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A série canadiana "Heated Rivalry" tornou-se um fenómeno cultural ao cruzar dois universos raramente associados: a intensidade do hóquei no gelo, tradicionalmente visto como símbolo de masculinidade, e uma narrativa assumidamente LGBTQIA+.
Produzida pelo canal canadiano Crave e lançada internacionalmente na HBO Max, a série conquistou milhões de espectadores e ganhou o rótulo de “série gay de hóquei”, segundo a Vogue.
O sucesso surge num contexto adverso. A atriz e ativista trans Laverne Cox alertou recentemente, em entrevista à revista The Cut, que “ninguém quer histórias queer neste momento” em Hollywood. Ainda assim, "Heated Rivalry" conseguiu ultrapassar esse bloqueio cultural, abrindo espaço para novas conversas sobre diversidade no desporto.
O impacto da série não se limitou ao ecrã. O jogador de hóquei Jesse Kortuem revelou à Out Magazine que decidiu assumir publicamente a sua homossexualidade depois de se rever na narrativa: “Adoro o jogo, mas vivi com um medo persistente. Perguntava-me como podia ser gay e continuar a jogar um desporto tão duro e masculino.” Jesse Kortuem acredita que existem “muitos jogadores a viver na sombra” que se sentiram tocados pela série.
Paralelos surgem também no hóquei feminino. Segundo a Pride, as atletas Anna Kjellbin e Ronja Savolainen, atualmente em equipas rivais na liga profissional norte-americana, vivem uma relação amorosa enquanto competem por seleções diferentes nos Jogos Olímpicos, uma dinâmica semelhante à dos protagonistas da série. Casos semelhantes multiplicam-se noutras modalidades: o jogador olímpico de hóquei em campo Nicolás Keenan, marido do novo primeiro-ministro neerlandês, assumiu nas redes sociais que se reviu na narrativa de amor secreto retratada na série, enquanto antigas estrelas olímpicas como Julie Chu e Caroline Ouellette recordam anos vividos no armário antes de assumirem a sua relação.
A pergunta impõe-se: estará Heated Rivalry a ajudar atletas a sair do armário? Os exemplos sugerem que sim. A série oferece representação num espaço onde ela quase não existia — o balneário, o gelo, o desporto de contacto —, desafiando a ideia de que orientação sexual e masculinidade são incompatíveis.
O hóquei no gelo em Portugal: da série "Heated Rivalry" aos clubes nacionais
Se o impacto cultural é evidente, poderá a febre do hóquei no gelo chegar a Portugal? Apesar de ainda ser uma modalidade pouco expressiva no panorama desportivo nacional, o hóquei no gelo tem vindo a consolidar uma presença discreta mas persistente no país. E esta pode aumentar com a construção de um estádio com as dimensões oficiais, em 2027, no Seixal.
Atualmente, existem quatro clubes ativos: Hóquei Clube do Porto, Ice Clube Covilhã, Vikings da Sertã e Luso Lynx, distribuídos pelo Porto, Covilhã, Sertã e Sintra. Estes clubes disputam o Campeonato Nacional, adaptado às limitações das infraestruturas, e concentram sobretudo atletas em idade de formação. O contexto ainda é marcado por constrangimentos logísticos e estruturais, incluindo a escassez de pistas com dimensões oficiais.
Segundo Cristina Lopes, coordenadora da modalidade na Federação de Desportos de Inverno de Portugal, 2026 pode ser um ano decisivo para o crescimento do hóquei no gelo no país, apesar da principal dificuldade continuar a ser a ausência de uma pista oficial. Atualmente, Portugal dispõe apenas de uma pista de pequenas dimensões nas Penhas da Saúde, a cerca de sete quilómetros da Covilhã. “É difícil termos apenas esta pista, ainda por cima numa localização específica, para todos os atletas que querem treinar regularmente”, explica ao 24notícias.
