Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Foi hoje decidido que Israel poderá participar na Eurovisão, em 2026, depois de os membros da União Europeia de Radiodifusão (EBU) terem decidido não convocar uma votação sobre a sua participação, apesar das ameaças de boicote à competição por parte de alguns países.
A decisão foi tomada durante a assembleia-geral da União Europeia da Radiofusão, que decorreu na Suíça.
De acordo com a EBU, os membros votaram de forma esmagadora a favor de novas regras destinadas a desencorajar os governos e terceiros de promoverem canções de forma desproporcional para influenciar os votantes, após alegações de que Israel impulsionou injustamente a sua representante este ano.
“Os participantes que representavam os membros da EBU foram convidados a votar em escrutínio secreto sobre se estavam suficientemente satisfeitos com as novas medidas e salvaguardas anunciadas no mês passado, sem que houvesse uma votação sobre a participação no evento do próximo ano”, lê-se num comunicado da EBU.
“Uma grande maioria dos membros concordou que não havia necessidade de uma nova votação sobre a participação e que o Festival Eurovisão da Canção 2026 deveria prosseguir conforme planeado, com as salvaguardas adicionais em vigor”, acrescenta.
Recorde-se que diversos países pediram a exclusão de Israel devido ao impacto humanitário da guerra em Gaza e às acusações de práticas eleitorais injustas.
Apesar dos apelos para uma votação sobre a participação de Israel, os membros aprovaram, em vez disso, um novo conjunto de regras destinadas a proteger a integridade da competição.
Como consequência, já se sabe que Irlanda, Espanha, um dos "Big Five" (grupo de cinco países que passa diretamente à final da competição e contribuem mais para a EBU), Países Baixos e Eslovénia vão boicotar o Festival Eurovisão da Canção de 2026. A Islândia deverá seguir o mesmo caminho nos próximos dias.
Aproximadamente 50 emissoras participaram na reunião da União Europeia de Radiodifusão, avança a BBC. O concurso é assistido por mais de 150 milhões de pessoas todos os anos.
Em reação, o presidente israelita, Isaac Herzog, disse que Israel "merece ser representado em todos os palcos do mundo". Também a KAN, emissora de Israel, confirmou em comunicado que vai participar no festival, não se coibindo face ao boicote.
Como começou este problema?
A questão não é nova: já em 2024 foi necessário o diretor da EBU, Noel Curran, emitir um comunicado a esclarecer a participação de Israel no concurso. Na altura, sublinhava que a organização estava "comovida com o profundo sofrimento de todos os envolvidos nesta guerra terrível (...). No entanto, o Festival Eurovisão da Canção é um evento musical apolítico e uma competição entre emissoras de serviço público membros da EBU. Não é uma competição entre governos". Nesse sentido, foi decidido pelos membros do Conselho Executivo que a emissora pública israelita KAN atendeu a todas as regras da competição para participar como fez nos últimos 50 anos.
Em 2024, no festival organizado pela Suécia, a música israelita, interpretada por Eden Golan, foi obrigada a mudar de nome para "Hurricane", depois de várias críticas contra o nome original "October Rain", que parecia fazer referência ao ataque liderado pelo Hamas no dia 7 de outubro contra Israel, no qual Israel diz que mais de 1.200 pessoas foram mortas e 240 feitas reféns.
Já a letra, que originalmente incluía os versos "Hours and hours and flowers/Life is no game for the cowards" ("Horas e horas e flores/A vida não é um jogo para covardes", em tradução livre) passou a ser uma balada romântica com frases como "Dancing in the storm, I got nothing to hide/Take it out and leave the world behind/Baby, promise me you hold me again/I'm still taken from this hurricane" ("Dançando na tempestade, não tenho nada a esconder/Leva tudo para fora e deixa o mundo para trás/Querido, promete que me abraçarás novamente/Eu ainda estou longe deste furacão", em tradução livre).
