Há espaço para mais uma marca de combustíveis em Portugal?

Num mercado com mais de 5,5 mil milhões de litros vendidos por ano, a Petroprix quer ganhar terreno com um modelo automatizado e low cost.
Há espaço para mais uma marca de combustíveis em Portugal?
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O mercado português de combustíveis continua a mexer. Em 2025, de acordo com a Entidade Nacional para o Setor Energético, as vendas totais ultrapassaram os 5,5 mil milhões de litros, um crescimento de cerca de 3% face ao ano anterior. A gasolina subiu mais de 8%, enquanto o gasóleo teve um aumento mais moderado. Apesar do debate sobre eletrificação, o consumo continua elevado.

Ao mesmo tempo, o preço final permanece fortemente condicionado pela carga fiscal. Dados da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos indicam que os impostos representam cerca de 56% no caso da gasolina 95 e 51% no gasóleo. Para termos uma ideia, Portugal está no top 10 dos países com os preços finais mais altos da União Europeia, no que ao gasóleo e gasolina diz respeito.

Num país com mais de 2.700 postos de abastecimento, a pergunta surge naturalmente: haverá espaço para mais uma marca? A Petroprix acredita que sim e aponta ao preço e à eficiência operacional como fatores de diferenciação. A empresa entrou em Portugal em 2024, no seu primeiro passo fora de Espanha, e prepara agora uma nova fase de expansão.

“Portugal foi escolhido como primeiro país, antes de mais, pela proximidade”, afirma Jaime Vega de Seoane, diretor de Desenvolvimento Europeu da empresa. A semelhança cultural e a estrutura do mercado também pesaram. Segundo o responsável, a empresa verificou em Espanha que o modelo tem melhor desempenho em cidades onde a oferta de transporte público é limitada e o automóvel é essencial.

Expansão travada pela burocracia?

O plano passa por avançar com entre 20 e 30 projetos por ano em Portugal nos próximos anos. O limite, garante Jaime Vega de Seoane, não está no investimento disponível, mas nos processos administrativos. “A maior barreira que temos aqui é a mesma que em Espanha: a burocracia”, refere. O responsável considera que o nível de exigência administrativa é comparável ao de outros países europeus onde o grupo já opera.

O modelo da Petroprix assenta em postos totalmente automatizados e abertos 24 horas por dia. Na grande maioria dos postos, não há loja nem funcionários permanentes. O abastecimento, o pagamento e a emissão de fatura são feitos de forma automática.

Posto de abastecimento da Petroprix. Créditos: Petroprix

“Os nossos clientes procuram-nos pelo preço”, resume o executivo. A empresa tem uma regra interna de não praticar preços acima dos concorrentes na mesma zona. A rapidez é o segundo argumento. “Poupamos dinheiro e tempo ao cliente”, diz Jaime Vega de Seoane, explicando que o processo elimina deslocações repetidas à loja, comuns em postos tradicionais.

Grande parte da operação é suportada por tecnologia desenvolvida internamente. A empresa criou o seu próprio software de gestão das estações, o que permite controlar remotamente equipamentos, adaptar-se a novas regras e integrar a aplicação móvel com o sistema da bomba. “É sobretudo um redutor de custos, mas também um fator diferenciador face aos concorrentes”, afirma o responsável.

Combustíveis fósseis continuam no centro

Sobre o perfil do consumidor português, a leitura é positiva. A empresa considera que a sensibilidade ao preço é elevada e que o modelo self-service tem sido bem recebido nos 11 postos de abastecimento que tem no nosso país. Ao mesmo tempo, a diferença histórica de preços face a Espanha, muito associada à carga fiscal, poderá reduzir-se com a expansão de operadores low cost.

O setor enfrenta, porém, uma transição. No início de 2025, circulavam em Portugal cerca de 300 mil carros eletrificados, e a rede pública de carregamento rondava os 5.800 postos. Ainda assim, a Petroprix mantém o foco no combustível tradicional. Jaime Vega de Seoane relativiza o ritmo da transição. “É isso que nos tentam dizer a partir da Europa. Mas a realidade é que muda tão, tão devagar”, afirma. Com base nas análises de mercado que a empresa acompanha, acrescenta que “acreditamos que ainda restam muitos anos de venda de combustível a níveis elevados”.

Em Espanha, segundo o executivo, a empresa é obrigada a instalar carregadores elétricos nas novas estações. “Colocamo-los, mas estamos a ver que ninguém os usa”, admite Jaime Vega de Seoane. Já sobre Portugal, acrescenta que, “graças a Deus, essa exigência não existe, porque é uma exigência absurda. Não existe procura para tantos carregadores”, defende.

Na leitura do responsável, a maioria dos utilizadores de veículos elétricos carrega em casa ou no local de trabalho. “E, se não for assim, carrega em estações de estrada ou autoestradas onde nós não nos posicionamos”, diz. “No dia em que existir procura em Portugal, colocaremos os carregadores à disposição dos clientes”.

A empresa anunciou também um projeto piloto nos Estados Unidos para testar o modelo low cost fora da Europa. O objetivo é avaliar se o conceito pode ser replicado noutro contexto regulatório e competitivo.

No médio prazo, a ambição vai além da operação de postos automatizados. “Queremos ser uma empresa tecnológica dentro do setor energético”, resume. A energia pode mudar; o modelo operacional, para já, mantém-se centrado na eficiência e no controlo de custos, remata Jaime Vega de Seoane.

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