Apesar das limitações, o hóquei no gelo atrai praticantes de várias regiões, incluindo Lisboa, Castelo Branco, Sertã, Covilhã e Porto. Contudo, as deslocações frequentes representam um encargo significativo para muitas famílias, restringindo o acesso à prática regular. Devido ao tamanho reduzido da pista, os jogos da liga nacional disputam-se em formato 3x3, em vez do modelo oficial 5x5. “Treinar numa pista pequena e depois competir numa pista de dimensões olímpicas é uma diferença enorme. Nota-se nas paragens, nos passes, no posicionamento. É necessária uma adaptação significativa”, sublinha Cristina Lopes.
Alguns atletas do Porto treinam nas Penhas da Saúde e competem na Liga Ibérica, acentuando ainda mais o contraste entre treino e competição. Outras infraestruturas, como a pista de Elvas ou a de Viseu, deixaram de estar disponíveis, tornando a Penhas da Saúde a única opção viável, com funcionamento entre novembro e abril, dependendo das condições climatéricas.
Portugal integra a Federação Internacional de Hóquei no Gelo (IIHF), mas ainda não é membro pleno. A falta de pista oficial e de seleções completas impede o país de obter estatuto completo. Como alternativa, participa na Development Cup, competição destinada a países que ainda não reúnem todas as condições para integrar os quadros principais da IIHF. Esta competição visa promover a evolução da modalidade e aumentar a competitividade entre países numa fase embrionária.
Segundo Cristina Lopes, o interesse pela modalidade tem crescido de forma consistente: “De ano para ano há mais pessoas a saber que existimos. Recebemos mais e-mails, há mais comentários nas redes sociais. A resposta simples é sim, há mais interesse.” Questionada sobre o impacto da série “Heated Rivalry”, admite não saber se a curiosidade aumentou por causa da produção, mas reforça que qualquer forma de exposição pública ajuda a dar a conhecer o hóquei no gelo em Portugal.
A Federação mantém ainda uma postura inclusiva em relação à representação de atletas LGBTQIA+. “No desporto, e especialmente no hóquei no gelo, não há fronteiras, não há portas, não há cores nem orientações. Somos uma família. Todos são bem-vindos.”
O Ice Clube Covilhã e o futuro da modalidade
O presidente da direção do Ice Clube Covilhã, Luís Pires, descreve o hóquei no gelo nacional como estando ainda “numa fase embrionária”, mas em clara consolidação.
Fundado em dezembro de 2021, o clube está na quarta época desportiva e passou de dois atletas na temporada inaugural para 29 atualmente. A maioria integra os escalões de formação, confirmando a vocação formadora do projeto.
Nove dos 29 atletas são estrangeiros — oriundos de países como Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos, Colômbia e África do Sul — e nove são raparigas, integradas numa equipa mista que compete com regras adaptadas, sobretudo ao nível do contacto físico, devido à idade dos praticantes.
O clube treina na pista das Penhas da Saúde, que funciona apenas entre novembro e abril. Nos meses restantes, substitui o gelo pelo hóquei em linha, garantindo continuidade na preparação.
Luís Pires reconhece que a captação de novos atletas continua a ser desafiante. “O hóquei no gelo é um desporto pouco conhecido. Não entra naturalmente nas famílias como outras modalidades”, afirma.
O futuro da modalidade poderá passar pela construção de uma pista com dimensões oficiais no Seixal, projeto apontado para 2027, após acordo de cedência de terreno com a autarquia local. A concretizar-se, representará um marco histórico para o hóquei no gelo português.
Sobre o eventual impacto da série, o dirigente afirma desconhecer a produção e garante que não sentiu qualquer aumento de procura associado à mesma, nem situações relacionadas com os temas abordados na narrativa.
