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Um navio de cruzeiro de luxo, o MV Hondius, que se encontra ao largo de Cabo Verde e transporta cerca de 149 a 150 pessoas de 23 nacionalidades, está atualmente associado a um surto de hantavírus. Até agora, foram confirmadas três mortes, um casal neerlandês e um cidadão alemão, e identificados entre sete e oito casos, incluindo situações já confirmadas e outras ainda sob suspeita. Vários países, como a África do Sul, a Suíça, os Países Baixos e a França, estão a acompanhar de perto os contactos relacionados com o surto.

João Pedro Vieira, médico interno de Saúde Pública, questionado pelo 24notícias se se deve ter medo do hantavírus como da covid-19, é cauteloso, mas não entra em dramatismos. “Nesta fase garantidamente não. As pessoas devem manter-se atentas à informação que vai sendo divulgada pelas autoridades de saúde internacionais, no caso a Organização Mundial da Saúde, e pelas autoridades de saúde nacionais, no caso a Direção-Geral da Saúde, mas estamos muito longe de ter uma situação sequer equivalente àquela que existiu na Covid-19”.

Neste sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) e outras autoridades de saúde referem que o risco de uma propagação em larga escala é reduzido, já que o hantavírus dificilmente se transmite entre pessoas e os surtos tendem a ser limitados a contextos específicos. Ainda assim, a forma mais grave da doença apresenta uma taxa de mortalidade elevada, que pode situar-se entre os 38% e os 40% por caso. Apesar de a OMS ter registado situações graves, incluindo insuficiência respiratória e síndrome de dificuldade respiratória aguda, sublinha que, neste surto em particular, o risco para a população em geral permanece baixo.

A prudência que João Pedro Vieira põe na conversa com o 24notícias é explicada pelo próprio “depois da experiência que tivemos com a Covid-19, qualquer médico de saúde pública responderá sempre com alguma cautela” acrescentando que neste momento “ainda estamos muito longe de ter uma situação pandémica ou sequer epidémica. Por hoje é apenas aquilo a que nós chamamos de um cluster, um surto. É difícil dizer nunca, mas estamos muito longe disso”.

Se agora os olhos estão todos voltados para o vírus, a sua transmissão e o cruzeiro no Atlântico, o médico refere que em 2025 a OMS já tinha registado surtos associados a esta variante Andes e que provocou na altura alguns mortos. Segundo dados da OMS há entre 10 mil e 100 mil casos de hantavírus por ano, um vírus que, explica o médico, é "zoonótico, isto é, transportado por animais, no caso concreto por roedores”. E reforça que as autoridades de saúde não estão a lidar com o desconhecido, esta variante “já tinha sido identificada na América do Sul onde tinham registado transmissão pessoa a pessoa em contextos de grande proximidade. Ou seja, contextos familiares, pequenas comunidades.

No fundo contextos confinados, tal como acontece num cruzeiro.

Em contextos confinados, como acontece num cruzeiro, "trata-se de um surto que está limitado a uma área geograficamente restrita. Por isso, foi rapidamente iniciado um estudo epidemiológico, à semelhança do que se fazia durante a Covid-19, com o objetivo de identificar a origem do vírus e perceber se o contágio ocorreu a bordo." Essa origem pode ter várias explicações, como refere o especialista: pode ter resultado, por exemplo, do contacto com um roedor que tenha mordido uma pessoa e transmitido o vírus, ou ter sido introduzido no navio através de passageiros já infetados.

Sabe-se agora, com o resultado dos estudos, que foram passageiros que vieram da Argentina, provavelmente já infetados, e só depois de embarcarem desenvolveram sintomas. “Entretanto, já são conhecidos casos de pessoas que, infelizmente, faleceram ou tiveram de ser retiradas, só nas últimas horas houve três evacuações. Há também situações de passageiros que desenvolveram sintomas ainda a bordo, bem como de outros que, após deixarem o navio e regressarem a casa e começaram posteriormente a apresentar sinais da doença. Assim, tudo indica que estaremos perante um vírus que foi sendo transmitido de pessoa para pessoa, algo que deverá ser confirmado com maior certeza ao longo do tempo.”

