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Ainda o US Open não tinha começado e o último Grand Slam da temporada já era marcado por duas notícias opostas: uma boa e outra má.
Comecemos pela boa. Carlos Alcaraz, número três do ranking ATP e campeão em título do US Open, anunciou o regresso aos courts e à competição em Nova Iorque, quatro meses depois de ter abandonado, por lesão, o ATP 500 de Barcelona, em meados de abril.
Em sentido contrário, e quase sem deixar respirar o anúncio do espanhol, Jannik Sinner, atual número um mundial, comunicou a desistência, por problemas físicos no joelho, do torneio que começa este domingo em Flushing Meadows, no USTA Billie Jean King National Tennis Center, e se prolonga até 13 de setembro.
É a primeira vez que Sinner falha um torneio de Grand Slam desde que se estreou nos Majors, em 2019, curiosamente, no US Open.
À margem do “bom” e do “mau” noticiosos, há uma espécie de “vilão” a ensombrar o último grande torneio da temporada nos Estados Unidos.
O estado anímico e a quebra de resultados de Aryna Sabalenka deixam no ar dúvidas sobre o que esperar da número 1 mundial e bicampeã do US Open.
A tenista bielorrussa ainda não venceu qualquer Grand Slam esta temporada, soma três títulos e apresenta um registo de 40 vitórias e oito derrotas, números, longe do domínio a que habituou o circuito.
Quase 100 milhões de euros no maior prémio de sempre
Dúvidas à parte, a 146.ª edição do US Open, 54.ª da Era Moderna, joga-se debaixo de uma certeza: distribuirá o maior prize money da história dos Grand Slams.
Serão 108 milhões de dólares, cerca de 93,4 milhões de euros. Desse bolo, caberá aos vencedores dos quadros de singulares, masculino e feminino, um cheque histórico de 5,5 milhões de dólares, aproximadamente 4,7 milhões de euros.
Quem entrar na primeira ronda do quadro principal terá garantidos, ainda antes de bater a primeira bola, 140 mil dólares, cerca de 120 mil euros. É também a maior verba de sempre para um derrotado na ronda inaugural de um Major.
É com esse dinheiro já garantido que os portugueses Nuno Borges, número 41 mundial, e Jaime Faria, 70.º, entram em ação no complexo de ténis de Flushing Meadows, em Queens, Nova Iorque.
Faria é o primeiro a entrar em campo. No Stadium 17, este domingo, às 19h00, terá pela frente o norte-americano Jenson Brooksby, número 73 do ranking. Borges defrontará, na segunda-feira, dia 31, Learner Tien, 15.º da hierarquia e outro jogador da casa.
“Vai ser muito difícil não ter jogado e conseguir ganhar”
Carlos Alcaraz não compete há quatro meses. Uma lesão no pulso obrigou-o a retirar-se na ronda de 32 do ATP 500 de Barcelona, a 14 de abril, depois de vencer o primeiro encontro frente a Otto Virtanen.
O espanhol abdicou dos torneios norte-americanos de preparação e entra diretamente no US Open (transmissão no Eurosport) para defender o título conquistado em 2025, numa final diante de Sinner.
Na antevisão do Major nova-iorquino, John McEnroe assumiu estar “feliz” com o regresso de Alcaraz, embora reconheça que voltar à competição depois de uma ausência tão prolongada não seja “uma situação ideal”.
“Não posso imaginar que fosse o plano”, realçou a lenda norte-americana numa conversa telefónica com o 24noticias, que juntou outros jornalistas europeus.
“O problema foi o pulso. Isso não quer dizer que não possa treinar com as pernas”, sublinhou o antigo número 1 mundial. Alcaraz treinou e preparou-se, mas “vai ser muito difícil não ter jogado e conseguir ganhar”, vaticina McEnroe, vencedor de quatro US Opens em singulares, em 1979, 1980, 1981 e 1984.
“Como todos sabemos, os nervos entram em jogo. Vai ser, obviamente, extremamente interessante ver como lidará com isso”, acrescentou.
Apesar da ausência do principal rival, Sinner, vencedor em 2024, o quadro masculino mantém Novak Djokovic, campeão em 2023, Ben Shelton, Taylor Fritz, Arthur Fils e Alexander Zverev, primeiro cabeça de série.
Da lista de candidatos, McEnroe escolheu Djokovic, que defrontará Mariano Navone na ronda inaugural e que, de acordo com o sorteio, só poderá encontrar Alcaraz nas meias-finais.
“Carlos Alcaraz pode olhar para si mesmo e dizer que é muito mais jovem do que Novak. Mas Novak não joga muitos torneios. Não jogou antes do Australian Open ou de Wimbledon e jogou a um nível alto nesses torneios”, recordou McEnroe.
“A lesão ajudou-me a entender que muita coisa está na cabeça”
Carlos Alcaraz quebrou o silêncio depois de quatro meses afastado.
O regresso “não foi uma decisão fácil”, disse na conferência de imprensa que antecedeu o torneio nova-iorquino.
“Precisava de treinar aqui, competir de novo e sentir o ambiente. É um teste e sinto-me ótimo”, confidenciou o vencedor de dois US Opens, em 2022 e 2025.
“A lesão ajudou-me a entender que muita coisa está na cabeça. Tenho de confiar na minha equipa, nas pessoas que dizem que vai ficar tudo bem”, sustentou.
