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O Índice de Massa Corporal (IMC) continua a ser um dos principais critérios utilizados para avaliar a obesidade, mas, para a endocrinologista Joana Menezes Nunes, recorrer apenas a este indicador para decidir tratamentos ou medir o risco para a saúde é "redutor" e pode levar a avaliações erradas.

Segundo explica a médica ao 24notícias, o IMC ganhou protagonismo pela simplicidade. A fórmula, que relaciona o peso com a altura, exige apenas uma balança e um estadiómetro, permitindo comparar dados entre grandes populações. No entanto, lembra que foi criada no século XIX por Adolphe Quetelet com um objetivo estatístico e "não para avaliar indivíduos".

"Essa utilidade estatística ao nível da população foi progressivamente transposta para a avaliação individual, onde a sua precisão é francamente menor", afirma.

A especialista sublinha que a principal limitação do IMC é não distinguir a composição corporal. O indicador mede apenas o peso total, sem diferenciar gordura, músculo, osso ou água, nem informa sobre a localização da gordura corporal.

"Dois indivíduos com o mesmo IMC podem ter perfis de risco radicalmente diferentes", refere.

Além disso, acrescenta, o IMC não consegue identificar a gordura visceral — considerada a mais perigosa do ponto de vista metabólico —, pode classificar incorretamente pessoas muito musculadas como tendo excesso de peso e não considera diferenças de sexo, idade ou etnia.

"Os pontos de corte foram estabelecidos maioritariamente em populações de origem europeia, revelando-se desadequados para outras etnias. Em populações asiáticas, por exemplo, o risco metabólico surge com valores de IMC mais baixos", explica.

Um peso "normal" não significa ausência de risco

Joana Menezes Nunes alerta ainda que é possível apresentar um IMC dentro dos valores considerados normais e, ainda assim, ter excesso de gordura corporal e um risco cardiometabólico elevado.

A endocrinologista explica que existe um fenótipo conhecido como "peso normal metabolicamente de obesidade", caracterizado por excesso de gordura, sobretudo visceral, associado a pouca massa muscular. Nestes casos, o risco pode passar despercebido precisamente porque o IMC aparenta estar dentro da normalidade, o que leva ao atraso do diagnóstico ou à sua desvalorização.

Na perspetiva da especialista, a obesidade deve ser entendida como "uma doença crónica, complexa e multifatorial", em que o problema reside no excesso ou na distribuição anómala da massa gorda e nas suas consequências para a saúde física, mental e sexual, e não apenas no peso corporal. Por outro lado, admite que um IMC elevado nem sempre significa doença, nomeadamente quando o aumento do peso resulta de maior massa muscular.

"Não faz sentido algum" decidir tratamentos apenas pelo IMC

Para a endocrinologista, utilizar exclusivamente o IMC para decidir quem deve receber medicamentos para a obesidade "não faz sentido algum". Em alternativa, destaca a razão entre o perímetro abdominal e a altura, um indicador já utilizado em ensaios clínicos, considerando que um valor inferior a 0,5 representa o ponto de corte associado a menor risco para a saúde.

Antes de prescrever medicamentos, defende ainda uma avaliação muito mais abrangente, recorrendo, por exemplo, ao Edmonton Obesity Staging System, que considera complicações médicas, físicas e psicológicas da obesidade.

A decisão terapêutica deve também ter em conta fatores como a situação económica do doente, bem como os seus valores, expectativas e contexto de vida.

"Há que ter ainda em linha de conta a questão monetária à data de hoje, uma vez que os fármacos não estão comparticipados, o que nos continua a limitar, e muito, no tratamento que cada um merece. Falta-nos ainda a equidade e justiça social", afirma.

No caso da obesidade, os medicamentos não são atualmente comparticipados, independentemente do valor do IMC. Já na diabetes tipo 2 continuam a existir critérios assentes neste indicador, havendo comparticipação dos análogos do GLP-1 para pessoas com um IMC igual ou superior a 30 kg/m². A endocrinologista acrescenta que, nos casos de diabetes tipo 1 associada à obesidade, existe "um vazio legal".

A especialista considera ainda que a cirurgia metabólica continua demasiado dependente de critérios como o IMC e a idade, uma abordagem que, na sua perspetiva, "não fará sentido, pois as pessoas não se definem por esses números".

Embora admita que existam doentes que cumpram os critérios baseados no IMC mas para quem a medicação possa não ser a opção mais adequada, sublinha que essas situações são menos frequentes.

"Temos de perceber que a obesidade é uma doença crónica, complexa e multifatorial e que devemos sempre fazer um tratamento integrado e multidisciplinar", afirma.

A endocrinologista alerta que "prescrever uma caneta a um doente sem o devido suporte, sem entender o doente, a sua situação, o seu contexto, sem o estudar é um risco que não se pode correr", defendendo que a decisão terapêutica deve ser sempre personalizada e acompanhada.

Avaliação deve ir muito além da balança

A especialista defende que o risco para a saúde deve ser avaliado através de uma combinação de vários elementos, incluindo uma história clínica detalhada, exame físico, medição da razão entre o perímetro da cintura e a altura, métodos de avaliação da composição corporal, como bioimpedância ou densitometria, e testes de força muscular.

A equipa multidisciplinar, envolvendo psicoterapia, nutrição e fisiologia do exercício, também é considerada essencial, bem como análises que permitam identificar doenças associadas à obesidade e excluir outras causas para o aumento de peso.

Novos medicamentos reforçaram o debate

Joana Menezes Nunes considera que medicamentos como Wegovy e Mounjaro vieram reforçar a necessidade de abandonar uma visão centrada apenas no IMC. A especialista faz questão de distinguir o Wegovy do Ozempic, explicando que, embora contenham a mesma substância ativa, destinam-se a populações diferentes: o Ozempic é indicado para pessoas com diabetes tipo 2 e o Wegovy para pessoas com obesidade.

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Segundo explica, os benefícios destes medicamentos vão muito além da perda de peso, contribuindo para reduzir o risco cardiovascular, renal, hepático, metabólico e inflamatório.

"Estamos a tratar várias doenças ao tratar a obesidade e não apenas um número numa balança", afirma.

Na sua opinião, estes tratamentos aceleraram um debate que já era necessário, o que ajudou a levar a comunidade científica a defender definições de obesidade que integrem parâmetros clínicos e funcionais, e não apenas o IMC.

Apesar dessa evolução, considera que ainda existe um longo caminho a percorrer no combate ao estigma associado à obesidade e na promoção de maior equidade no acesso ao tratamento.

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