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Muitas famílias começam a cuidar de uma pessoa mais velha sem qualquer preparação. Um filho que passa a organizar a medicação, uma neta que acompanha consultas, um vizinho que ajuda nas compras ou um cônjuge que, de um dia para o outro, passa a mobilizar uma pessoa dependente. Tudo são gestos essenciais, mas que envolvem responsabilidades para as quais poucos estão preparados.

O problema não é apenas técnico. Quando falta informação, aumentam os riscos de quedas, erros na gestão de medicamentos, atrasos na identificação de sinais de agravamento clínico e exaustão de quem cuida. E há outro risco, menos evidente: por excesso de proteção, muitas famílias acabam por retirar à pessoa mais velha tarefas e decisões que ainda poderia manter.

"Fazer tudo por alguém pode parecer um gesto de carinho, mas, muitas vezes, acelera a perda de autonomia", alerta ao 24notícias Ana Rodrigues, médica reumatologista e professora de Epidemiologia e Envelhecimento da NOVA Medical School. A especialista sublinha que o equilíbrio está em apoiar apenas aquilo que a pessoa realmente já não consegue fazer, incentivando-a a continuar a decidir, participar e realizar as atividades do dia-a-dia que ainda estão ao seu alcance.

A ideia de que envelhecer implica inevitavelmente perder independência é, segundo a médica, apenas parcialmente verdadeira. "Há alterações naturais associadas à idade, mas muitas perdas de autonomia podem ser prevenidas ou adiadas com atividade física, alimentação adequada, controlo das doenças crónicas, estimulação cognitiva e social e acesso a informação de qualidade",, diz.

"O objetivo deve ser promover a capacidade funcional, permitindo que cada pessoa mantenha durante o maior tempo possível aquilo que consegue fazer e aquilo que é importante para si", defende.

Esperar pela queda continua a ser regra

Em Portugal, a resposta ao envelhecimento continua demasiado centrada na doença já instalada. Fala-se de equilíbrio depois de uma queda, de osteoporose depois de uma fratura ou de alimentação e estilos de vida quando a diabetes já se agravou.

"Esperamos pela queda para falar de equilíbrio, pela fratura para falar de osteoporose ou pelo agravamento da diabetes para reforçar estilos de vida", resume Ana Rodrigues.

A prevenção, acrescenta, "deve começar antes dos problemas e manter-se ao longo de todo o processo de envelhecimento, incluindo nas pessoas que já vivem com doenças crónicas".

"Quanto mais cedo houver capacitação para gerir a saúde, maior será a probabilidade de preservar autonomia, evitar complicações e reduzir situações de dependência", salienta.

Entre os erros mais frequentes estão reduzir demasiado a atividade física por medo de quedas, desvalorizar alterações de visão, audição ou memória, gerir incorretamente a medicação, ter uma alimentação insuficiente ou isolar-se socialmente.

A recomendação mais simples, mas também uma das mais importantes, é manter o movimento no quotidiano. "A autonomia preserva-se usando-a. A atividade física regular, adaptada às capacidades de cada pessoa, contribui para a manutenção da força, do equilíbrio, da mobilidade, da saúde cardiovascular e mental e para a prevenção de quedas", resume.

Cuidar também pode adoecer

A sobrecarga dos cuidadores informais é outro dos problemas. Cuidar não é apenas "dar uma ajuda, implica tomar decisões, acompanhar tratamentos, reconhecer alterações no estado de saúde, organizar consultas, gerir medicação e prestar apoio emocional".

"Sem formação, tarefas como mobilizar uma pessoa dependente, prevenir quedas, medir sinais vitais ou responder a uma situação de emergência podem colocar em risco tanto quem recebe como quem presta cuidados", analisa.

Os sinais de alerta nos cuidadores incluem cansaço persistente, alterações do sono, ansiedade, irritabilidade, tristeza, isolamento social, dores físicas e a sensação contínua de sobrecarga. Muitas vezes, surge também o abandono da própria saúde.

"Quando o cuidador se descuida, não só a sua saúde piora, como também a qualidade dos cuidados prestados pode ser afetada", nota Ana Rodrigues.

"Capacitar cuidadores pode ajudar a reconhecer mais cedo sinais de agravamento, a agir de forma mais adequada e a perceber quando é realmente necessário recorrer às urgências. Isso não substitui avaliação clínica, mas pode evitar erros, atrasos e situações que se agravam por falta de informação", analisa.

Formação para seniores e para quem cuida

É neste contexto que a NOVA Medical School tem em curso o Senior Medical School, um programa aberto à comunidade dedicado a pessoas com mais de 65 anos e a cuidadores informais.

A primeira fase foi direcionada aos idosos. Incluiu sessões práticas sobre alimentação, exercício, literacia em saúde e gestão do dia-a-dia com doenças crónicas.

Até 17 de Julho, o programa centra-se nos cuidadores, como filhos, netos, vizinhos ou outras pessoas que acompanham familiares idosos ou dependentes. As sessões vão abordar primeiros socorros, prevenção de quedas, medição de sinais vitais, alimentação, estimulação cognitiva, gestão do stress e segurança nos cuidados.

Uma das atividades previstas, ‘Um Dia na Pele do Sénior’, permitirá aos participantes experienciar algumas das limitações físicas que afetam as pessoas mais velhas, ajudando a compreender melhor dificuldades que, vistas de fora, são muitas vezes tratadas como teimosia, lentidão ou falta de vontade.

A ambição do programa é simples: preparar melhor as pessoas para que a saúde e a autonomia não dependam apenas do que acontece no consultório ou na urgência, mas também das decisões tomadas todos os dias em casa.

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