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No novo episódio de Explica-me Isto, conversamos com Henrique Pereira dos Santos, arquiteto paisagista que trabalhou durante mais de três décadas em áreas protegidas e conservação da natureza, incluindo no ordenamento e gestão de áreas protegidas e da Rede Natura 2000, para perceber se estamos a fazer a gestão correta do antes, durante e após os incêndios.

Ao longo da conversa, Henrique Pereira dos Santos desmonta algumas das ideias mais repetidas sobre os incêndios florestais. Desde logo, a noção de que as tempestades criaram inevitavelmente uma "bomba-relógio" para o verão. "Há uma grande acumulação de combustíveis que decorre na ausência de gestão ou de uma gestão não suficiente", explica, sublinhando que o problema não é apenas o que caiu com as tempestades, mas sobretudo o que ficou por gerir.

O especialista, que se diz estudioso da evolução da paisagem rural portuguesa e da sua relação com a biodiversidade, lembra ainda que o fator decisivo continua a ser a meteorologia. "O que transforma o ano numa tragédia ou não é a combinação da meteorologia com a disponibilidade de combustíveis", afirma. E alerta para uma realidade muitas vezes esquecida: a maior parte da área ardida concentra-se em poucos dias do ano. "Dias complicados costumam ser em média 12 ou 15 dias. Não mais do que isso."

Para o autor dos livros Do Tempo e da Paisagem, O Gosto de Sicó e Portugal: Paisagem Rural, a prevenção dos grandes incêndios passa menos pela substituição de árvores e muito mais pela criação de condições para uma gestão ativa e permanente da paisagem. Contesta uma das ideias mais repetidas no debate sobre os incêndios em Portugal: a de que o eucalipto é, por si só, o principal responsável pelos grandes fogos. Para o arquiteto paisagista, o fator decisivo não é a espécie dominante numa floresta, mas sim a quantidade e a estrutura dos chamados combustíveis finos, ervas, matos, folhas e outros materiais que alimentam a propagação rápida das chamas.

Segundo explica, "a diferença não é a espécie. A diferença é o modelo de gestão". Por isso, considera que o debate se concentra demasiadas vezes nas árvores erradas e demasiado pouco na forma como o território é gerido. Também rejeita a ideia de que os óleos essenciais do eucalipto expliquem, por si só, a intensidade dos incêndios, classificando esse argumento como uma visão excessivamente teórica e distante da realidade do terreno. Lembra ainda que pinheiros e outras espécies também possuem substâncias inflamáveis e que, em contexto real, o comportamento do fogo depende sobretudo dos combustíveis disponíveis à superfície. Refere que uma parte significativa dos eucaliptais portugueses é gerida de forma profissional e rentável e argumenta que essa gestão se traduz em menor risco de incêndio. Segundo afirma, a incidência de fogo nos terrenos geridos pelas celuloses é significativamente inferior à média nacional, precisamente porque essas empresas investem de forma contínua na prevenção. A gestão começa logo na plantação, com o desenho das parcelas, a criação de acessos para maquinaria, a manutenção regular dos terrenos e o controlo dos combustíveis finos.

Para o especialista, a principal lição é que a gestão florestal exige um modelo económico que a sustente. Por isso, menciona também iniciativas ligadas ao pinhal, como os projetos desenvolvidos pela Sonae em parceria com a Fundação Gulbenkian, defendendo que a rentabilidade é um fator essencial para garantir uma gestão continuada do território. Na sua perspetiva, sem atividade económica e sem pessoas interessadas em retirar valor da floresta, a acumulação de vegetação torna-se inevitável e o risco de incêndio aumenta.

Para Henrique Pereira dos Santos, falar apenas em "limpeza" das florestas é redutor. "Não se trata de limpar. Trata-se de gerir", afirma. E acrescenta uma visão que pode surpreender muitos, "o fogo não é um inimigo a abater. É um processo que temos de gerir" e explica como o usar para a prevenção dos incêndios.

Feito o antes, no durante é particularmente crítico da forma como Portugal organiza a resposta aos incêndios, defendendo que existe uma confusão entre duas missões diferentes: a proteção de pessoas e bens e o combate ao fogo florestal e que há muita gente que não percebe de incêndios responsável por lhes responder.

Para o arquiteto, a Proteção Civil tem um papel essencial na proteção de casas, aldeias, infraestruturas e populações, mas considera que o combate ao fogo florestal deveria estar muito mais ligado à gestão florestal do que ao atual modelo operacional. "Uma coisa é a Proteção Civil, que trata da proteção de casas, equipamentos, fábricas e pessoas. Outra coisa é o combate ao fogo florestal e isso é uma componente da gestão florestal", afirma.

Na sua perspetiva, misturar estas duas dimensões tem consequências práticas. Defende que muitas das pessoas com responsabilidades na gestão operacional dos incêndios têm formação em proteção civil, mas não necessariamente em gestão florestal ou comportamento do fogo. Por isso, considera que o sistema tende a olhar para os incêndios sobretudo como um problema de emergência e não como um fenómeno que resulta de anos de decisões, ou da ausência delas, sobre o território. "O combate ao fogo florestal não se faz numa estrada à espera que o fogo chegue. É preciso lá ir", afirma. Defende uma abordagem mais próxima da gestão florestal profissional, baseada no conhecimento do terreno, na antecipação do comportamento do fogo e no trabalho prévio realizado ao longo do ano.

Henrique Pereira dos Santos argumenta ainda que o combate aos incêndios não pode ser visto apenas como aquilo que acontece durante os dias de crise. Pelo contrário, diz que a eficácia da resposta num incêndio grave depende fortemente do trabalho feito nos anos anteriores. "O combate florestal nesses dias que são complicados é fortemente condicionado por tudo o que se fez ao longo do ano anterior e ao longo dos anos anteriores", explica.

Também critica a forma como o debate público se concentra frequentemente no número de meios disponíveis, aviões, bombeiros ou viaturas, sem discutir suficientemente a estratégia. Observa que todos os anos se fala do reforço dos meios, mas raramente se explica aos cidadãos como um fogo se está a comportar, para onde se dirige ou quais são as probabilidades reais de o controlar. Portugal continua demasiado focado na resposta à emergência e insuficientemente concentrado na gestão do território, reconhece que a proteção civil é indispensável para salvar vidas e proteger património, mas não pode substituir uma política consistente de gestão florestal. Sem essa gestão, argumenta, o país continuará a enfrentar os mesmos problemas todos os verões, independentemente do número de meios mobilizados.

Ao longo da conversa, discute-se ainda o abandono do interior, a rentabilidade da floresta, a prevenção, o combate aos incêndios e a forma como Portugal continua a encarar o fogo sobretudo como um problema de proteção civil, quando uma parte importante da solução passa pela gestão do território. Num momento em que o calor aperta e o risco aumenta em várias regiões do país, este episódio ajuda a perceber o que realmente alimenta os grandes incêndios e quais são os erros que continuamos a repetir.

Há temas que dominam a atualidade, mas nem sempre são fáceis de entender. Em "Explica-me Isto", um convidado ajuda a decifrar um assunto que está a marcar o momento. Política, economia, cultura ou ciência, tudo explicado de forma clara, direta e sem rodeios. Os episódios podem ser acompanhados no FacebookInstagram e TikTok do 24notícias.

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