Conheceu incontáveis líderes políticos de muitos países e teve ocasião de conversar e opinar com personagens históricas tão diferentes como Putin e Sarkozi. Destas vivências criou a experiência que lhe permitiu escrever “O divorcio das Nações”, um livro que retrata de forma precisa e optimista estes tempos confusos e desanimadores. Conversar com João Vale de Almeida é uma lufada de ar fresco no calor da refrega em que estamos - nós, o mundo inteiro.
Este livro é muito pessoal, não estava à espera que usasse tanto as suas experiências, o que o torna muito mais interessante. É como se estivéssemos dentro dos acontecimentos. Estamos a falar de situações muito tristes, é raro o dia em que há uma boa notícia.
É raro, é raro...
Aumentou a produção de vinho, pronto, é uma boa notícia. Mas não são essas que procuramos.
A história é cíclica, volta repetidamente a um lado negativo e depois passa para o lado positivo. E neste momento estamos a ir, estamos já, na parte negativa do círculo. Não gosto de marcar datas, mas talvez o ataque às Torres Gémeas seja o que marcou o começo do século XXI, e também o que marcou uma série de compromissos e descompromissos dos americanos. Desinteressaram-se pela América do Sul e passaram a interessar-se pelo Oriente e a região do SAEL. Concorda?
Concordo. Escrevi o livro por várias razões, a primeira das quais porque gosto de escrever, quer em inglês, quer em português, e fui há muitos um jovem jornalista.
A segunda razão é o dever da partilha. Acho que as pessoas devem, na medida do possível, partilhar as experiências que tiveram para que outros possam beneficiar disso. E como tive a sorte, o privilégio, de estar em alguns sítios, acompanhar alguns acontecimentos e conhecer algumas pessoas a que nem todos têm acesso, e ainda por cima, enquanto fui funcionário europeu, fui sempre pago, e bem pago, pelos contribuintes europeus. Acho que tenho o dever de retribuir alguma coisa.
Também me formei na antiga Escola Pública, no Pedro Nunes, e na Faculdade de Letras da Clássica, portanto pago pelo Estado.
É Letras, o seu background?
Não, sou de História. Como estava a dizer, sinto que tenho o dever de retribuir o que recebi. Por outro lado, fui-me apercebendo ao longo destes anos, e nos últimos ainda mais, que estávamos a viver uma situação excecional, no sentido de ser uma viragem histórica e que nem todos estávamos a perceber. Acho que, nesse sentido, o livro é útil, aparece numa altura certa.
O próprio título que inventei há uns três anos provou ser correto também. Acho que estamos num ponto de viragem, de transição entre um mundo que nós dávamos como quase adquirido depois do fim da União Soviética, e que de facto não estava.
Depois da Segunda Guerra e depois do fim da Guerra Fria, tudo nos parecia o fim da História, como o Foucault dizia, mas de facto não é. Estamos em transição para algo que ainda não conhecemos. E que não parece nada bom.
Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, que aprecio, fez um discurso agora em Davos, em que mostrou claramente a situação trazida pela mudança da política nos Estados Unidos.
Finalmente, um aliado dos Estados Unidos disse na cara de Trump aquilo que precisava de ouvir.
Às vezes os vizinhos próximos têm essa capacidade.
E falou de rutura. Em vez de falar de transição, falou de rutura.
Os historiadores, daqui a uns anos, qualificarão este período, mas já sabemos que estamos em tempos de grande volatilidade, e, portanto, de grande perigosidade. E, particularmente, para a Europa, porque face a dois desafios que não esperávamos ter, sinceramente.
Não esperávamos que Putin enveredasse por esta via imperialista. E também, ainda menos, esperávamos que os Estados Unidos preferissem atacar os aliados do que atacar os adversários. E portanto, é uma situação nova.
Por outro lado, temos a China em plena emergência. A Europa tem que estar preparada. E quando falo da Europa, falo de Portugal, obviamente, também.
