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A análise conclui que as contas da luz seriam, em média, 19% mais elevadas se os preços da eletricidade continuassem tão dependentes das cotações do gás natural como acontecia em 2021. A expansão das energias renováveis permitiu reduzir significativamente essa exposição, protegendo os consumidores das recentes oscilações dos mercados energéticos internacionais.
O impacto tornou-se particularmente visível nos últimos meses, numa altura em que a guerra entre Israel e o Irão voltou a pressionar os preços dos combustíveis fósseis. Apesar de uma subida de cerca de 60% no preço do gás, as tarifas elétricas em Espanha mantiveram-se estáveis e chegaram mesmo a registar ligeiras descidas durante a primavera.
“Durante a anterior crise energética, as faturas da eletricidade aumentavam quase imediatamente sempre que o gás subia. Hoje, essa ligação é muito menos intensa”, explica Chris Rosslowe, analista da Ember e autor principal do estudo, ao The Guardian.
Tradicionalmente, as centrais a gás têm desempenhado um papel determinante na formação dos preços da eletricidade na Europa. Contudo, em Espanha, essa influência diminuiu drasticamente. Em 2021, o gás condicionava o preço da eletricidade em mais de metade das horas do ano; nos primeiros cinco meses de 2026, esse peso caiu para apenas 9%.
A diferença torna-se mais evidente quando comparada com outros mercados europeus. Em Itália, por exemplo, país que apresenta atualmente os preços grossistas de eletricidade mais elevados da Europa, o gás continua a determinar o preço da energia em cerca de 75% do tempo.
Os dados revelam também uma alteração significativa na composição do sistema elétrico espanhol. Em 2021, a energia eólica e solar representavam cerca de um terço da produção nacional de eletricidade. Em 2025, essa quota tinha aumentado para 42%, refletindo o forte investimento realizado nos últimos anos.
Especialistas consideram que Espanha beneficiou não apenas de decisões políticas favoráveis à transição energética, mas também de condições naturais particularmente vantajosas. O país dispõe de elevados níveis de radiação solar, bons recursos eólicos e infraestruturas de armazenamento hidroelétrico já existentes, fatores que facilitaram a integração das energias renováveis na rede elétrica.
“Espanha e Portugal estão claramente a beneficiar da sua transição energética antecipada”, afirma Mar Reguant, economista especializada em energia da Universidade Northwestern. “A Península Ibérica dispõe de condições privilegiadas e soube aproveitá-las de forma inteligente”.
Ainda assim, o sucesso não elimina todos os desafios. Alguns especialistas alertam que as centrais a gás continuam a ser essenciais em determinados períodos de maior procura ou menor produção renovável, mantendo influência nos momentos mais críticos da formação dos preços.
Além disso, a limitada capacidade de armazenamento energético e a reduzida flexibilidade do consumo elétrico dificultam o aproveitamento integral da eletricidade produzida por fontes renováveis. Em períodos de excesso de produção solar ou eólica, o sistema nem sempre consegue absorver toda a energia disponível.
Diego García Gusano, investigador sénior na área do planeamento energético do centro tecnológico basco Tecnalia, considera que a estratégia seguida por Espanha está no caminho certo, mas exige investimentos complementares.
“Espanha está hoje menos exposta aos choques nos preços do gás do que muitos outros países europeus, mas não é totalmente imune”, sublinha. “A aposta nas renováveis é sólida, mas são necessários mais investimentos em armazenamento e flexibilidade para transformar esta vantagem numa solução estrutural e duradoura”.
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