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O site pornográfico Phica.eu publicou imagens manipuladas de diversas figuras públicas femininas, entre as quais a primeira-ministra Giorgia Meloni, a líder da oposição Elly Schlein, várias deputadas e até celebridades como Chiara Ferragni e a atriz Paola Cortellesi.

As imagens, muitas delas extraídas de redes sociais e de fontes públicas, foram alteradas digitalmente, com ampliações de partes do corpo ou inserções em poses sexualizadas, e acompanhadas de comentários sexistas e obscenos. O conteúdo foi reunido numa chamada “seção VIP” do fórum, cuja estética e linguagem são abertamente misóginas, avançou o jornal nacional Roma.

Lançado em 2005, o site passou anos a operar à margem do radar das autoridades, acumulando mais de 700 mil utilizadores. Só recentemente, após denúncias públicas lideradas por mulheres do Partido Democrático (PD), como Valeria Campagna, Alessandra Moretti, Lia Quartapelle e Alessia Morani, é que a Polícia Postal italiana abriu uma investigação formal.

“Basta de silêncio”

A vereadora Valeria Campagna foi a primeira a denunciar publicamente o caso, ao descobrir que fotografias suas, incluindo momentos da sua vida pública, mas também fotos pessoais de férias, estavam a circular no site, editadas e comentadas de forma abusiva.

“Hoje estou desiludida, enojada e furiosa. Mas não posso ficar calada. Esta história não é só sobre mim. É sobre todas nós. É sobre o nosso direito a sermos livres, respeitadas e a vivermos sem medo”, escreveu Valeria Campagna no Facebook.

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A veradora revelou que existe inclusive uma secção no site dedicada a mulheres da sua cidade, Latina, com imagens organizadas por localidade, incluindo Aprilia e várias outras cidades italianas, apontando para um padrão sistemático de violação da intimidade e da dignidade feminina.

Entre os nomes expostos estão também Arianna Meloni, irmã da primeira-ministra, e outras figuras de diferentes espectros políticos: Daniela Santanchè (ministra do Turismo), Maria Elena Boschi (Italia Viva), Mara Carfagna (Noi Moderati), Chiara Appendino (M5S), Anna Maria Bernini (ministra da Universidade) e Alessandra Mussolini, da extrema-direita.

Apesar da gravidade da situação, Giorgia Meloni ainda não se pronunciou publicamente, tendo reservado eventuais declarações para os próximos dias.

"#MeToo italiano"

O caso já está a ser apelidado pela imprensa local como o possível início de um "#MeToo italiano", dado o número crescente de mulheres que vieram a público denunciar o uso não autorizado de imagens suas e exigir consequências legais para os responsáveis.

A eurodeputada Alessandra Moretti, por exemplo, acusou o site de manipular trechos de participações suas em programas televisivos, enquanto Lia Quartapelle afirmou que a publicação das imagens é uma forma de violência online, incentivando mais mulheres a apresentarem queixa.
Já Alessia Morani prepara uma ação judicial e sublinhou que os comentários deixados sob as imagens são “ofensivos, obscenos e inaceitáveis”.

A indignação popular também se materializou numa petição online para o encerramento imediato do site, promovida por Mary Galati, uma mulher de Palermo que também viu imagens suas no Phica. A petição já conta com mais de 150 mil assinaturas.

O caso segue-se ao encerramento recente da página de Facebook “Mia Moglie” (A Minha Esposa), onde homens partilhavam fotos íntimas das suas companheiras sem consentimento, e reabre o debate sobre violência digital de género, deepfakes e a impunidade de grupos online que objetificam mulheres.

Um problema estrutural

Estudos mostram que uma em cada cinco mulheres italianas já foi vítima de partilha não consensual de imagens íntimas. Em julho de 2025, o Senado italiano aprovou uma lei que define pela primeira vez o crime de feminicídio e agrava penas por violência sexual e "revenge porn", mas, para muitas mulheres, os mecanismos de prevenção continuam insuficientes.

O presidente do Senado, Ignazio La Russa, condenou os factos como "sexismo online grave" e prometeu que os responsáveis serão identificados.

“Este é um caso extremamente sério, que gera profunda indignação. Espero que as autoridades atuem com celeridade”, afirmou.

Enquanto isso, a plataforma Phica.eu anunciou o encerramento do site, festejado pelas vítimas online. O caso não deixa de ser um exemplo, também para Portugal, da falta de resposta e proteção dos governos europeus para a exposição do corpo da mulher sem consentimento.