Para mim, é a crise mais difícil da Constituição Europeia e a crise mais difícil do Ocidente, no contexto internacional, desde o fim da Guerra Fria, desde a Segunda Guerra Mundial.
Acha que estamos a caminhar para a distopia do Orwell, como tenho dito nos meus artigos?
É possível, é possível. Há pessoas que viram coisas antes e que imaginaram coisas antes. Coisas que nós pensávamos que nunca veríamos. Mas, pronto, pode ser.
Enfim, tudo é possível. E quem tem funções de responsabilidade, mas também todos nós como eleitores, tem que ter consciência da situação.
Esse é o principal motivo do meu livro, partilhar a minha preocupação, dar algumas explicações de como é que chegámos aqui, para perceber que as coisas não acontecem de um momento para o outro.
Optei por escolher os 25 anos porque me parecem particularmente ilustrativos de uma série de processos, de uma série de desenvolvimentos que, no fundo, acabaram no que temos hoje. E tento, ao longo do livro, identificar nestes 25 anos os acontecimentos-chave.
Como disse também, acho que o século começou com os ataques às Torres Gémeas, 9-11, o “11 de setembro”, e depois identifiquei quatro anos que me pareceram críticos: 2001 por isso, mas também pela adesão da China à Organização Mundial do Comércio, que dá o toque final na grande globalização; depois ,2008, com a invasão da Geórgia pela Rússia, que foi o primeiro sinal das intenções de Putin, que nós, europeus, talvez tivéssemos descurado um pouco; e a crise financeira, obviamente, que foi a primeira grande machadada no capitalismo financeiro internacional, quer dizer, alguns consensos que havia e que foram postos em causa; finalmente, 2016, por causa da chegada do populismo: Brexit e Trump; e 2022, a invasão generalizada da Ucrânia pela Rússia.
Houve outros anos que podíamos contar, por exemplo, em 2017, quando Xi Jinping obteve do seu partido a garantia de que podia ter mais que dois mandatos e que, no fundo, vai ser presidente da China até ao fim dos seus dias.
Há aquele vídeo daquela cena terrível em que o ex-presidente chinês que está ao lado do Xi Jinping é levado quase à força do salão do Congresso do PCC. Aquilo é muito simbólico. Não bastava ter sido afastado, tinha de ser à frente de todos...
E é simbólico, altamente simbólico.
Portanto, tentei, para também interessar os leitores, identificar momentos que me pareceram chave, alguns que vivi, outros que observei, e que me pareceram importantes para as pessoas perceberem que o que está a acontecer agora, como tudo na História, é o resultado de uma série de processos, e que, por isso, e esse é o lado otimista do livro, também podemos contribuir para que as coisas não se agravem excessivamente e podemos tentar orientar a história num sentido que seja mais favorável aos nossos valores.
Não sermos fatalistas, é isso?
Não sermos fatalistas, acho que o fatalismo é uma herança que recebemos em Portugal, não sei se dos árabes, não sei de quem é que foi, mas é um defeito nacional muito forte.
Portanto, acho que, de alguma maneira, na Europa e no Ocidente, em geral, há esta ideia de que o Ocidente está em declínio, que a Europa está em declínio, que está tudo em declínio. Enfim, não é que temos problemas e que podemos fazer melhor.
Mas não acha que a Europa esteja em declínio?
Acho que, sinceramente, se perguntar a uma família da classe média chinesa a que é que aspiram, talvez não consigam dizer porque não podem dizer, mas, obviamente, acho que aspiram mais a ter o nosso nível de conforto, o nosso nível de proteção social, o nosso nível de liberdade, do que o que têm atualmente na China.
Para não falar de uma classe média russa, que, coitada, deve estar a sofrer imenso, na pele, porque há gente a morrer todos os dias, mas também na qualidade de vida, no custo de vida e tudo isso. Se for perguntar aos nossos amigos africanos, coitados, obviamente, não há qualquer espécie de dúvida.
Quem é que quer emigrar para a Rússia? Quem é que quer emigrar para a China? Quem é que quer emigrar para a Venezuela ou para Cuba? Quem é que quer emigrar para os Estados Unidos, hoje em dia?
