diretas de morte, incluindo a promessa de que o seu corpo seria esquartejado.
Os profissionais ligados à Iran International têm sido alvo de várias tentativas de assassinato e rapto. Em 2024, o apresentador Pouria Zeraati foi esfaqueado à porta de casa, em Wimbledon, no sul de Londres, acabando por mudar de país por razões de segurança.
O ataque a Zeraati aconteceu depois de ter sido descoberta uma conspiração para assassinar outros dois apresentadores da Iran International, Sima Sabet e Fardad Farahzad. Sima Sabet, ex-apresentadora de um programa da Iran International em horário nobre que registava a maior audiência entre todos os programas de televisão em língua farsi, afirmou ao Comité de Proteção dos Jornalistas (CPJ), que a polícia metropolitana de Londres lhe pediu para abandonar a sua casa após o ataque a Zeraati, por razões de segurança.
Uma jornalista da BBC Persian relatou que as ameaças aumentaram significativamente após o ataque ao Irão, em junho de 2025, e com o início dos protestos em massa no país, no final do mesmo ano. Segundo disse, as autoridades iranianas terão avisado a sua família de que poderia ser acusada de moharebeh (“guerra contra Deus”) um crime punido com a pena de morte.
Especialistas em contraterrorismo já alertaram para o uso de intermediários criminosos por parte de Estados estrangeiros para executar atos violentos no Reino Unido. De acordo com ativistas, vários jornalistas receberam avisos diretos para cessarem o seu trabalho sob pena de sofrerem consequências graves.
A investigadora Lucia Ardovini, membro fundador de um grupo de trabalho sobre repressão transnacional no Reino Unido, explica que estes ataques são frequentemente levados a cabo por membros da diáspora que atuam como “agentes informais do Estado”, motivados por narrativas oficiais que classificam dissidentes como traidores.
Segundo Lucia Ardovini, o recente ataque contra a Iran International insere-se numa campanha prolongada do regime iraniano para rotular o canal como uma “organização terrorista”, narrativa que se dissemina através de comunidades e plataformas digitais.
Para os jornalistas, a pressão atual soma-se ao trauma de cobrir a repressão violenta dos protestos no Irão, em janeiro, que terá causado dezenas de milhares de mortos. “Vimos imagens horríveis, com corpos, sangue e destruição do nosso próprio povo”, relatou um dos profissionais.
Apesar de viverem no Reino Unido, muitos afirmam já não se sentir em segurança. “Podem contratar alguém para nos fazer mal aqui em Londres”, disse uma jornalista, sublinhando que o medo ultrapassou fronteiras e passou a fazer parte do dia a dia.
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