Tiago Cação já entregou 27 cartas de sensibilização em 27 municípios de Portugal Continental. Até ao final do mês entregará as restantes 251. Quer atingir as 278 do projeto desta Volta a Portugal que pretende colocar o uso da bicicleta na agenda das políticas de mobilidade urbana.

Mal tinha começado o seu périplo quando, 29 horas e 340 km do trajeto percorrido depois, foi obrigado a parar por questões de saúde ao ser detetado uma pneumonia bilateral de origem viral. O Hospital Santa Maria Maior, EPE, em Barcelos, foi a paragem obrigatória seguinte.

Tiago Cação suspende 'Volta a Portugal' devido a pneumonia
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Forçado a parar, interrompeu o seu propósito de colocar as duas rodas na agenda política.

Recuperou a forma física, e saúde, e retomou esta sexta-feira, 5 de setembro, a “Volta a Portugal”para completar os 6 mil quilómetros do “Projecto 278”na cidade onde parou, Guimarães.

Para trás ficou a entrega da “Carta a Garcia” em 20 municípios: Porto, Matosinhos, Maia, Melgaço, Monção, Valença, Vila Nova de Cerveira, Caminha, Viana do Castelo, Ponte de Lima, Paredes de Coura, Arcos de Valdevez, Ponte da Barca, Terras de Bouro, Póvoa do Lanhoso, Amares, Vila Verde, Braga e Barcelos.

Ryan Le Garrec, realizador belga que acompanhava e estava a documentar a viagem de Tiago Cação (irá continuar a fazê-lo), vestiu a camisola da equipa, tomou a frente deste singular pelotão, pedalou e completou os 110 quilómetros que separam Barcelos de Guimarães, entregando a carta de sensibilização em outras sete autarquias.  

“O propósito, obviamente que se mantém, mais urgente que nunca”

Em comunicado, Tiago Cação considerou ter sido “um golpe duro” a paragem que se viu forçado a fazer.

“Lutei durante estes meses para conseguir voltar a uma forma física que me permitisse concluir este desafio: o de apelar para uma profunda redefinição da mobilidade urbana”, recordou. “Sinto-me preparado e parto confiante que este projeto é maior do que a pausa que sofreu”, explicou ainda na nota de imprensa.

“Em junho tive a infelicidade de adoecer gravemente, mas estou recuperado. Agora, vou com um pensamento de dia a dia, mas com a certeza que qualquer quilómetro que faça, qualquer carta de que entregue, valerá a pena”, adiantou ao 24 Notícias, preparado para enfrentar 240 quilómetros diários ao longo do mês de setembro.

Muda o mês, o calendário eleitoral autárquico aperta, mas tudo o resto se mantém vivo e com mais atualidade: o apelo a uma profunda redefinição da mobilidade urbana e à necessidade de mudança de paradigma nas políticas urbanísticas, dando prioridade à sustentabilidade, saúde, segurança e à qualidade de vida das populações.

“O propósito, obviamente que se mantém, mais urgente que nunca, até porque a pré-campanha já arrancou e a mobilidade continua a não ser um tema de debate”, alertou.

“É preciso reforçar que deve ser prioritário, e que são as autarquias que têm a capacidade de executar medidas que melhoram a qualidade de vida das populações”, avançou Tiago Cação, que trabalha na indústria musical, é fotógrafo, produtor, escritor de viagens e ciclista de causa sociais, tendo, no passado, percorrido o asfalto para ações de crowdfunding de apoio a profissionais dos meios culturais e audiovisuais.

“O espaço público em meio urbano, que é dedicado exclusivamente ao automóvel, deve ser reduzido e esse espaço deve ser devolvido aos peões, aos transportes coletivos, e claro, a bicicleta deve estar no topo dessa cadeia”, avançou.

Continua com as explicações e com os alertas. “Há um número muito reduzido de, por exemplo, ruas pedonais no país. Em Lisboa, por exemplo, contam-se pelos dedos das mãos”, frisou na conversa com o 24 Notícias, 12 horas antes de partir.Dá como exemplo “a transformação” que está a acontecer “um pouco por toda Europa” e lamenta que “em Portugal ainda temos candidatos que fazem campanha a prometer terminar com ciclovias”, rematou.

Relembrar os incêndios e promover o interior e o mundo rural 

Mas a travessia pelos caminhos e cidades de Portugal não se restringe só às politicas de mobilidade urbana.

“Quero também aproveitar esta viagem, para dentro do possível, apelar para que se continue a visitar o interior do país, que foi gravemente afetado pelos incêndios de agosto”, relembrou.

“Portugal é um país lindíssimo, ciclável e seguro. Que o façam de bicicleta, a viagem vai ser muito mais rica”, exaltou Tiago Cação, formado em Turismo, que procura, através desta iniciativa demonstrar que Portugal é um destino de referência no cicloturismo e no turismo sustentável.

Ao longo do percurso serão produzidos conteúdos audiovisuais que colocam no mapa da visibilidade a diversidade paisagística, patrimonial e cultural do território, quer nas zonas urbanas como nas zonas rurais, com menos densidade populacional.

O “Projecto 278”, aberto a crowdfunding conta com o Alto Patrocínio do Presidente da República e com o apoio institucional da Associação Nacional de Municípios, da Federação Portuguesa de Ciclismo, da MUBI, do IMT – Instituto da Mobilidade e dos Transportes, do ICFN – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas e da ABIMOTA.