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"Quem ama tem ciúmes". A frase atravessa gerações e continua a ser repetida como uma verdade quase absoluta. Mas será mesmo assim? O 24notícias conversou com o psicólogo e terapeuta de casal, Fernando Mesquita, que esclareceu que a afirmação é um "mito bastante comum" e que "amor e ciúme não são a mesma coisa".
Segundo o especialista, muitas pessoas cresceram a ouvir expressões como "se não tem ciúmes é porque não se importa", criando a ideia de que amor e ciúme caminham lado a lado. No entanto, trata-se de conceitos distintos.
"O amor saudável assenta na confiança, no respeito e na liberdade. Já os ciúmes surgem quando existe a perceção de uma ameaça à relação ou ao vínculo afetivo", explica.
Embora reconheça que sentir ciúmes de forma pontual pode ser uma "emoção humana e natural", Fernando Mesquita sublinha que o problema surge quando a desconfiança persiste mesmo sem motivos concretos.
"De uma forma muito simplista, diria que o amor aproxima, enquanto o ciúme excessivo, muitas vezes, acaba por afastar. Faz parte da vida a dois sentir insegurança ou desconforto perante determinadas situações. O problema começa quando os ciúmes deixam de estar ligados à realidade e passam a dominar a relação", explica.
No seu livro "Deuses caídos", o terapeuta identifica diversos comportamentos que podem indicar um padrão de ciúme excessivo. Entre os mais comuns estão os "interrogatórios constantes sobre a rotina do parceiro", a "monitorização das redes sociais", a "exigência de acesso a mensagens e contas pessoais", as "chamadas frequentes para saber onde está e com quem", ou mesmo a "tentativa de afastar amigos, familiares e colegas".
Outros comportamentos incluem "críticas à forma de vestir", "perseguições disfarçadas de coincidências", "acusações infundadas de infidelidade" e discussões recorrentes motivadas por suspeitas sem fundamento.
Questionado sobre o papel das redes sociais, o especialista diz que as plataformas vieram introduzir novos desafios nas relações amorosas, mas considera que "o problema não reside nas redes sociais, mas na forma como as usamos".
"Atualmente, podemos ter acesso quase permanente à vida de outras pessoas (incluindo a do parceiro), e um "gosto", um comentário, um seguidor novo ou uma fotografia podem ser interpretados de múltiplas formas", afirma o psicólogo.
Para o psicólogo, uma relação saudável constrói-se com base na confiança mútua e no respeito pela individualidade de cada um.
"Quando a confiança desaparece, o controlo nunca é a solução", conclui.
Este ano, perto da data do São Valentim, 14 de fevereiro, a APAV lançou uma campanha que agitou as redes sociais. O "RelationChip" foi apresentado como uma solução tecnológica composta por dois microchips subcutâneos capazes de monitorizar continuamente a relação, permitir o acesso a palavras-passe e rastrear a localização dos parceiros. Sob o lema “Dois chips, um namoro, zero segredos”, o conceito simulava uma ferramenta destinada a “revolucionar” as relações amorosas.
O lançamento gerou reações críticas nas redes sociais, onde muitos utilizadores classificaram a proposta como invasiva e controladora. A APAV esclareceu que o objetivo era provocar desconforto e expor a forma como determinados comportamentos de controlo continuam a ser normalizados, sobretudo entre os mais jovens.
Entre 2022 e 2025, de acordo com os dados apresentados, a APAV apoiou um total de 13.039 crianças e jovens vítimas de crime e violência neste período, o que representa um crescimento de 52,4%. Em média, foram apoiadas 272 vítimas por mês, o equivalente a 63 por semana e nove por dia. A violência doméstica surge como a tipologia mais prevalente, representando 61,7% dos casos.
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