Também em 2024, no próprio dia da participação, na cidade de Malmö (Suécia), aconteceram inúmeros protestos de grupos pró-Palestina contra a participação de Israel e já durante as apresentações houve vaias contra a representante israelita, Eden Golan.
Além disso, vários fãs reclamaram que os protestos em direto foram suprimidos ou disfarçados por sons de aplausos inseridos na edição para “atenuar” a reação negativa do público.
Ao mesmo tempo, a delegação israelita reclamou que sofreu “ódio sem precedentes” vindo de outras delegações e artistas, simplesmente por serem israelitas, chegou a avançar o Times of Israel.
Por outro lado, alguns artistas e comentadores criticaram a própria participação de Israel enquanto se estivessem a cometer atos militares no conflito, o que prova que é impossível separar a música da política numa situação tão complexa.
Em debate esteve também a enorme discrepância entre o voto do público (televoto) e o voto dos júris. A música “Hurricane” recebeu muitos votos do público, mas foi bastante penalizada nos votos dos júris, o que levou a acusações de que os júris estariam “politizados” ou a favorecer certos países por razões além da música. Por sua vez, no caso do televoto há quem pense que o público teria favorecido Israel por simpatia política ou pelo contexto do conflito que envolve Israel, mais do que pela música em si. Países como Espanha alegaram que o sistema de televoto pode ser influenciado por “votos de simpatia ou solidariedade”.
Este ano, a canção de Yuval Raphael, “New Day Will Rise”, voltou a apresentar exatamente o mesmo fenómeno. Dos votos do público, Israel obteve 297 pontos, o valor mais alto do televoto. Mas no voto dos júris profissionais, Israel teve apenas 60 pontos, um resultado muito inferior, que deixou a música em 14.º lugar no ranking do júri e que fez com que fosse impossível ultrapassar o vencedor (Áustria), que teve a melhor soma dos dois.
Recorde-se que no modelo de Eurovisão atual, o resultado final de cada país depende de uma combinação: metade dos pontos vêm do público (voto por televoto via chamadas, SMS ou app), metade de jurados profissionais de cada país. Isto significa que mesmo que uma canção seja muito popular entre o público, se cair muito mal junto dos júris, pode não ganhar. E vice-versa: uma canção que ganhe junto dos júris, mas pouco junto do público também pode ficar de fora do topo.
Israel está no Festival Eurovisão da Canção, mas não faz parte da Europa. Porquê?
O Festival Eurovisão da Canção está aberto a todos os membros da União Europeia de Radiodifusão, que representa emissoras de toda a Europa, do Médio Oriente e do Norte de África. A Austrália participa também como convidado desde 2015.
A emissora pública israelita é membro da EBU desde 1957 e participa no Festival Eurovisão da Canção há 50 anos.
Israel foi representada no festival 47 vezes desde a sua estreia em 1973. A atual emissora israelita participante do concurso é a Corporação Pública de Radiodifusão de Israel (IPBC/Kan). Israel venceu o concurso quatro vezes e sediou o evento em Jerusalém em 1979 e 1999 e em Tel Aviv em 2019. A vitória mais recente, pela quarta vez, em 2018, foi mesmo em Lisboa, com "Toy", interpretado por Netta.
O que se espera este ano?
A saída de Espanha representa um duro golpe financeiro e simbólico para a organização do festival, dado o peso do país no orçamento e na dinâmica.
A emissora espanhola RTVE sublinhou sobre a saída do concurso que: "O conselho de administração da RTVE concordou em setembro passado que Espanha se retiraria do Festival Eurovisão da Canção se Israel fizesse parte dele".
"Essa desistência também significa que a RTVE não transmitirá a final do Eurovision 2026... nem as semifinais".
Recorde-se que a RTVE liderou os apelos pela retirada de Israel e solicitou uma votação secreta sobre a sua participação.
Segundo a emissora, os organizadores "negaram o pedido da RTVE", acrescentando: "Esta decisão aumenta a desconfiança da RTVE na organização do festival e confirma a pressão política que os cerca".