Também a forma de reagir neste caso é semelhante aquela a que assistimos na Covid-19, “tentar perceber quais é que são as cadeias epidemiológicas, termo que tinha saído do nosso vocabulário, ou seja, com quem estas pessoas poderão ter tido contacto de forma a isolar essas pessoas, inclusive no navio há pessoas que estão isoladas”.  O tempo de isolamento pode variar bastante, dependendo daquilo que se vier a apurar sobre a taxa de transmissão do vírus, explica que para já, o foco está em identificar todos os contextos em que estas pessoas estiveram, por exemplo, em viagens de avião, perceber com quem contactaram e avaliar se existe risco de transmissão mais alargada.

E é exatamente neste ponto que se traça uma das maiores diferenças em relação à covid-19 e que “nos deixa, para já, mais seguros de que é pouco provável nesta fase ter uma situação semelhante à da Covid-19”. João Pedro Vieira explica que, na fase atual e tendo em conta o que se conhece sobre esta variante dos Andes, a transmissão deste vírus de pessoa para pessoa exige, em regra, contactos prolongados. Ou seja, trata-se sobretudo de contactos próximos, envolvendo pessoas que tenham convivido durante bastante tempo com alguém infetado. Isto pode acontecer, por exemplo, entre quem partilha a mesma cabine num navio ou, já em ambiente doméstico, entre familiares como cônjuges ou filhos. São essencialmente estes contactos mais próximos que representam um risco efetivo de contágio e que podem vir a desenvolver sintomas. Acrescenta ainda uma segunda camada que “deixa mais alguma margem de segurança”, “habitualmente, as pessoas que são infectadas desenvolvem sintomas num curto prazo de tempo e sintomas muito graves, o que faz com que também seja fácil identificar as pessoas que estão infectadas e também aí se conseguem quebrar as cadeias de transmissão mais rapidamente”.

Ao longo da conversa o médico vai imprimindo alguma ponderação e cautela informada, contudo, amiúde, ressalva que “existe aqui uma grande dose de incerteza. Até porque aquilo que estava previsto na documentação que já existe da Organização Mundial da Saúde sobre este vírus é que as pessoas devem ser monitorizadas durante 45 dias para perceber se podem ou não desenvolver algum tipo de sintoma”.

Questionado sobre a possibilidade de quarentena, esclarece que, “para já, ainda não está definida, a única coisa que estava definida nos documentos anteriores da OMS sobre este tipo de vírus é que só se devia proceder ao isolamento de pessoas que estão efetivamente sintomáticas.” E mais uma vez tranquiliza, “por isso é que ainda estamos longe de uma situação equivalente à da Covid-19 nessa matéria”, para de seguida salvaguardar “naturalmente, esta é uma situação muito evolutiva”.

Se o tema é perceber se estamos na iminência de uma pandemia mundial igual à que vivemos à seis anos, o médico aproveita a memória de 2020 para estabelecer algumas distâncias e lembra o “valor R, que é o índice de transmissibilidade do vírus de pessoa para pessoa, e que a certa altura, no auge da pandemia, chegou a ser de 10. Ou seja, uma pessoa infetada podia infetar até 10 pessoas”. Diferente é a realidade a que assistimos no hantavírus em que “mesmo em contextos de surto, ou seja, pessoas que estão em pequenas comunidades ou em sítios fechados, como é, por exemplo, um navio, o valor R nunca excedeu dois. Uma pessoa  poderia infetar no máximo duas pessoas. E aí tem-se uma noção da diferença de dimensão e de escala para aquilo que está a acontecer agora e aquilo que aconteceu a certa altura na Covid”

Para João Pedro Vieira não há dúvidas de que os ensinamentos da pandemia Covid-19 estão a ser muito úteis na forma como se está a lidar com este surto. Mas que também estão a influenciar a forma mediática como a população e a comunidade científica estão a reagir a um surto “devidamente identificado, devidamente localizado e até está devidamente isolado por força da circunstância destas pessoas estarem no navio, porque essas aprendizagens também nos deixaram, de certa forma, sobrealerta “.

