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O combate à hipertensão pode começar muito antes da idade adulta, ainda na infância. Essa é a premissa do projeto “Heróis contra a Hipertensão”, uma iniciativa de literacia em saúde dirigida a crianças dos 5 aos 10 anos, apresentada a 25 de fevereiro, no DMIX Collective, em Marvila.
Desenvolvido por médicos portugueses, os médicos Patrícia Vasconcelos e Nuno Bragança, e com apoio científico e institucional exclusivamente nacional, o programa foi descrito como “um sonho tornado realidade” pela médica internista Patrícia Vasconcelos, da Unidade Local de Saúde Amadora-Sintra. A responsável sublinhou tratar-se de “um projeto 100% português”, concebido por dois médicos nacionais e apoiado por várias sociedades científicas, pela Fundação Portuguesa de Cardiologia e pela Cruz Vermelha Portuguesa.
A sessão contou também com a intervenção de António Chaves Costa, CEO da Tecnifar, laboratório que financia o projeto e que, segundo o responsável, encontrou nesta iniciativa “um alinhamento natural” com a sua missão.
Em causa está uma resposta a um problema de grande dimensão. Dados recentes indicam que quatro em cada dez portugueses sofrem de hipertensão, sendo que cerca de metade não tem a condição controlada, apesar de muitos estarem diagnosticados e medicados.
Entre crianças e jovens, estudos realizados na região de Lisboa apontam já para uma prevalência de pressão arterial elevada na ordem dos 8%, associada sobretudo à obesidade, sedentarismo e contextos socioeconómicos mais vulneráveis.
É precisamente dessa constatação que nasce o projeto: a ideia de que a prevenção deve começar cedo. Hábitos como o consumo excessivo de sal, o tempo prolongado de ecrã, a falta de atividade física, o stress ou o sono insuficiente instalam-se ainda na infância e acompanham os indivíduos ao longo da vida. “Mudar comportamentos no adulto é muito difícil. Se começarmos na educação, o impacto será muito maior”, defendeu.
Histórias, heróis e linguagem acessível para ensinar saúde
O projeto dirige-se a crianças entre os cinco e os dez anos e utiliza três e-books interativos que recorrem à narrativa e ao imaginário infantil para transmitir conceitos de saúde sem linguagem médica.
As histórias apresentam heróis inspirados na mitologia egípcia, que simbolizam diferentes dimensões da prevenção:
- Hátor — a empatia e a atenção aos sinais do corpo;
- Tot — o conhecimento e a literacia;
- Anúbis — a ação e a mudança de comportamentos.
Os “vilões” representam fatores de risco reais, como o consumo excessivo de sal, o sedentarismo, o stress, o ruído, a privação de sono ou a predisposição genética.
“As crianças não aprendem com definições. Aprendem com histórias. Queremos que levem estas mensagens para casa e influenciem positivamente as famílias”, explicou a médica, comparando o impacto esperado ao papel das crianças na promoção da reciclagem e da sustentabilidade.
Os e-books incluem conteúdos interativos e jogos didáticos; QR codes com informação científica dirigida a professores e encarregados de educação e atividades para serem realizadas em família, incentivando a mudança de hábitos no quotidiano.
Cada leitura dá origem a uma “medalha”, um certificado simbólico de “Guardiões da Saúde”, estratégia pensada para reforçar o envolvimento das crianças.
O primeiro volume, "As Aventuras dos Defensores da Saúde: A Ameaça Invisível", foi disponibilizado a 26 de fevereiro. O segundo, "A Armadilha da Lancheira", será lançado a 26 de março, e o terceiro, "O Plano do General Caos", chegará a 26 de abril.
“Intervir na prevenção também é tratar”: o papel da indústria
Para António Chaves Costa, CEO da Tecnifar, o envolvimento no projeto resulta de um alinhamento natural entre a missão da empresa e a necessidade de investir mais na prevenção.
“Somos um laboratório 100% nacional, com 56 anos de história, e sempre tivemos no nosso ADN a ideia de criar fórmulas para a vida. Isso não passa apenas por disponibilizar medicamentos, mas também por contribuir para melhorar a saúde através da literacia e da prevenção”, afirmou.
Fundada em 1969 e atualmente na terceira geração familiar, a empresa atua em várias áreas terapêuticas, do sistema nervoso central à área cardiovascular, respiratória e osteoarticular, e tem vindo a reforçar a aposta na saúde e bem-estar, incluindo dispositivos médicos e produtos não sujeitos a receita médica.
Segundo o responsável, a decisão de apoiar o projeto surgiu pela abordagem inovadora: “Historicamente trabalhámos mais na população adulta. Aqui a proposta é ir à raiz do problema, começar na infância, numa fase em que os comportamentos ainda se estão a formar. É um trabalho exigente e de longo prazo, mas é aí que se criam mudanças duradouras.”
António Chaves Costa defendeu que aumentar o conhecimento das crianças sobre saúde não é apenas educativo, pode ter impacto real em situações críticas. Recordou o caso recente do Rodrigo, de nove anos, que conseguiu salvar a mãe perante uma emergência médica, sublinhando que esse tipo de resposta resulta de informação transmitida de forma clara e sem tabus.
“Quando damos ferramentas às crianças, estamos a capacitá-las para cuidar de si e dos outros. Este projeto vai ajudar a criar gerações mais conscientes, capazes de evitar doença e melhorar a qualidade de vida.”
A implementação terá início com um projeto-piloto em cinco estabelecimentos de ensino, três colégios e duas escolas, com avaliação científica do impacto educativo e comportamental em parceria com a Universidade NOVA de Lisboa através da implementação de questionários nas escolas.
O objetivo a longo prazo passa por criar um modelo sustentável que possa ser alargado a mais escolas e integrado em estratégias educativas de promoção da saúde.
Para Patrícia Vasconcelos, a chave está na intervenção precoce: “Se queremos realmente prevenir, temos de começar na educação. Educar crianças hoje é formar adultos mais conscientes amanhã.”
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