Portanto, nós temos que ter, digo isso no livro, devemos começar por ter mais confiança naquilo em que acreditamos. Se acreditamos que a democracia liberal, representativa, com todas as suas fragilidades, é, de facto, o sistema melhor que todos os outros, embora não seja perfeito, temos que nos bater por isso. E há debates agora em Portugal sobre essas coisas.
Não quero entrar na situação portuguesa, mas é preciso termos mais confiança no sistema em que acreditamos, nos valores em que acreditamos, inclusive nos valores europeus, da integração europeia, da paz na Europa, da cooperação, abertura das fronteiras, circulação das pessoas, tudo isso. Porque se não tivermos essa confiança não vamos a lado nenhum.
E no contexto atual da relação transatlântica também temos que dizer, “too much is too much”. Temos que dizer a Trump que aqui há linhas que não pode atravessar: desculpe lá, porque senão vamos ter um problema e vai ter um problema.
E não é só termos mais confiança, temos que ser algumas vezes mais assertivos, menos ingénuos, - como digo no livro - menos ingénuos e menos arrogantes ao mesmo tempo.
Se fizermos tudo isso e se trabalharmos bem com os nossos aliados, agora dificilmente com a América, mas, por exemplo, com o Canadá, com os outros países do G7, e com outros países que talvez não subscrevam exatamente todos os valores que nós subscrevemos, mas com os quais podemos fazer plataformas de entendimento de uma forma flexível.
Se tivermos alguma criatividade na política externa e nas relações externas. Se conseguirmos fazer tudo isso, poderemos ultrapassar esta fase. E a América também vai evoluir, Trump não é eterno, como disse o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.
Quando estudei Economia em Londres, li “Um estudo de História”, do Toynbee que narra as peripécias de 19 civilizações que prosperaram e inevitavelmente decaíram. Considerando as teses do Toynbee, a Europa está num período de decadência.
Quando a Europa dominou o mundo, não foram os países europeus em concertação uns com os outros, foi antes em competição uns contra os outros.
Isto é, a Europa nunca foi unida, a Europa foi sempre um saco de gatos. Essa competição já não existe, hoje em dia tem todas as marcas da decadência, inclusive no luxo em que nós vivemos. Quando vejo, por exemplo, uma ópera em Viena, aquele cenário fabuloso, aqueles músicos fantásticos, e aquela audiência lindamente vestida, aquilo para mim é a civilização europeia no seu melhor. E é também um sinal de decadência.
Já antes da situação atual achava que a confiança da polÍtica da Alemanha da Chanceler Merkel em relação à Federação Russa era completamente errada, porque há muitos anos que a Europa não tem exército, não tem força própria, e depende para a sua segurança energética de todos os seus inimigos. Quem eram os fornecedores da Europa? Putin, que sempre foi um inimigo potencial, a Nigéria...
Putin não mudou a coisa nenhuma. Realmente, se há alguma coisa dele que não mudou, é a sua ambição de reconstituir o território da União Soviética.
Posso dizer-lhe as frases de Putin, que conhece, com certeza. Que a queda da União Soviética foi o pior acontecimento geopolítico do século XX. Que o Império Euroasiático vai de Vladivostok a Lisboa. Foi a única vez que o ouvi a falar de Lisboa: Lisboa é simbólica, porque é a ponta.
A questão da América é diferente. Há quem diga que Trump é que está a destruir a América, e há quem diga que Trump reflete o que a América é. Lembro-me que achava que Salazar era o culpado da nossa desgraça, e anos depois da Revolução percebi que, nós é que somos os responsáveis, e que Salazar esteve lá aquele tempo todo porque o deixámos. Acha que Trump é uma desgraça? Mas, do mesmo modo, Trump é o resultado da desgraça que os americanos são, porque os americanos são muito violentos, muito egoístas. Acha que essa tríade se está de facto a formar?