Jim Aldred, o selecionador que está a desenvolver o hóquei no gelo em Portugal
O selecionador nacional, Jim Aldred, antigo jogador canadiano da Ontario Hockey League, mudou-se para Portugal em 2017, tornando-se treinador principal da seleção masculina de hóquei no gelo, que tem participado em todas as edições da Development Cup organizadas pela IIHF. Depois de uma temporada a treinar na Suécia, regressou a Portugal, onde lecionou em campos de hóquei para crianças, fundou o clube recreativo Luso Lynx, criou uma liga de hóquei 3x3 e lançou o clube profissional HC Porto, que começou a competir na Liga Nacional de Hockey Hielo espanhola em 2023.
Jim Aldred acompanha de perto os quatro clubes portugueses e destaca os progressos já alcançados: seleção nacional ativa, liga 3x3 e arena de gelo em funcionamento. Ainda assim, considera que o verdadeiro salto qualitativo só será possível com a construção de uma arena olímpica completa.
Sobre "Heated Rivalry", Jim Aldred não tem muito a dizer: “Ninguém falou comigo sobre essa série. Por isso, não posso afirmar se teve impacto ou não.” Quanto à representação de atletas LGBTQIA+ no hóquei no gelo e ao eventual efeito no mundo real, o selecionador mostra-se tranquilo. Antigo jogador profissional, afirma que a realidade atual é mais aberta do que no passado: “Quando eu jogava, provavelmente já havia jogadores gays na liga, mas o assunto não era falado. Mantinha-se tudo em silêncio. O mundo mudou e hoje há mais abertura, não só no hóquei, mas em todos os desportos.”
Para Jim Aldred, a orientação sexual não interfere no desempenho desportivo: “Se conseguem competir a alto nível e jogar bem, não vejo razão para que não possam jogar. É melhor que uma pessoa seja honesta consigo própria do que esconder quem é durante anos.” Desde que assumiu funções em Portugal, garante não ter conhecimento de nenhum caso público de atletas a assumirem a sua orientação sexual nas equipas nacionais ou nos clubes portugueses.
O treinador acredita que o crescimento da modalidade dependerá sobretudo da consolidação das infraestruturas e da continuidade do trabalho de formação: “Estamos a construir algo novo. O potencial está lá, agora precisamos das condições certas para dar o próximo passo.”
Campeonatos em Portugal
O Campeonato Nacional de Hóquei no Gelo 3x3 tem como principal objetivo promover a evolução da modalidade em Portugal, garantindo competição regular entre os clubes e permitindo testar modelos que possam ser aplicados em futuras competições nacionais. De acordo com a Federação de Desportos de Inverno de Portugal, o campeonato contribui para a divulgação do hóquei no gelo no país, promovendo a competitividade e a formação de atletas em diferentes escalões.
Além da competição interna, Portugal participa também na Development Cup Masculina, organizada pela Federação Internacional de Hóquei no Gelo (IIHF). O torneio, iniciado em 2016, destina-se a países em fase inicial de desenvolvimento da modalidade, oferecendo-lhes a oportunidade de competir a nível internacional. A Federação participou pela quinta vez na edição de 2025, sendo esta a terceira participação oficial, e já esteve envolvida na organização do evento em anos anteriores, incluindo a edição de Andorra, que contou com financiamento parcial da IIHF.
Na edição do ano passado, a seleção portuguesa alcançou a final da competição, voltando a defrontar a República da Irlanda, depois de vencer quatro dos cinco jogos da fase de grupos. O torneio permite a Portugal medir-se com outros países em desenvolvimento no hóquei no gelo, fortalecendo a experiência competitiva dos atletas e ajudando a consolidar a presença da modalidade no cenário internacional.
A construção da nova arena, em Portugal, coincidirá com a estreia da nova temporada de “Heated Rivalry”. Segundo o criador da série, Jacob Tierney, as filmagens da segunda temporada começam em agosto, mas a estreia só está prevista para abril de 2027. “Haverá mais Heated Rivalry nos vossos ecrãs, de forma verdadeira, o mais rápido possível”, garantiu Jacob Tierney aos fãs.
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