“Tenho de me apresentar a 100% e manter-me longe do medo”, rematou o espanhol de 23 anos, cujo primeiro adversário será o russo Roman Safiulin, 98.º do ranking.
Sabalenka à procura do tri e da confiança
Aryna Sabalenka chega ao hard court de Nova Iorque, palco do último Grand Slam da temporada, sem ter vencido nenhum dos três anteriores.
A bielorrussa foi eliminada nos quartos de final de Roland Garros — onde assumiu que a sua mente tinha entrado num “lugar escuro e profundo” — e na quarta ronda de Wimbledon.
Pelo caminho, acumulou outros desaires inesperados. Madrid, Roma, Berlim, Toronto e, mais recentemente, Cincinnati, onde perdeu frente à checa Sara Bejlek, atual 29.ª da WTA, ajudam a desenhar a fotografia de uma temporada atípica.
Os três títulos conquistados surgiram em março, em Miami e Indian Wells, nos Estados Unidos, e em Brisbane, em janeiro, na Austrália.
Apesar da época menos consistente, a bicampeã de Flushing Meadows — nove vitórias e uma derrota no torneio — procura tornar-se a primeira mulher desde Serena Williams, entre 2012 e 2014, a conquistar três US Opens consecutivos.
A colombiana Camila Osorio, 58.ª da hierarquia, será a primeira adversária, num quadro onde poderá encontrar Elena Rybakina, Jessica Pegula, Coco Gauff, Iga Swiatek ou Mirra Andreeva.
Neste caminho para recuperar animicamente e contrariar o cenário da maior crise desde que chegou a número 1 mundial, há três anos, Sabalenka manteve a confiança na equipa técnica e numa nova filosofia de treino, mais focada no controlo emocional e na recuperação física e mental.
A relação entre treinadores e jogadores, sobretudo nos momentos mais críticos de uma carreira, mereceu uma reflexão de John McEnroe na conversa com o 24noticias.
Conhecido pelo temperamento especial dentro do court, McEnroe manteve durante os seus anos de ouro uma forte ligação ao mexicano Tony Palafox.
“Treinar não é o trabalho mais fácil”, admite. “Há que procurar o equilíbrio” na relação entre os dois lados. O jogador “tem de concordar e acreditar” naquilo que o treinador pede. E o treinador tem de “convencer a 100%” o jogador de “que é aquilo que necessita de fazer”, explica.
Embora defenda que “o jogador tem de decidir o que acha que é o melhor”, reforça que treinadores e jogadores “talvez possam tentar descobrir o que funciona melhor para o jogador ou jogadora”, diserta.
“Reagrupar ou recarregar” pode ser uma solução para responder ao desgaste provocado pela sobrecarga de jogos “num curto espaço de tempo” ou pelas derrotas.
“Não há uma resposta definitiva”, confessa. Por vezes, a resolução pode simplesmente estar no tempo. Cita, a propósito, o exemplo de Coco Gauff, vencedora do US Open em 2023.
“Contratou um treinador para o serviço, Gavin MacMillan, o mesmo que trabalhou a biomecânica de Aryna Sabalenka, e parecia que não estava a funcionar”, recorda. “Talvez tivesse demorado mais do que queriam, mas está a compensar”, realça.
“Quando venci o US Open recebi 39 mil dólares”
Os prémios de jogo marcam, já se sabe, a edição de 2026 do US Open.
A organização elevou a distribuição do prize money para números estratosféricos: 108 milhões de dólares, com 5,5 milhões destinados a cada um dos vencedores de singulares. E agendou, para depois do torneio, uma reunião do Grand Slam Player Advisory Council, a comissão de jogadores que discute, entre outros assuntos, a distribuição deste bolo milionário gerado pelos Majors.
“Quando venci o US Open recebi 39 mil dólares”, confessou John McEnroe. “Agora são 120 mil se perderes na primeira ronda e 5,5 milhões se ganhares o torneio”, comparou. “Uau, isso é incrível”, exclamou o antigo número 1 mundial, apoiante das recentes exigências dos tenistas por uma maior e melhor distribuição das receitas dos Grand Slams.
“Os jogadores precisam de ser parceiros nestes Majors, mas, na minha opinião, ainda não são parceiros”, disse.
Apesar de reconhecer alguns avanços, mantém-se crítico.
“Que percentagem recebem do US Open?”, questionou. “É menos de 20%, se não me engano”, respondeu. “Não me parece uma distribuição muito justa”, acrescentou.
Nesse sentido, McEnroe defende medidas mais extremas para pressionar os organizadores dos grandes torneios.
“A única forma de alguma coisa mudar é, na minha opinião, os jogadores terem de boicotar, ameaçar boicotar e fazê-lo.” A ação, contudo, não é a desejável, alerta.
“Nem estou a falar do aumento dos prize moneys, isso é outro assunto”, esclareceu. “Há muitas coisas que os jogadores não têm”, alertou. “Muitos jogadores usam o dinheiro de hoje para a reforma ou para a recuperação de lesões. E quantos jogadores devemos apoiar? 100? 200? 500?”, questionou.
A discussão sobre o dinheiro, segundo John McEnroe, “não é para receberem prémios mais altos, do género: o vencedor ganha dez milhões. Não. É sobre o todo. E isso é algo que vai continuar”, antevê com a certeza de que o tema dinheiro continuará a ser uma parte cada vez maior da história do ténis.
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