A China não precisa fazer nada. A China só ganha em ficar fora da competição militar. Pode esperar paulatinamente que os Estados Unidos e a Europa se desentendam enquanto constrói a sua Rota da Seda. Que inclui Sines, aliás.
Então, esta ideia dos blocos tem pernas para andar? É o que vai acontecer?
Os paradigmas estão a mudar, e identifico três, se quiser, para facilitar o raciocínio. O primeiro é à escala global. Estamos a passar de um multilateralismo que não era perfeito, e da vigência do primado da lei que também não era perfeito, mas que nos dava alguns equilíbrios e alguma tranquilidade na cena internacional. Baseava-se, no fundo, no sistema das Nações Unidas, no sistema de Bretton Woods, e mais uma série de tratados.
Agora, estamos a passar daí para um novo paradigma que tem muito mais a ver com a ideia das esferas de influência, dos grandes blocos continentais, se quiser, dos homens fortes, enfim, o poder pela força, tudo isso que já conhecemos no século XIX e em parte no século XX. Há um regresso a esse tipo de paradigma. E isso é uma tendência forte, vamos ver se se concretiza ou não.
O segundo paradigma que me parece importante é na relação transatlântica, dentro do ocidente. O G7, por exemplo, é que o paradigma anterior, aquele em que vivi e trabalhei nas minhas várias funções. É aquele em que, basicamente, nós, os americanos, e também os japoneses e outros, tínhamos como objetivo conter a Rússia e a China.
Protegermo-nos da Rússia e das suas intenções imperialistas, eventualmente, na sequência da Guerra Fria, de uma outra maneira, mas na mesma lógica de contenção, e a relação à China, em termos da emergência desse grande poder, ou da reemergência, porque de facto a China já foi muito poderosa, e agora está a voltar a ser - às vezes esquecemo-nos disso.
Já foi muito poderosa no século XVI, é isso?
Claro, estamos a assistir a uma reemergência da China.
E o terceiro paradigma que se está a alterar, a meu ver, em relação à União Europeia, como bem disse, o projeto da União Europeia era um projeto de paz. Tinha o objetivo de garantir que os Estados europeus não perdiam tempo em guerras entre eles, e sobretudo entre a França e a Alemanha, na sequência das duas guerras mundiais que tiveram o epicentro na Europa, e garantir a paz dentro das fronteiras da União Europeia.
O que me parece que é o novo paradigma da União, que será a nova fronteira da integração europeia, é garantir não só a paz dentro da União, mas também para lá da União, ou seja, na sua vizinhança. Começando no primeiro ciclo à volta da União, que vai desde a Rússia até Marrocos, passando pelos Balcãs e para a Turquia e para o Próximo Oriente. Mas também, naturalmente e idealmente, paz no mundo, garantir que nós não somos uma ilha de multilateralismo regional num oceano de confrontação e de lei do mais forte, porque nós não conseguiremos sobreviver numa situação dessas.
Nós, quem, a Europa?
A meu ver, o projeto europeu não pode sobreviver se estivermos num oceano de confrontação entre grandes poderes. Portanto, nesse aspeto, é um momento existencial para a União Europeia. Garantir que o que vem a seguir é algo que nos seja favorável, aos nossos valores e aos nossos interesses.
Portanto, tem aqui vários paradigmas que estão em alteração.
Vê uma evolução positiva nestas questões? Não estou a ver um cenário em que a União Europeia consiga tornar-se autossuficiente militarmente. Todos os poderes têm de ser autossuficientes militarmente, porque senão estão a pedi-las, como se costuma dizer.
Assim como o caso os Estados Unidos, também me preocupa, porque se Trump sair para ser substituído pelo J.D. Vance, não estou a ver nenhum progresso da parte dos Estados Unidos? A Europa parece-me entalada nos próximos séculos.
Pois, não caia no fatalismo em que estávamos há bocadinho a dedicar-nos exclusivamente ao presente. As perspetivas não são muito boas neste momento, sejamos claros, por isso é que escrevi o livro, por isso é que lhe chamei o Divórcio das Nações e não lhe chamei o Matrimónio e a Extinção. A coisa está mais no sentido do divórcio do que da reconciliação.
Dito isto, em relação aos Estados Unidos, por exemplo, já disse publicamente e repito, acho que é muito cedo para desistirmos dos Estados Unidos, é muito cedo para considerarmos que os Estados Unidos estão perdidos para nós. Se virmos o que se passou nestes últimos 25 anos, e eu vivi lá nove desses 25 anos, os Estados Unidos elegeram sucessivamente pessoas tão diferentes como George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump, Joe Biden e outra vez Donald Trump...
Barack Obama já disse numa conferência que o Trump é o resultado, é uma reação dos americanos ao facto de terem tido um presidente negro. Ou seja, as forças conservadoras, reacionárias, cristãs, ultra-nacionalistas, reagiram à presidência Obama, (que foi muito fraca porque não teve o Congresso e conseguiu fazer muito menos do que queria). Trump encarrega-se ele próprio de dizer mal de Barack Obama e de “Sleepy Biden”, em quase todas as declarações públicas.
O que digo é que, acho que é objetivo dizer que os americanos estão à procura do seu caminho também, com todas as contradições que nós também temos. Essas flutuações na votação refletem algumas tendências permanentes. Escrevo no livro sobre a tendência isolacionista americana, falo do excecionalismo americano e da tensão entre essas duas forças.
Sempre existiram essas situações.
Então, essas duas valências que sempre existiram e de vez em quando uma prevalece sobre a outra. Mas, enfim, se nos concentrarmos nisso podemos pensar que eventualmente os Estados Unidos vão evoluir e que Trump para já não é eterno, como diria o nosso presidente, e, segundo que pode ser que haja evoluções dentro dos Estados Unidos. São uma sociedade muito dinâmica, um país muito dinâmico, com força, sociedade civil muito forte, individualidades muito fortes, com grandes universidades, grandes empresas, grande criatividade. Com uma imigração que lhes dá sempre uma grande renovação e uma grande energia nova. Vamos ver o que acontece com os Estados Unidos; não acho que devamos já condená-los e considerar que já não há nada a fazer.
Em relação à Rússia, se há alguma coisa que não vai mudar é que vão continuar a ser nossos vizinhos, porque não podemos mudar a geografia, e portanto, vamos ter que, de alguma maneira, encontrar modos de relacionamento com o nosso grande vizinho de leste. Vamos ver o que acontece depois de Putin. Putin não é muito velho (73 anos), tem mais cinco anos do que eu, e está em boa forma física, se calhar vamos tê-lo mais algum tempo. Vamos ver como evolui a nossa relação com eles depois, que depende essencialmente do que se passar na Ucrânia e nas consequências dessa guerra.
Em relação à União Europeia, eu já vi muitas crises da União. Em 40 anos de trabalhar para a UE já vi crises que foram consideradas existenciais, já várias vezes ouvi dizer que era o fim da União Europeia, e nunca foi, e de facto continuamos a crescer e continuamos a alargar, ainda agora mais um país se juntou ao Euro, por exemplo. Quando estive na América vivi toda a crise financeira e todos os dias me diziam que era o descalabro, mas acabou por recuperar.
Como disse no livro, quando estava na UE, diziam sempre que era o fim da União, mas não foi, mais países voltaram à União, a Grécia não saiu, Portugal recuperou, enfim, temos uma resiliência muito considerável.
Agora temos um enorme desafio da segurança e defesa, mas não estou tão pessimista como o meu amigo, porque acho que começamos uma pequena revolução na Europa em termos da segurança e defesa, e nós já temos grandes capacidades, só que elas estão muito dispersas, se aumentarmos agora o investimento como estamos a fazer - e aí é preciso reconhecer que Trump foi instrumental em obrigar-nos a assumir a nossa responsabilidade em termos de defesa - acho que o que está a passar na Alemanha, por exemplo, em termos de investimento na defesa é historicamente importante, espero que isso aconteça nos outros países, e sobretudo, e deixava este ponto para a reflexão também, se conseguirmos aliar o investimento na defesa com a renovação da nossa capacidade industrial e da nossa capacidade tecnológica.