O médico reconhece que pode ser normal que tratando-se de um vírus novo transmitido pessoa a pessoa e que na fase inicial tenha algumas semelhanças com a Covid-19 “pela intensidade dos sintomas”, haja alguma apreensão na população. Mas lembra que se por um lado, “estas semelhanças nos deixam muito alerta, também nos deixam muito proativos na forma como agimos, como reagimos e até como divulgamos informação da forma que tem sido divulgada e com a própria atenção que a Organização Mundial da Saúde dedica a este caso desde o início, para evitar que existam alarmes civis junto da população.”

E são exatamente essas aprendizagens e memórias que acredita estarem na origem das Ilhas Canárias terem rejeitado avaliar, tratar e repatriar os pacientes, depois de Espanha ter aceitado receber o navio em Tenerife. O governo regional das Canárias opõe-se à decisão, alega falta de informação e de garantias de segurança, tendo pedido uma reunião urgente com o governo espanhol. Para João Pedro Vieira na base pode estar o receio de que a situação se possa replicar. “Ou seja, essas aprendizagens, tanto no sentido positivo como no negativo, estão muito presentes na forma como se tem procurado, desde o início, identificar todos os possíveis casos e contactos das pessoas que, infelizmente, já faleceram ou que foram diagnosticadas fora do navio. Trata-se de uma abordagem que atravessa toda a resposta a esta situação.

E ainda no que concerne ao destino dos passageiros do navio e à decisão em discussão em Espanha, refere ser “importante enquadrar  no contexto das regras internacionais existentes”. “Felizmente, tanto a nível nacional como internacional, existe um enquadramento regulatório preparado para responder a este tipo de situações, o Regulamento Sanitário Internacional, que define o que cada país pode e deve fazer, não só para controlar a situação no seu território, mas também para garantir a cooperação entre Estados e evitar a propagação de doenças.” E, precisamente, depois da Covid-19 este  regulamento “foi amplamente discutido para avaliar se seriam necessárias alterações”. Esta decisão está ainda prevista na Regulamentação das Ameaças Transfronteiriças, um instrumento no contexto europeu, “que especifica de forma mais detalhada as responsabilidades dos Estados-membros perante situações deste tipo.”

João Pedro Vieira acredita que a “decisão das Canárias parece refletir sobretudo a falta de informação completa sobre a situação epidemiológica a bordo do navio e sobre a real capacidade de transmissão do vírus, ou eventualmente a incerteza sobre a sua evolução. Ainda assim, é provável que, com o tempo, a situação venha a ser ultrapassada, uma vez que estas pessoas necessitam não só de cuidados de saúde adequados, mas também de retomar a sua vida normal, o que implica esclarecer de forma definitiva as condições de transmissão dentro do navio.”

Nas redes sociais tem crescido a desconfiança em relação a cruzeiros, lembrando que em 2020 o primeiro infetado português também foi num navio, para o médico não há motivos para alarme em continuar a fazer este tipo de férias. “O que acontece é que, em ambientes mais fechados ou mais isolados, como um cruzeiro, um local de trabalho ou até um contexto familiar, há maior probabilidade de transmissão de doenças infeciosas, sobretudo aquelas que se transmitem por aerossóis de pessoa para pessoa, como a gripe ou outras infeções respiratórias.” Explica dever-se ao facto de, “nestes contextos, as pessoas estarem em contacto mais frequente e prolongado entre si. Nos cruzeiros, em particular, os passageiros estão limitados a um espaço específico durante vários dias e acabam por conviver mais intensamente, incluindo situações de partilha de espaços fechados, como cabines. Essa convivência próxima pode facilitar a transmissão, especialmente em casos em que o contágio exige contacto prolongado. No entanto, isso não significa que os cruzeiros sejam, por si só, mais perigosos do que outros contextos do dia a dia. Situações semelhantes podem ocorrer numa sala de trabalho, num espaço de co-working ou até numa família, onde há convivência diária e prolongada. O risco existe em qualquer ambiente de contacto próximo, não apenas em férias em cruzeiro.”

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