Também no início deste ano, mais de 70 antigos participantes (entre eles Salvador Sobral, António Calvário, Fernando Tordo, Lena D'Água e Paulo de Carvalho) assinaram uma carta a pedir aos organizadores que banissem Israel da competição de 2025 em Basileia, que o cantor austríaco JJ venceu.
No próximo ano, o evento será realizado na capital austríaca, Viena, nos dias 12, 14 e 16 de maio.
Alemanha e Itália, também parte dos "Big Five" (compostos por: França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido), disseram que se retirarão se Israel for expulso.
Lembra-se que, quando a Rússia foi expulsa do concurso de música em 2022, após a invasão da Ucrânia, a razão foi algo diferente, porque se sentiu que as emissoras russas não eram mais independentes do governo russo, algo que até agora não foi uma questão com Israel para os líderes da Eurovisão.
Antes de tomar essa decisão na altura, a EBU disse que tinha realizado uma ampla consulta entre os seus membros em 2022. Naquele ano, a Ucrânia venceu a competição com a canção "Stefania", de Kalush Orchestra.
Recorde-se que a Eurovisão é adorada pelos sucessos pop exagerados, baladas animadas e músicas que ficaram para a história dos países participantes mesmo quando não ganharam. Mas, ao longo dos anos, os artistas usaram esta plataforma muitas vezes para enviar mensagens políticas, afastando a competição do mote atual do concurso "United By Music" ("Unidos pela música", em tradução livre).
Em 2023, a Suíça enviou uma música anti-guerra, "Watergun", enquanto a Islândia foi multada em 5.000 euros em 2019 por hastear uma bandeira da Palestina durante a competição.
Já 2016, a Ucrânia também venceu o evento com uma música chamada "1944", sobre a limpeza étnica dos tártaros da Crimeia naquele ano pelas forças soviéticas.
O que fará Portugal?
A RTP manifestou-se esta tarde sobre a participação de Portugal na Eurovisão de 2026 e sublinha que "a RTP vai participar na edição do Festival Eurovisão da Canção 2026".
Em comunicado, a estação refere: "Foi votada esta tarde em Assembleia Geral da EBU a alteração às regras de votação no Festival Eurovisão da Canção, edição de 2026, no sentido de reforçar a confiança e a transparência e garantir a neutralidade do evento".
"A RTP, assim como a larga maioria de países membros, votou a favor da alteração das regras que permitem que os países participem na próxima edição do Festival Eurovisão da Canção com um maior grau de confiança nos resultados das votações", acrescentam.
"Com base nesta decisão da EBU, detentora do Festival Eurovisão da Canção, a RTP vai participar na edição do Festival Eurovisão da Canção 2026, em Viena de Áustria", terminam.
Lembra-se que Portugal participou, até à data, 57 vezes no Festival Eurovisão da Canção (não incluindo a canção que representaria o país no ano de 2020, quando o festival foi cancelado), tendo sido a primeira em 1964. O país só não compareceu no concurso cinco vezes desde a sua estreia, tendo-se retirado então nas edições de 1970, 2000, 2002, 2013 e 2016.
A RTP conseguiu pela primeira vez a vitória no concurso com a sua participação no Festival Eurovisão da Canção 2017, realizado em Kiev, Ucrânia, com a canção "Amar pelos Dois", interpretada por Salvador Sobral. Portugal nunca tinha conseguido até então superar o 6.º lugar da representação de 1996 — com a canção "O meu coração não tem cor", de Lúcia Moniz. Em 2022 e em 2024, Portugal voltou a conseguir lugares no top 10 com as respetivas canções, "Saudade, Saudade" de MARO, a terminar em 9.º lugar, e "Grito", de Iolanda, em 10.º lugar.
Em 2025, a banda madeirense NAPA, com a canção "Deslocado", apurou-se para a final da Eurovisão, depois de ganhar o Festival da Canção, mas terminou em 21.º lugar.
__
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários