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Os novos dados do INE (Instituto Nacional de Estatística), lançados no final de junho, dão a conhecer a nova realidade portuguesa. A já conhecida expressão "somos 10 milhões" deixou de ser fiável, pois agora Portugal passou a ser um país de 11.424.031. Deste número 1.597.539 pessoas são estrangeiras, o que corresponde a um aumento de 36 809 pessoas relativamente a 2024 (0,32%). Este número representa agora 14% da população residente.
Em 2025, os dados do INE indicam que residiam em Portugal 574.195 cidadãos de nacionalidade brasileira, o que corresponde a 35,9% da população estrangeira residente. Esta nacionalidade destaca‑se, assim, como a maior comunidade estrangeira no país.
A nacionalidade angolana era, em 2025, a segunda principal nacionalidade estrangeira, abrangendo 103 140 pessoas (6,5% do total de estrangeiros), o que representa igualmente um acentuado aumento em comparação com 2021 (33.099 em 2021).
A nacionalidade indiana, com 93 683 pessoas a residir em Portugal, é a terceira mais representativa. Cabo Verde (76 099), Nepal (56.866), Bangladesh (56.724) e Guiné-Bissau (53.555) integram também o conjunto das principais nacionalidades estrangeiras em 2025.
Ainda antes de se saberem estes números, nas últimas eleições em Portugal, as presidenciais de 2026, o candidato a Belém e líder do partido Chega, André Ventura, espalhou cartazes pelo país com o seguinte slogan: “Isto não é o Bangladesh”. O uso desta frase foi inspirado na música, feita por Inteligência Artificial, chamada “Bangladesh” e que chegou aos milhões de visualizações nas redes sociais.
O 24notícias falou com o professor Hans Harder, da Universidade alemã Heidelberg, sobre as especificidades do país, tendo questionado sobre a referência ao país como propaganda política. Na perspetiva do académico, o "Bangladesh ainda é visto como um país extremamente pobre e atrasado, mas essa imagem já não corresponde totalmente à realidade”. O investigador distancia também o país do extremismo islâmico: “O islamismo praticado no país é geralmente mais moderado e liberal”.
Um país com menos de 55 anos
A origem do Bangladesh remonta à divisão da Índia, em 1947. Com a independência do domínio britânico, o território foi dividido entre a Índia e o Paquistão. "O que era chamado de Paquistão Oriental naqueles dias é o que depois, em 1971, se tornou Bangladesh, um estado separado", explica o professor.
"Uma coisa que eu queria explicar é a relação entre Bengala Ocidental (estado indiano) e Bangladesh. Em 1947, a região histórica de Bengala foi dividida de acordo com a maioria religiosa da população", acrescenta. A parte ocidental da região, de maioria hindu, permaneceu integrada na Índia, enquanto a parte oriental, de maioria muçulmana, passou a fazer parte do Paquistão como Paquistão Oriental e depois Bangladesh. Segundo Hans Harder, esta divisão marcou profundamente a história da região e esteve na origem de conflitos políticos e identitários que perduram até hoje.
Para o especialista, uma das questões centrais da sociedade bangladeshiana continua a ser a forma como os cidadãos definem a sua identidade: "A pergunta é: sou muçulmano primeiro ou sou bengali primeiro?". Apesar disso, rejeita a ideia de um conflito direto entre religião e cultura. "Não é que a língua e a religião estejam em conflito. Elas coexistem muito bem. A questão é saber qual delas constitui o principal marco identitário."
O professor explica que este compromisso com a língua é um dos elementos fundadores do estado do Bangladesh. Recorda que o Movimento da Língua Bengali foi determinante para o processo que culminou na independência do Bangladesh, em 1971.
"As pessoas lutaram pela sua língua. O bengali nunca recebeu o reconhecimento que deveria ter tido no Paquistão. Era a língua falada por mais de metade da população, mas os líderes paquistaneses recusaram atribuir-lhe o estatuto de língua oficial e escolheram o urdu. Essa tensão entre a identidade religiosa e a identidade linguística tornou-se um dos principais fatores da política bangladeshiana."
Em relação à política, Bangladesh é um "país jovem", "nem aos 55 anos chega" sendo, atualmente, considerado uma democracia, embora a história recente seja marcada por instabilidade. "Há eleições regulares, mas também situações difíceis durante os processos eleitorais, com violência e irregularidades", explica Hans Harder.
O especialista destacou os acontecimentos de 2024, quando protestos contra medidas governamentais levaram a confrontos violentos. "As forças estatais foram acusadas de matar centenas de pessoas durante os protestos. Isso levou à queda do governo." A então primeira-ministra, Sheikh Hasina, acabou por abandonar o país.
A emigração e a procura de oportunidades
A emigração continua a ser uma realidade para muitos bangladeshianos, motivada sobretudo pela procura de oportunidades de vida melhores. A Índia é um dos principais destinos, embora existam também comunidades significativas em vários países europeus.
Segundo o professor Hans Harder, a migração está intimamente ligada à elevada densidade populacional do país. "É um país muito pequeno, mas tem cerca de 170 milhões de habitantes. É como juntar a população da Alemanha, da França e da Hungria num espaço muito reduzido", explica o professor.
Apesar destes desafios demográficos, o Bangladesh registou uma transformação económica assinalável nas últimas décadas. Depois de ter nascido, em 1971, como um dos países mais pobres do mundo, conseguiu reduzir significativamente a pobreza e consolidar-se como uma das economias de crescimento mais rápido do sul da Ásia.
Grande parte deste crescimento foi impulsionada pela indústria têxtil, atualmente um dos pilares da economia bangladeshiana e responsável por uma parte significativa das exportações do país. "Muitas das roupas vendidas em lojas de moda europeias são produzidas no Bangladesh."
Para Hans Harder, "as pessoas continuam a pensar no Bangladesh de há 30 anos. Já não é assim. O país fez muito progresso económico." A informação de Hans Harder é corroborada pelos números do World Bank, que mostra a ascensão do país nos anos 70, após um pico profundo na economia.
O académico destaca ainda o papel da geografia no desenvolvimento do país. Situado na vasta delta formada pelos rios Ganges e Brahmaputra, o Bangladesh "é um território extremamente fértil. Em alguns locais é possível colher arroz até quatro vezes por ano."
A abundância de água constitui, simultaneamente, uma vantagem e um desafio. "É por isso que existem inundações frequentes, mas também uma enorme fertilidade dos solos."
Uma cultura rica e língua global
Apesar dos progressos económicos registados nas últimas décadas, Hans Harder considera que a imagem do Bangladesh continua a estar presa a estereótipos desatualizados. "As pessoas continuam a pensar no Bangladesh de há várias décadas. Ainda o veem como um dos países mais pobres do mundo, com baixos padrões de vida. É essa imagem que permanece no imaginário coletivo."
"O termo ' Terceiro Mundo' é uma palavra suja, que já não se usa quase hoje em dia, mas continua presente na forma como muitas pessoas olham para o Bangladesh", considera o professor sobre a perceção do país.
Ao contrário de outros países de maioria muçulmana frequentemente associados ao extremismo, Harder defende que essa imagem não corresponde à realidade deste país. "O Bangladesh é de maioria muçulmana, mas não é conhecido pelo extremismo ou pelo terrorismo como acontece com o Afeganistão, o Paquistão ou o Iraque."
Na sua perspetiva, o Islão praticado no Bangladesh caracteriza-se por uma abordagem mais moderada.
"O Islão bangladeshiano tem características próprias. É, de certa forma, mais liberal. Não encontrará o mesmo nível de restrições à vida quotidiana ou de segregação entre homens e mulheres que existe noutros países. O Bangladesh não é o Afeganistão dos talibãs."
O especialista rejeita igualmente algumas das narrativas utilizadas por movimentos anti-imigração na Europa, segundo as quais os imigrantes bangladeshianos não se integram nas sociedades de acolhimento.
"Diz-se muitas vezes que vêm tirar empregos ou que não se adaptam ao nosso modo de vida. Mas isso é injusto no caso do Bangladesh". Pela sua experiência, os bangladeshianos revelam uma elevada capacidade de adaptação. "A minha impressão é que, comparados com pessoas de outras partes do mundo, os bangladeshianos adaptam-se muito bem às circunstâncias. São pessoas práticas, comunicativas e conseguem integrar-se com facilidade."
Hans Harder destaca ainda a riqueza da língua e da cultura bengali, frequentemente desconhecidas fora do sul da Ásia. "O bengali é uma das seis ou sete línguas mais faladas do planeta, tem entre 600 e 1000 anos de história literária e é comparável à tradição de muitas das grandes línguas europeias."
Segundo o investigador, a literatura bengali ocupa um lugar central na cultura da região, abrangendo poesia, romance, conto, teatro e uma forte tradição oral.
Uma das figuras maiores dessa tradição é Rabindranath Tagore, distinguido com o Prémio Nobel da Literatura em 1913. "Tagore foi o primeiro laureado não europeu com o Nobel da Literatura."
O investigador refere ainda a influência do sufismo (dimensão interior do Islão) "que tem uma presença importante no Bangladesh e contribuiu para o desenvolvimento de diversas tradições culturais e artísticas."
"O Bangladesh não é um lugar sem cultura. Tem uma tradição literária muito rica, um teatro vivo, música tradicional e inúmeras manifestações folclóricas ligadas aos rios e à vida rural", elucida o académico.
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