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A Comissão Europeia não está satisfeita com o ritmo de redução da sinistralidade rodoviária na União Europeia e considera que os progressos continuam a ser insuficientes face às metas definidas para esta década. Bruxelas sublinha mesmo a necessidade de acelerar resultados de forma consistente e sustentada nos próximos anos.

Em Portugal, a tendência é de melhoria nos indicadores de mortalidade rodoviária, mas  a evolução é mais lenta do que a média europeia, algo que também não é do agrado da Europa, que diz que o ritmo atual está longe do necessário para cumprir o objetivo europeu de reduzir para metade as mortes na estrada até 2030 e aproximar-se de zero fatalidades em 2050, no âmbito da estratégia Vision Zero.

O comissário europeu responsável pelos Transportes, Apostolos Tzitzikostas, afirma que os números mostram progresso, mas também um limite claro da atual trajetória política. "Embora a redução de 3% seja um passo na direção certa, não é suficiente. Muitas vidas continuam a perder-se nas nossas estradas todos os anos. Precisamos de acelerar os esforços, especialmente na proteção dos utilizadores mais vulneráveis. Portugal? A evolução tem acontecido, mas de forma mais lento, há coisas a analisar, claramentet", responde por email ao 24notícias.

A Comissão Europeia insiste que a tendência de descida "só será sustentável se for acompanhada por mudanças estruturais, nomeadamente maior fiscalização, redesenho urbano e reforço das políticas de segurança rodoviária" nos Estados-membros.

Apesar da redução global, o retrato europeu continua marcado por fortes assimetrias. Países como Suécia e Dinamarca mantêm-se entre os mais seguros da Europa, com taxas muito baixas de mortalidade por milhão de habitantes, enquanto Estados como Roménia, Bulgária e Croácia continuam no extremo oposto da tabela.

Segundo dados europeus recentes, a média da União Europeia situa-se nos cerca de 45 mortos por milhão de habitantes, mas países do Leste europeu continuam a ultrapassar largamente este valor, refletindo diferenças estruturais ao nível da infraestrutura rodoviária, fiscalização e cultura de condução.

A Comissão Europeia sublinha que, "embora muitos países estejam a convergir, o ritmo é desigual e em alguns casos instável, com oscilações anuais que dificultam o cumprimento das metas comunitárias".

Portugal: descida consolidada, mas ritmo abaixo da média europeia

Em Portugal, a tendência geral continua a ser de descida da mortalidade rodoviária ao longo das últimas décadas, mas os dados mais recentes indicam um ritmo de melhoria inferior ao registado em muitos parceiros europeus.

De acordo com dados europeus e nacionais, Portugal regista, em média, atualmente cerca de 589 a 600 mortes por ano nas estradas, mantendo uma taxa de mortalidade superior à média da União Europeia, apesar dos progressos históricos registados desde o início dos anos 2000.

O país conseguiu reduzir drasticamente a sinistralidade nas últimas três décadas, mas nos últimos anos a evolução tem sido descrita como "de estagnação relativa" por vários relatórios europeus de segurança rodoviária.

Em contacto com o 24notícias, fonte do MAI reconhece que o país continua a enfrentar desafios estruturais importantes e defende a necessidade de uma resposta mais integrada. "Estamos a trabalhar numa nova estratégia nacional de segurança rodoviária que visa reduzir em 50% o número de mortos e feridos graves até 2030. Não se trata apenas de legislação, mas de mudar comportamentos e reforçar a prevenção no terreno", diz.

O Governo português admite ainda que o processo de aprovação da nova estratégia tem sido mais lento do que o previsto, mas garante que o documento deverá avançar em breve para execução, com medidas que vão desde reforço da fiscalização até alterações ao Código da Estrada.

Apesar das críticas ao ritmo atual por parte da Comissão Europeia, Portugal é frequentemente citado como um dos países europeus com maior melhoria de longo prazo na segurança rodoviária. Em três décadas, o país reduziu a mortalidade rodoviária em mais de 80%, passando de um dos piores registos da Europa para valores intermédios no contexto europeu.

No entanto, essa evolução perdeu intensidade nos últimos anos, com vários relatórios a apontarem para uma fase de estabilização, em que os ganhos adicionais são mais difíceis de alcançar sem mudanças estruturais profundas.

Aliás, as mortes nas estradas dispararam no início de 2026. Entre 1 de janeiro e 18 de junho de 2026, registaram-se 70117 acidentes rodoviários em Portugal, que resultaram em 227 mortos, 1191 feridos graves e 19128 feridos ligeiros.

Face ao mesmo período de 2025, trata-se de mais cerca de seis mil acidentes e mais 46 vítimas mortais, o que representa um aumento aproximado de 25% no número de mortes nas estradas.

Lisboa foi o distrito com maior número de vítimas mortais (32), seguido de Leiria, Santarém e Porto, todos com 22.

A PSP e a GNR têm intensificado operações de fiscalização, mas admitem que a alteração de comportamentos continua a ser o principal desafio para reduzir a sinistralidade grave.

A ANSR sublinha também que a evolução da sinistralidade em Portugal "continua a demonstrar uma tendência global de descida, mas com oscilações significativas ao longo do ano e forte dependência do comportamento humano", lembrando que o excesso de velocidade, o álcool e a distração ao volante permanecem como os principais fatores associados à mortalidade rodoviária.

Num enquadramento mais recente da estratégia nacional, a ANSR reforça ainda que o objetivo passa por uma mudança estrutural e não apenas estatística, defendendo que "a redução sustentada da sinistralidade só será possível com uma abordagem integrada que combine fiscalização, prevenção e educação rodoviária, envolvendo todos os utilizadores da estrada".

Em vários relatórios técnicos, a autoridade acrescenta que "os dados mostram que, apesar dos progressos registados nas últimas décadas, Portugal ainda enfrenta desafios relevantes na redução dos acidentes graves, sobretudo fora das autoestradas e em contexto urbano e interurbano".

A nova geografia da sinistralidade: menos autoestradas, mais estradas locais

Os dados europeus mostram ainda uma mudança estrutural importante, pois a maioria das mortes já não ocorre em autoestradas, mas sim em estradas urbanas e rurais. Este fenómeno está associado ao aumento da mobilidade local e ao crescimento da circulação de utilizadores vulneráveis, como peões, ciclistas e motociclistas.

A Comissão Europeia tem vindo a reforçar políticas de segurança em ambiente urbano, incluindo limites de velocidade mais baixos em zonas residenciais e maior controlo automático de infrações.

Apesar da descida registada em 2025, a União Europeia continua longe da trajetória necessária para cumprir o objetivo de reduzir para metade as mortes na estrada até 2030.

Os dados mostram uma redução global, mas insuficiente para o ritmo exigido, com vários países a não conseguirem manter melhorias consistentes ano após ano.

Bruxelas reconhece que o desafio já não é apenas tecnológico ou infraestrutural, mas sobretudo comportamental e político, exigindo maior consistência na aplicação das regras de trânsito e investimento continuado em prevenção.

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