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No novo episódio de Explica-me Isto, conversamos com Gabriel Lagoa, do The Next Big Idea, para perceber o que distingue o Amália dos sistemas de IA que milhões de pessoas já utilizam diariamente e porque é que este projeto não foi pensado para competir com o ChatGPT.
Ao longo da conversa, Gabriel Lagoa começa por desfazer aquela que considera ser a maior confusão em torno do projeto: a diferença entre um modelo de inteligência artificial e uma ferramenta como o ChatGPT, Claude ou Gemini. "O modelo de inteligência artificial é como se fosse o motor desse carro", explica. "O motor sozinho não é capaz de fazer o carro ir a lado nenhum." Já ferramentas como o ChatGPT são o veículo completo, com interface, memória, acesso à internet e outras funcionalidades construídas sobre esse motor.
Por isso, defende que não faz sentido comparar diretamente o Amália ao ChatGPT. "O que existe na verdade é um motor, ou seja, um modelo de inteligência artificial ao qual um terceiro pode construir uma ferramenta à volta", afirma. Lembra que, poucos dias após o lançamento oficial, já tinham surgido interfaces criadas por empresas privadas que permitiam conversar com o modelo, alimentando a ideia errada de que o Amália era um chatbot semelhante ao ChatGPT.
Desenvolvido por um consórcio de universidades portuguesas e mais de 60 investigadores, o Amália foi treinado para compreender e gerar português europeu, recorrendo como base ao modelo europeu EuroLLM e reforçando-o com grandes quantidades de dados nacionais provenientes do Arquivo.pt, cuidadosamente filtrados para privilegiar a variante europeia da língua.
Segundo Gabriel Lagoa, a aposta no português europeu é uma das grandes razões de ser do projeto. "Conseguimos ter menos erros face, por exemplo, ao ChatGPT", explica, acrescentando que o modelo incorpora expressões idiomáticas, referências culturais e conhecimento sobre figuras e monumentos nacionais. O objetivo é garantir uma compreensão mais próxima da realidade portuguesa e evitar erros frequentes, como a mistura entre português europeu e português do Brasil.
Gabriel Lagoa explica ainda que os responsáveis pelo Amália assentam o desenvolvimento do modelo em três pilares de soberania: a língua, a cultura e os dados. Este último assume particular relevância na Administração Pública, permitindo que informação sensível seja processada em território nacional e sujeita às regras europeias de proteção de dados, sem depender de infraestruturas de grandes tecnológicas estrangeiras.
Ao longo da conversa, são também apresentados exemplos concretos da utilização prevista para o modelo. O Amália deverá servir de base ao assistente digital do portal gov.pt, apoiar a automatização de processos administrativos, ajudar professores no planeamento de aulas através da plataforma IAedu e permitir que empresas e startups desenvolvam soluções adaptadas ao contexto português.
Outro dos aspetos abordados é o facto de o Amália ser disponibilizado em código aberto. Para Gabriel Lagoa, esta opção oferece três vantagens fundamentais: reforça a soberania tecnológica, aumenta a transparência sobre a forma como o modelo foi treinado e reduz os custos de desenvolvimento para empresas e investigadores. "Qualquer empresa ou startup pode construir por cima deste modelo sem ter de pagar uma licença", explica.
A conversa passa ainda pelo investimento público no projeto, que ascende atualmente aos sete milhões de euros, e pela dimensão da ambição portuguesa na inteligência artificial. Gabriel Lagoa considera que Portugal não tem escala para criar um concorrente direto dos grandes modelos internacionais, mas sublinha que esse nunca foi o objetivo. "Nós não temos dimensão para criar um concorrente do ChatGPT", reconhece. "Mas o Amália também não foi pensado para ser um concorrente."
A aposta portuguesa faz sentido precisamente por se concentrar naquilo que o país consegue fazer melhor: desenvolver um modelo adaptado à sua língua, à sua cultura e às necessidades da Administração Pública e das empresas nacionais. Ainda assim, deixa uma dúvida sobre o futuro: "Sete milhões de euros podem dar para este primeiro passo, mas não sei se chegam para dar o segundo e o terceiro passo."
Há temas que dominam a atualidade, mas nem sempre são fáceis de entender. Em "Explica-me Isto", um convidado ajuda a decifrar um assunto que está a marcar o momento. Política, economia, cultura ou ciência, tudo explicado de forma clara, direta e sem rodeios. Os episódios podem ser acompanhados no Facebook, Instagram e TikTok do 24notícias.
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