Veja o que aconteceu na América, onde o investimento na defesa estava diretamente ligado aos investimentos tecnológicos, grande parte das inovações tecnológicas vêm do investimento na defesa, portanto, se conseguirmos essa conjugação virtuosa entre o investimento na defesa, a renovação da nossa capacidade industrial e uma dimensão tecnológica, de inovação tecnológica, e na medida em que fizermos isso, aumentarmos a competitividade da nossa economia. Estou a falar também de países como Portugal, e isso seria uma situação win-win, onde ganhávamos maior capacidade de autodefesa, e aumentávamos a nossa competitividade industrial e tecnológica. Parece-me que é aqui, a meu ver, uma nova fronteira da integração europeia, a mudança do paradigma em relação ao anterior.
Enfim, estou de acordo, dependemos excessivamente do guarda-chuva da segurança nuclear americana, dependemos excessivamente do aprisionamento energético da parte de países que não eram, digamos, confiáveis, de alguma maneira, e portanto daí a revolução da energia verde, das novas fontes de energia que possam ser autónomas nossas - no ano passado conseguimos reduzir o consumo do fóssil. Se conseguirmos mais autonomia nas redes de abastecimento – daí a importância do acordo com o Mercosul.
E a Gronelândia? Como vê a solução para esse problema?
Espero que acabe bem. Começou muito mal. Trump exagerou na abordagem, mas já recuou em Davos.
Portanto não vai invadir a Gronelândia?
Acho que não. Trump é pouco civilizado, digamos assim, mas acha que há um problema de defesa com o Ártico, e nós também achamos. Temos que agir no quadro da parceria da Aliança Transatlântica e fazer um acordo que aprofunde a situação. Os americanos e nós temos que criar uma defesa conjunta. Mas temos que ser muito claros, senão Trump pode achar que pode fazer o que quiser.
Está a regressar a Doutrina Monroe – agora chamada Donroe...
Conheço bem os sul-americanos, vivi dez anos no Brasil, têm uma enorme desconfiança em relação ao “imperialismo norte-americano”, traduzido na ingerência nos assuntos internos de muitos desses países. É uma relação de amor-ódio; gostam muito de ir fazer compras a Miami, mas acham que os Estados Unidos são uma potência odiosa.
É evidente que Trump nunca conseguirá conquistar militarmente a América do Sul, mas volta à anterior política norte-americana, que só terminou com o atentado às Torres Gémeas em Nova Iorque, quando perceberam que os seus grandes inimigos eram os países e movimentos muçulmanos. Perceberam que o “perigo comunista” estava afastado e deixaram o sub-continente evoluir politicamente, sem interferir. Mas a Venezuela marca a diferença. É um absurdo terem prendido o Presidente e deixado o regime político bolivariano intacto – porque se estão nas tintas como o país é governado, desde que os deixe ficar com o petróleo.
Qual é a sua perspectiva para o futuro?
Não estou totalmente pessimista. Aliás, termino o livro com umas palavras mais positivas.
Os diplomatas são sempre uns optimistas.
Bem, como lhe estava a dizer, não devemos dar a América como perdida, é demasiado cedo, também não podemos ter a mesma atitude com a Europa. Agora, temos de passar este mar alteroso e chegar a bom porto. Fui o primeiro embaixador da União Europeia na Grã-Bretanha depois do Brexit e portanto sei bem o que se está a passar naquele país.
Foi o Nigel Farrage, que conseguiu enganar o eleitorado com a promessa de que o dinheiro que estavam a gastar na União Europeia ia passar a ser usado para melhorar o Serviço Nacional de Saúde.
Pois foi, uma campanha totalmente demagógica. E repare que agora o partido dele, Reform, está novamente a subir nas sondagens. O país está em grande crise existencial, ainda não encontrou o seu caminho.
Temos que nos convencer que a Europa precisa de superar esta crise, e para isso temos de nos convencer a agir em conformidade.
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